Pesquisa das Pesquisas: Relatório N° 3

Uma leitura do conjunto das pesquisas registradas no TSE, tomando cada levantamento — e não o eleitor — como unidade de observação. O detalhamento técnico está reunido na nota metodológica ao final.

46 pesquisas com 1º turno · 41 com 2º turno 48 registros no TSE · 15 institutosjanela jan–set 2026 (campo até 10/09)
fonte: matéria com metodologia, com registro no TSE conferido

§1 · Intenção de voto por data de campo, instituto e candidato

01 Série bruta e tendência

Em vez de uma média única, o gráfico mostra todas as pesquisas lado a lado no tempo. Cada ponto é um levantamento; a cor separa os candidatos e o formato do ponto indica como a pesquisa foi feita — presencial, por telefone ou pela internet. A linha grossa é apenas um resumo visual da tendência de cada candidato, não uma previsão.

Cada ponto é uma pesquisa registrada no TSE. A distância vertical entre pontos de uma mesma data mostra o quanto os institutos discordam entre si — e isso é informação, não defeito. Diferenças pequenas, dentro da margem de erro, não permitem afirmar quem está na frente.

Com o início da campanha no rádio e na TV, o número de pesquisas disparou: só entre meados de agosto e 10 de setembro foram divulgados mais de vinte levantamentos, de quinze institutos. No primeiro turno, Lula recua do patamar de 40–41% para a casa dos 37–38% em setembro, enquanto Flávio Bolsonaro se firma entre 33% e 37% — e alguns institutos já o colocam numericamente à frente, sempre por margens estreitas. O crescimento de Augusto Cury (para cerca de 8% a 12%) é a novidade do período. A distância entre os dois principais nomes se estreita, mas quem aparece na frente depende, em boa medida, de qual instituto publicou a pesquisa — o tema da seção seguinte.

§2 · Desvio sistemático por instituto e método de coleta

02 Efeitos de casa (house effects)

Institutos diferentes tendem a produzir resultados sistematicamente distintos — não por erro, mas por diferenças de método e de público alcançado. É o chamado “efeito de casa”. Para enxergá-lo, compara-se cada pesquisa com a tendência do conjunto naquele momento: quem fica acima favorece relativamente Lula; quem fica abaixo, Flávio. O valor é medido em pontos percentuais sobre a diferença entre os dois; a faixa entre colchetes é a incerteza dessa medida.

Cada ponto é o desvio médio de um instituto (ou método) em relação à tendência do conjunto; as barras indicam a incerteza. À direita do zero, tendência pró-Lula; à esquerda, pró-Flávio.

Métodondesvio (pp)faixa de incerteza
presencial15+1,70[+0,29; +3,14]
online5+1,50[-1,15; +3,94]
telefônica26-0,92[-1,88; +0,02]

Por método de coleta, o padrão é claro, ainda que discreto: as pesquisas por telefone tendem a favorecer Flávio (-0,92 ponto), e as presenciais, Lula (+1,70 ponto); as feitas pela internet também pendem para Lula (+1,50 ponto). As faixas de incerteza, porém, quase encostam no zero — o sinal existe, mas é fraco e não autoriza dizer que um método “erra” para um lado.

Institutondesvio (pp)faixa de incerteza
CNT/MDA2+6,90[+6,11; +7,69]
AtlasIntel4+2,71[+1,27; +4,70]
Quaest5+2,36[+0,76; +3,67]
Indexa2+1,89[+0,25; +3,53]
Datafolha5+1,27[+0,86; +1,87]
Real Time Big Data2+0,95[-2,11; +4,01]
Futura/Apex3+0,53[+0,04; +1,20]
Nexus6+0,12[-1,20; +1,33]
Meio/Ideia2-0,85[-2,27; +0,57]
PoderData7-1,34[-2,26; -0,57]
Vox Brasil1-2,07
Parana Pesquisas2-2,21[-2,64; -1,79]
Palver1-3,37
Verita2-4,46[-4,79; -4,14]
Gerp2-5,92[-6,29; -5,56]

O que ler nesta tabela. Nos extremos estão a CNT/MDA, que puxa para Lula (por medir um Flávio muito baixo, perto de 28% no primeiro turno), e a Gerp e a Veritá, que puxam para Flávio. São esses poucos institutos que esticam a distância entre os resultados. A leitura correta não é “tal instituto está errado”, e sim que a ordem entre os candidatos numa dada semana depende de quem publicou naquela semana. Uma verificação independente desses desvios, por um método estatístico distinto, aparece na seção 5.

§3 · Dispersão entre institutos por janela mensal

03 Convergência entre institutos

Seria natural esperar que, com a eleição se aproximando, as pesquisas fossem ficando mais parecidas entre si. Não é o que se observa: a distância entre o maior e o menor resultado de cada mês permanece alta.

Para cada mês, a barra mostra a amplitude (diferença entre o resultado mais favorável e o menos favorável a Lula) e a linha, uma medida de dispersão típica. Meses com menos de três pesquisas são pouco informativos.

Mêsndispersão (pp)amplitude (pp)
2026-0110,0
2026-0210,0
2026-0310,0
2026-0410,0
2026-0531,12,1
2026-0653,59,6
2026-0761,95,0
2026-08153,614,7
2026-09133,211,0

A dispersão é grande e não diminui de forma constante. Agosto concentra a maior amplitude de toda a série — 14,7 pontos entre o instituto mais favorável e o menos favorável a Lula numa mesma janela — e setembro mantém 11,0 pontos, já com quinze institutos em campo. Boa parte dessa distância vem dos poucos institutos que aparecem nos extremos da seção anterior.

§4 · Distância entre candidatos por turno

04 Trajetória da diferença entre candidatos

A dianteira de Lula é maior no primeiro turno do que num eventual segundo turno. Na média das pesquisas, ela passa de 5,5 pontos no primeiro turno para 1,3 pontos no segundo.

Vantagem de Lula sobre Flávio, em pontos percentuais, ao longo do tempo. Acima de zero, Lula à frente. As duas linhas comparam o primeiro e o segundo turno.

Quando o cenário se fecha em apenas dois nomes, Flávio recebe proporcionalmente mais votos dos demais candidatos, e a vantagem de Lula se reduz a menos da metade. Em 13 das 41 simulações de segundo turno Flávio chega a aparecer numericamente à frente (com outras 4 em empate exato), quase sempre dentro da margem de erro. É uma leitura de como os votos tendem a se transferir — não uma medida de humor ou de emoção do eleitorado, que este tipo de dado não capta.

§5 · Uma referência modelada e a checagem dos efeitos de casa

05 Agregador e efeitos de casa

Esta série é, por opção, “crua”: mostra a dispersão em vez de escondê-la numa média. A título de comparação, sobrepõe-se a ela uma estimativa de tipo diferente — um agregador, que faz o oposto: combina todas as pesquisas numa única trajetória, com uma faixa de incerteza. Ela foi produzida com uma ferramenta de código aberto (o pacote agregR) a partir da mesma base de pesquisas, e serve apenas de referência; os detalhes do modelo estão na nota metodológica.

Pontos: as pesquisas de segundo turno. Linha e faixa: a estimativa combinada e sua margem de incerteza, já ajustada para os efeitos de casa. A distância entre a nuvem e a faixa é a parcela que o modelo atribui a ruído das pesquisas.

Na data mais recente, a estimativa agregada de segundo turno dá 44,5% para Lula e 44,8% para Flávio — um empate. Quando não se corrigem os efeitos de casa, a mesma conta daria Lula 44,7% e Flávio 45,6%: como os institutos que mais favorecem Flávio na reta final são justamente os mais “descontados” pelo ajuste, a correção comprime a vantagem dele a praticamente zero. Vale a ressalva de sempre: este número é uma referência externa; não substitui a série de pesquisas nem é tratado como o resultado “verdadeiro”.

O mesmo modelo permite conferir, por um caminho estatístico independente, os efeitos de casa da seção 2. O gráfico abaixo põe lado a lado as duas medidas para cada instituto.

Para cada instituto, o círculo cheio é a estimativa do modelo agregador e o círculo vazado, a medida usada na seção 2. A cor indica o lado (vermelho para Lula, azul para Flávio).


Mesma ordem, intensidade menor.
 Os dois métodos concordam quase perfeitamente sobre quem puxa para cada lado — Gerp e Veritá para Flávio, CNT/MDA para Lula. Diferem apenas na intensidade: o modelo agregador é mais cauteloso e reduz os casos extremos (a CNT/MDA, por exemplo, cai de cerca de 8 para 5 pontos de desvio). A conclusão prática é que a seção 2 acerta a ordem dos efeitos de casa, mas tende a exagerar seu tamanho nos extremos — e deve ser lida assim.

§6 · Nota metodológica

06 Metodologia

O que entra. Cada ponto é uma pesquisa de intenção de voto para presidente, de âmbito nacional, registrada no Tribunal Superior Eleitoral. Usam-se os percentuais tal como publicados (os chamados valores “de topo”), calculados sobre o total de entrevistados; nada é recalculado. São plotados apenas Lula e Flávio Bolsonaro — os dois nomes presentes em praticamente todas as pesquisas; os demais permanecem na base, fora do gráfico. Nos cenários de setembro testados com e sem Pablo Marçal (cuja candidatura foi indeferida pelo TSE em 11/09), adota-se o cenário sem Marçal, por ser mais comparável ao restante da série.

A linha de tendência. A curva que resume cada candidato é uma suavização — uma espécie de média móvel flexível (tecnicamente, LOESS) que acompanha o miolo da nuvem de pontos. É descritiva: serve para ler o movimento geral, e não para prever resultado.

Efeitos de casa (seção 2). Para cada pesquisa calcula-se a diferença entre Lula e Flávio e o quanto ela se afasta da tendência do conjunto na mesma data; a média desses afastamentos, por instituto ou por método, é o efeito de casa. A faixa de incerteza vem de reamostragem (bootstrap): sorteiam-se repetidamente as pesquisas de cada grupo para ver o quanto a média varia. Por ser uma medida simples e feita instituto a instituto, ela capta bem a direção do viés, mas tende a exagerá-lo nos casos extremos — como mostra a comparação da seção 5.

Dispersão (seção 3). Para cada mês, mede-se a amplitude (diferença entre o maior e o menor valor da diferença Lula–Flávio) e uma dispersão típica (o desvio-padrão). Ambas indicam o grau de discordância entre institutos numa mesma janela de tempo.

Distância por turno (seção 4). Compara-se, na mesma pesquisa, a vantagem de Lula no primeiro e no segundo turno, e conta-se em quantas simulações de segundo turno cada candidato aparece à frente.

A referência modelada (seção 5). O agregador usado é o pacote aberto agregR, de Rafael N. Magalhães. Trata-se de um modelo estatístico que estima uma trajetória “verdadeira” por trás das pesquisas, separando o sinal do ruído e a assinatura de cada instituto (é um modelo bayesiano de espaço de estados, com nível, tendência e erros, estimado por simulação). A faixa mostrada é o intervalo dentro do qual a estimativa tem 90% de probabilidade de estar, segundo o modelo. Roda sobre a mesma base deste relatório. Uma opção do modelo — corrigir os institutos também pelo alinhamento político do candidato — foi mantida desligada, por ser justamente o tipo de ajuste que esta série prefere exibir a aplicar. Os números do modelo são referência e não integram a base de pesquisas.

Limites. Não há acesso aos microdados, apenas aos totais publicados; portanto, nada se pode dizer no nível do eleitor. Os percentuais são números inteiros arredondados, o que embute cerca de meio ponto de imprecisão antes mesmo da margem de erro; oscilações de um ponto entre pesquisas podem ser só arredondamento. A rejeição não é comparável entre institutos, porque cada um pergunta de um jeito, e por isso não entra nas figuras. Por fim, os valores foram conferidos em fonte primária (a ficha técnica de cada pesquisa), mas a checagem final contra a íntegra registrada no TSE ainda está pendente.

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