Monitor do Debate Público N° 143
De 27/7 a 2/8/26
Temas:
- Questionamentos sobre as urnas
- Declarações de Milei
- Investigação de Lulinha
Metodologia
O Monitor do Debate Público (MDP) acompanha, semana a semana, como diferentes segmentos do eleitorado brasileiro reagem a temas importantes da agenda pública. A análise se apoia no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela equipe do LEMEP (IESP-UERJ) que opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Para o ano eleitoral de 2026, renovamos o quadro de participantes e ampliamos de cinco para seis o número de grupos focais contínuos no WhatsApp. O antigo grupo de eleitores flutuantes deu lugar a dois grupos de indecisos — conservadores e progressistas. Na maioria das eleições, os indecisos cumprem papel decisivo: por serem mais propensos a mudar de opinião, com frequência definem o resultado.
O projeto conta com 50 participantes, distribuídos em grupos com as seguintes características:
BC – Bolsonaristas Convictos: votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022, pretendem votar em Flávio Bolsonaro em 2026, desaprovam o atual governo e aprovam os atos de 8 de janeiro.
BM – Bolsonaristas Moderados: votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022, desaprovam o atual governo e desaprovam os atos de 8 de janeiro.
IC – Indecisos Conservadores: votaram em Bolsonaro ou em branco/nulo no segundo turno de 2022, estão indecisos quanto ao voto de 2026 e se posicionam mais à direita na escala ideológica.
IP – Indecisos Progressistas: votaram em Lula ou em branco/nulo no segundo turno de 2022, estão indecisos quanto ao voto de 2026 e se posicionam mais à esquerda na escala ideológica.
LD – Lulodescontentes: votaram em Lula no segundo turno de 2022 e reprovam a atual gestão, mas ainda assim pretendem votar em Lula em 2026.
LL – Lulistas: votaram em Lula no segundo turno de 2022, pretendem votar em Lula em 2026 e aprovam a atual gestão.
Evangélicos: grupo virtual formado pela agregação das falas dos participantes evangélicos dos demais grupos, com o objetivo de captar tendências específicas desse contingente demográfico.
Todos os grupos foram compostos de modo a reproduzir, em proporções próximas às da população brasileira, variáveis como sexo, idade, cor/raça, renda, escolaridade, região de moradia e religião.
Nossa metodologia permite que os participantes respondam aos temas no momento que lhes for mais conveniente — liberdade inexistente nos grupos focais tradicionais, presos à sincronia do roteiro conduzido pelo mediador. Ao se acomodar à rotina de cada participante, o instrumento reduz a artificialidade da coleta e gera resultados mais próximos das interações reais do cotidiano.
Cabe salientar que os resultados derivam de metodologia qualitativa, voltada à análise de narrativas, argumentos e opiniões. Ainda que eventualmente quantificados, não possuem validade estatística: devem ser lidos como dado indicial.
O sigilo dos dados pessoais dos participantes é integralmente garantido. Todos consentiram previamente com a divulgação dos resultados, desde que preservado o anonimato.
Síntese dos Principais Resultados
Na semana de 27/7 2/8/26, os seis grupos discutiram questões candentes do debate público. No total, foram coletadas e analisadas 188 interações, totalizando 6.785 palavras.

Pergunta 68
O presidente da Argentina, Javier Milei, participou no sábado (25) a convenção nacional do PL, em São Paulo, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele também foi homenageado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que lhe concedeu a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do Estado de São Paulo. Em sua fala, Milei disse que Flávio “é o único capaz de vencer Lula”, chamou o presidente de “presidiário” e acusou o governo de tentar interferir nas eleições argentinas em favor da esquerda, em 2023. As falas do presidente argentino causaram problemas diplomáticos com o governo brasileiro e algumas tratativas estão sendo realizadas. O que vocês acham do comportamento e das declarações de Milei?
Milei como porta-voz da direita brasileira
Os bolsonaristas convictos apresentaram uma avaliação amplamente favorável ao comportamento e às declarações de Javier Milei. De maneira geral, interpretaram sua manifestação como legítima, corajosa e coerente com os princípios que atribuem ao campo da direita. As críticas dirigidas ao presidente Lula foram percebidas como verdadeiras e justificadas, enquanto o apoio explícito a Flávio Bolsonaro foi recebido como um reconhecimento internacional da candidatura e um reforço simbólico ao projeto político representado pelo grupo. Predominou a percepção de que Milei apenas verbalizou avaliações já compartilhadas pelos participantes, sendo visto como alguém que expressou publicamente posições que eles acreditavam não poder manifestar livremente no contexto brasileiro.
Predominou também a percepção de que o governo brasileiro teria adotado posturas intervencionistas em processos eleitorais de outros países, tornando legítimas as críticas formuladas pelo presidente argentino. Também emergiu de forma recorrente a ideia de que setores da direita estariam submetidos a restrições à liberdade de expressão, fazendo com que a fala de Milei fosse interpretada não como uma quebra do protocolo diplomático, mas como um gesto de enfrentamento, representação e defesa de valores compartilhados pelo grupo.
“Bom dia! Achei que o Milei lavou a alma dos brasileiros que não podem aqui dentro do Brasil gritar o que ele gritou: que Lula é ex presidiário, lixo socialista que foi descondendo pelo STF e de quebra chamou o tirano ministro Alexandre de Moraes de lixo careca. Lula tentou interferir nas eleições da Argentina em favor de seus amigos comunistas e corruptos e agora quer dar uma de ofendido. Milei apenas falou a verdade entalada nas nossas gargantas amordaçadas pelo supremo judiciário aparelhado pelo Lula. Achei o comportamento do Milei de uma pessoa que está de saco cheio desses comunistas mentirosos que tentam apagar a história com narrativas que levam muitos ingênuos que não procuram conhecer a verdade, a acreditar nessas falácias.” (BC, 56 anos, gerente de prestação de serviços, RJ)
“As falas dele foram legítimas, pois o lula fala tanto em soberania brasileira e não respeitou o querer do povo argentino em melhorar de vida, hoje o povo argentino viu que valeu muito apena colocá-lo como presidente, já teve uma evolução bem interessante e com respaldos técnicos que viabiliza ainda mais uma nova candidatura em um futuro, sobre a questão do presidente lula, ele também não falou nada de errado ele é um ex-presidiário os crimes ainda continuam no currículo dele como falei acima as urnas não tem segurança, ele tentou sim interceder nas eleições da Argentina, como também do peru,Colômbia e Venezuela e sim ele está correto em falar que o flavio é o único hoje que pode tirar o lula da cadeira presidencial. E quanto a politicagem de chantagem do lula nada vai interferir na Argentina já que hoje ela esta melhorando cada vez mais e derrepente possa chegar no patamar do Uruguai em um futuro não tão distante assim. Parabéns ao milei e ao povo que resolveram botar a corja que estragava o país deles para fora.” (BC, 39 anos, administrador, RJ)
“Há gente eu gostei tanto desse comentário de Milei, eu não tinha visto antes, mas pelo que estou vendo agora, eu adorei muito, essa visão dele me representa muito, o Lula é de fato muito contraditório, porque ele prega tanto sobre a questão do respeito à soberania nacional, mas em vários momentos manifestou preferência política em relação às eleições argentinas. Milei demonstrou um posicionamento político firme e coerente com o que muitos de nós brasileiros pensamos mas que não podemos falar ou manifestar porque desde o 8 de janeiro fomos calados e poldados pelo medo. É isso mesmo. Este desgorverno desse ex-presidiário é vergonhoso, ele expressou minha opinião, totalmente.” (BC, 47 anos, administradora, BA)
Críticas à postura de Milei e defesa da diplomacia
Bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas e lulodescontentes convergiram na avaliação de que Javier Milei extrapolou os limites esperados para um chefe de Estado. Apesar das diferenças existentes entre esses grupos quanto à proximidade ou distanciamento em relação ao governo Lula, predominou a percepção de que um presidente deve agir com responsabilidade institucional e preservar o respeito nas relações entre os países. Assim, as críticas concentraram-se menos no posicionamento político de Milei e mais na forma como ele escolheu manifestá-lo, considerada excessiva, inadequada e incompatível com a função presidencial.
Também apareceu de forma recorrente a preocupação com as consequências diplomáticas e políticas do episódio. Os participantes defenderam que divergências ideológicas não justificam ataques públicos entre chefes de Estado nem a interferência explícita de autoridades estrangeiras na disputa política brasileira. Entre os bolsonaristas moderados e parte dos indecisos conservadores, houve maior concordância com o conteúdo das críticas dirigidas ao governo Lula, mas ainda assim prevaleceu a avaliação de que elas deveriam ter sido expressas de maneira mais reservada e diplomática. Já entre os indecisos progressistas e os lulodescontentes, a crítica concentrou-se principalmente na necessidade de preservar o respeito institucional e evitar que disputas políticas comprometessem as relações entre Brasil e Argentina.
“Bom dia..Pois mais q ele esteje certo. Kk..na minha opinião, ele pode defender o que pensa, mas exagerou no jeito de falar. Um presidente precisa agir com respeito e responsabilidade.” (BM, 42 anos, gerente de vendas, MG)
“Complicado. Ele tá certo, mas essa não é a postura de um líder. Fala isso nos bastidores, mas não em público. Isso acaba fortalecendo até o próprio Lula, que pode aproveitar da dituacao e agir com coitadismo.” (BM, 29 anos, advogada, SP)
“Foram desnecessárias, ele pode ter suas opiniões pessoas com ele, mas publicamente e dessa maneira não deveria ter expressado, não contribui para o bom debate além de ser deselegante para postura de um chefe de Estado.” (IC, 24 anos, estudante, MA)
“Desde sempre o sujeito apresenta comportamentos problemáticos ,entao não me surpreende sua atuação e posição. Nao concordo com ele em muitas coisas, principalmente em suas ações políticas e não acho que seja de bom grado ele se envolver na política brasileira mesmo sendo nosso vizinho. Acredito que deveria apresentar uma postura mais imparcial já que nao é daqui até para tratar de questões entre as relações dos dois países.” (IC, 29 anos, professor, RJ)
“Pra mim o Milei gosta de aparecer mais do que de agir como presidente. Uma coisa é ter opinião, outra é ir no país dos outros pra fazer campanha e provocar. Acho desnecessário. Brasil e Argentina tem muito mais coisa importante pra resolver do que ficar nessa troca de farpas. No fim quem paga a conta dessas brigas é o povo, com comércio, emprego e relação entre os países sendo afetados. Política já tá parecendo torcida organizada, ninguém quer resolver nada, só lacrar pro próprio lado.” (IP, 28 anos, customer care analist, SP)
“Acho uma postura que não cabe a um presidente, principalmente estando em domicílio desse presidente, é no mínimo desrespeitoso, até porque estando aqui, ele deveria demonstrar decoro.” (IP, 29 anos, empreendedora, RJ)
“Olá, pessoal. Acho inaceitável esse comportamento de Milei e suas declarações. Você pode e deve ter divergências políticas, mas sem banalizar o tratamento digno entre os opostos. Ofensas e tratamento desrespeitoso não são aceitáveis.” (LD, 48 anos, servidor público, PA)
“Boa noite, Esta declaração do presidente da Argentina é inaceitável, um comportamento que só afasta mais a relação diplomatica entre os dois países e entendo que não soma em nada pra campanha do Flávio.” (LD, 49 anos, vigilante, MT)
Interferência deliberada e associação ao bolsonarismo
Os lulistas apresentaram a avaliação mais enfaticamente negativa do comportamento de Javier Milei entre todos os grupos analisados. Suas declarações foram interpretadas como incompatíveis com o exercício da Presidência, sendo associadas à impulsividade, ao desrespeito às normas diplomáticas e à adoção de uma postura considerada antidemocrática. Predominou a percepção de que a participação de Milei no evento de campanha de Flávio Bolsonaro e seus ataques ao presidente brasileiro configuraram uma tentativa explícita de interferência no processo político nacional, em contraste com as acusações que ele próprio dirigiu ao governo brasileiro sobre as eleições argentinas.
Além da crítica ao episódio em si, os participantes estabeleceram uma forte associação entre Milei e o campo político representado por Flávio Bolsonaro, interpretando a aproximação como resultado da afinidade de valores, estilo de atuação e estratégia política. Também foi recorrente a avaliação de que as declarações possuíam caráter predominantemente eleitoral e provocativo, sem potencial para alterar de forma substantiva a relação entre Brasil e Argentina.
“Ele é tão impulsivo como a Família dos milicianos, por isso se dão tão bem e possuem tanto em comum. Uma pena que a Argentina esteja entregue nas mãos desse ser tão vil, ignorante e antidemocrático. Sobre as relações estarem desgastadas, pior para a Argentina que possui um mercado muito menor do que o Brasil.” (LL, 33 anos, tradutor, SP)
“Milei acredita que a crise Argentina foi resolvida e isso já mostra o quão alucinado ou mentiroso ele é. Ele veio ao Brasil defender os interesses dos EUA e de Israel, país esse o qual ele vendeu uma grande porção de terra da Argentina, sabe-se lá por qual motivo, ou talvez até saibamos. Milei não apresenta provas da suposta interferência brasileira nas eleições argentinas, mas o fato é que ele sim está tentando interferir nas nossas. Única razão pela qual acredito que não devamos sancionar a Argentina, é pelo fato de que o povo já está sofrendo demais com as decisões do presidente deles, não merecem ainda mais dificuldade.” (LL, 25 anos, auxiliar fiscal, SC)
“boa noite. ele demonstrar apoio ao Flávio diz muito sobre ele sem precisar que elaboremos muito sobre. o comportamento dois é exatamente igual, por isso esse apoio. acho que é um comportamento desrespeitoso e nada esperado de um Presidente, mas também não é de se esperar muito, não é algo que me impressiona, todos eles tem essa falta de educação de desrespeitar os concorrentes ou as pessoas que não gostam.” (LL, 23 anos, auxiliar administrativo, RO)
Pergunta 69
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a abrir um inquérito para investigar Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conhecido como “Lulinha”. A investigação apura a suspeita de que Lulinha tenha cometido crimes de corrupção e tráfico de influência. A Polícia Federal vai investigar se Lulinha teria utilizado a influência dele, como filho de Lula, para facilitar que sua amiga Roberta Luchsinger, que é dona de uma consultoria, e o lobista Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, fizessem negócios com o Ministério da Saúde. O presidente Lula afirmou que não usará o cargo para proteger o filho. Lula garantiu que “não haverá nenhum privilégio” no julgamento do filho e, se for culpado, o empresário terá de pagar pelos crimes.
Essa informação modifica a opinião de vocês sobre Lula?
Descrença na declaração de Lula e expectativa de interferência
Bolsonaristas convictos e bolsonaristas moderados apresentaram interpretações praticamente idênticas sobre o episódio. Nos dois grupos, predominou a percepção de que a declaração de Lula de que não utilizaria o cargo para proteger o filho não possuía credibilidade e correspondia apenas à postura que se esperava publicamente de um presidente diante de uma investigação dessa natureza. Em vez de provocar qualquer revisão de imagem, a notícia foi incorporada às avaliações já existentes sobre o presidente, reforçando a convicção de que haveria tentativas de proteger familiares e aliados políticos. Também foi recorrente a defesa de que a investigação deveria transcorrer de forma independente, com responsabilização dos envolvidos caso as acusações fossem comprovadas, embora prevalecesse o ceticismo quanto à efetiva imparcialidade das instituições e ao cumprimento da promessa presidencial.
“Não muda. Poderia ter mudado um pouco se essa resposta tivesse sido dada por ele no começo da investigação, antes dele tentar bloquear o trabalho da PF. Agora, só caracteriza mais uma tentativa de ganhar voto.” (BC, 62 anos, cirurgião dentista, SP)
“Tal pai tal filho, que a investigação seja feita e a verdade apareça. Lula ta se fazendo de ‘santo’, mas eu não confia em uma palavra do que ele fala! O lulinha está seguindo o mesmo caminho do pai, afinal, o fruto nunca cai longe da árvore.” (BC, 22 anos, vigilante, RO)
“Bom dia..Na minha opinião, ele vai dar um jeito de favorecer o filho. Espero estar errado, mas não acredito que o tratamento será totalmente imparcial.” (BM, 42 anos, gerente de vendas, MG)
“Não muda até porque a gente sabe que é uma resposta esperada. Coisa pra jogar pra torcida. Enquanto isso estamos na espera da investigação.” (BM, 38 anos, professor, SP)
“Bom dia. Não muda em nada, por que não tem como confiar em um Presidente que está afundando no nosso país, mas se ele fizer isso, não estará fazendo mais que a sua obrigação, punir quem merece ser punido ou até, não interferir para que seja feita justiça.” (BM, 54 anos, aposentado, PB)
Reconhecimento da postura institucional, mas sem mudança na avaliação sobre Lula
Indecisos conservadores, indecisos progressistas e lulodescontentes convergiram na avaliação de que a postura esperada de um presidente da República era não utilizar o cargo para proteger familiares e permitir que a investigação transcorresse normalmente. Nos três grupos, predominou a defesa de que a lei deveria ser aplicada igualmente a qualquer cidadão, independentemente de seu vínculo com o chefe do Executivo, e que eventuais irregularidades deveriam ser apuradas e punidas caso comprovadas. Ao mesmo tempo, a informação produziu pouco impacto sobre a imagem de Lula, sendo percebida mais como uma obrigação institucional do que como um fator capaz de alterar avaliações políticas já consolidadas.
As diferenças apareceram principalmente na confiança atribuída à declaração presidencial. Enquanto os indecisos conservadores e progressistas demonstraram maior disposição para reconhecer positivamente a postura de Lula e aguardar o resultado das investigações, os lulodescontentes manifestaram maior desconfiança quanto às reais intenções do presidente, interpretando sua fala como parte de uma estratégia de preservação da imagem em um contexto pré-eleitoral. Ainda assim, mesmo entre os mais céticos, prevaleceu a defesa de que a responsabilização deveria ocorrer apenas com base nas provas produzidas pela investigação.
“De certa forma modifica, posso pensar que está agindo certo, não está a favor dos erros do filho caso seja provado algo, além de demonstrar que as leis servem para todos, independente do grau de parentesco.” (IC, 38 anos, coordenadora, SP)
“Acho que é importante investigar direitinho, sem privilégio nenhum. Se fez algo errado, tem que pagar pelos crimes, igual qualquer outra pessoa. O presidente disse que não vai proteger, e é assim que tem que ser!” (IC, 30 anos, autônoma, SP)
“Apesar de discordar muito da posição do Lula em diversos segmentos, nesse sentido de não passar a mão na cabeça do filho ele é muito correto, e não é de hoje. Diferente de diversos outros políticos que vemos por aí.” (IC, 30 anos, educador museal, RJ)
“Pra mim não muda muita coisa não. Filho é filho, pai é pai. Se o Lulinha fez coisa errada, que investiguem e, se for culpado, que pague. O que eu acho errado é querer passar pano só porque é filho de presidente ou querer culpar o pai automaticamente. Pra mim a lei tem que valer igual pra todo mundo.” (IP, 28 anos, customer care analist, SP)
“Bom dia! Ele está agindo como um pai que quer que o filho seja corrigido, se for culpado. Eu acho isso ótimo, não seria justo ele passar a mão na cabeça do filho e usar dos privilégios. (…) Não modifica minha opinião, continua a mesma. Mudaria pra ruim caso o Lula se fizesse de cego pros erros do filho, mas ele está agindo racionalmente.” (IP, 26 anos, autônoma, RO)
“Se o Lula realmente cumprir o que fala, me faz acreditar que essa postura dele é a correta, mas me faz ter um pouco de dúvidas, se não é pelo de as eleições estarem se aproximando.” (IP, 29 anos, empreendedora, RJ)
“Essa informação não muda minha opinião sobre o Lula. Considero que essa tem que ser a atitude correta, pois se seu filho deve, tem que pagar.” (LD, 48 anos, servidor público, PA)
“Bom dia, não muda minha opinião, o presidente lula só está dizendo o que o povo quer ouvir pelas eleições, minha opinião só mudaria se ele demonstrasse com atos uma mudança de comportamento.” (LD, 40 anos, turismóloga, SP)
“Confesso que um pouco, porque ver a corrupção na família, ainda mais que o Lula já foi envolvido em vários esquemas, faz a gente questionar muita coisa. Então acho q sim, que o comportamento dos filhos/família influencia como um todo. Mas achei importante o posicionamento dele em dizer que não ajudará o filho, por mais que isso não aconteça de fato, acho importante ele deixar isso claro.” (LD, 29 anos, professora, RJ)
Defesa da responsabilização individual e confiança na postura de Lula
Os lulistas foram o único grupo em que apareceram manifestações capazes de reforçar, e não apenas preservar, a avaliação positiva sobre Lula. A ampla maioria afirmou que a notícia não modificou sua opinião sobre o presidente, interpretando sua declaração de que não protegeria o filho como coerente com uma postura que atribuíam ao seu histórico político. Predominou a compreensão de que eventuais responsabilidades deveriam ser apuradas individualmente, sem que acusações contra um familiar fossem automaticamente estendidas ao presidente. Nesse sentido, o grupo distinguiu de forma recorrente a figura de Lula da conduta atribuída ao filho, defendendo que a responsabilização deveria recair exclusivamente sobre quem tivesse cometido eventual irregularidade.
Além disso, os participantes interpretaram a investigação dentro de um contexto mais amplo de disputa política, questionando a imparcialidade com que diferentes atores e famílias políticas seriam tratados pelas instituições. Enquanto parte das respostas apontou a abertura do inquérito como um movimento de natureza política, outra parcela ressaltou que a disposição de Lula em defender a continuidade das investigações reforçava sua imagem de respeito às instituições e à igualdade perante a lei.
“Se de fato não houver qualquer influência ou tentativa de blindar o próprio filho, nada mudará na minha opinião sobre o Lula. Acho que o que um filho faz ou é suspeito de fazer, não deve manchar a imagem de um pai ou vice e versa. Sabemos que para a população geral não será bem assim, mas para mim, pessoalmente, ocorrendo investigações e inquéritos com lisura, completamente imparciais, nada muda.” (LL, 25 anos, auxiliar fiscal, SC)
“Não modifica a opinião. E acho que se o filho dele cometeu algo errado, deve ir a justiça. É coerente que o pai diga que não fornecerá privilégio.” (LL, 25 anos, desempregada, BA)
“Essa informação não muda em nada minha opinião sobre o Presidente, pelo contrário, pois ele sempre apoia as investigações. Quem erra deve ser investigado e se provado deve ser punido. Cada CPF uma pessoa diferente e cada um é responsável pelos próprios atos.” (LL, 61 anos, administrador, PR)
“Essa informação apenas mantém o que já penso a respeito do presidente Lula, ele não tenta favorecer ninguém, mesmo o seu próprio filho, isso sim é um presidente que sabe separar as coisas.” (LL, 27 anos, operador de telemarketing, BA)
Considerações finais
Os questionamentos de Flávio Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas foram interpretados de maneira fortemente condicionada pelo posicionamento político dos participantes, reproduzindo clivagens já observadas em pesquisas anteriores sobre confiança nas instituições e no processo eleitoral. Entre os grupos bolsonaristas, predominou o entendimento de que questionar as urnas constitui um direito legítimo e uma forma de exigir maior transparência das eleições. Os bolsonaristas convictos partiram da convicção de que o sistema eleitoral é fraudável (reproduzindo, inclusive, diversas falas com desinformação) e ampliaram suas críticas às instituições responsáveis pelas eleições. Já os moderados concentraram seus argumentos na defesa do direito de questionar e na necessidade de aperfeiçoar mecanismos de fiscalização, atribuindo menor ênfase à afirmação de que fraudes efetivamente ocorreram. Nos demais segmentos, prevaleceu a rejeição às declarações de Flávio Bolsonaro, mas por razões parcialmente distintas. Indecisos conservadores, indecisos progressistas e lulodescontentes convergiram na avaliação de que as acusações careciam de provas e foram motivadas por interesses eleitorais, sendo interpretadas como uma estratégia para mobilizar apoiadores e construir uma narrativa para uma eventual derrota. Já os lulistas atribuíram um significado mais amplo ao episódio, entendendo que essa estratégia buscava deliberadamente enfraquecer a confiança nas instituições democráticas e deslegitimar o próprio processo eleitoral. Assim, mais do que alterar percepções sobre a segurança das urnas, a notícia reforçou crenças previamente consolidadas sobre a legitimidade das eleições e das instituições responsáveis por sua condução.
As avaliações das declarações de Javier Milei também se mostraram fortemente condicionadas pelos posicionamentos prévios dos participantes em relação ao campo político representado por ele e por Flávio Bolsonaro. Diferentemente de outras questões, entretanto, observou-se maior diferenciação entre os dois segmentos bolsonaristas. Em meio aos bolsonaristas convictos, predominou uma leitura amplamente favorável das falas, interpretadas como uma manifestação legítima de enfrentamento ao governo Lula e como expressão de ideias que os participantes acreditavam não poder manifestar livremente no Brasil. Nesse grupo, eventuais consequências diplomáticas foram amplamente relativizadas diante da valorização da firmeza política e do alinhamento ideológico. Nos demais segmentos — bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas e lulodescontentes — formou-se um amplo consenso de que Milei ultrapassou os limites esperados para um chefe de Estado. Ainda que parte desses participantes concordasse, em maior ou menor grau, com algumas críticas dirigidas ao governo Lula, prevaleceu a avaliação de que um presidente deve preservar o respeito institucional, evitar interferências na política de outros países e priorizar as relações diplomáticas. Entre os lulistas, a interpretação assumiu um caráter mais amplo: além de condenarem a postura de Milei como antidemocrática e incompatível com a função presidencial, os participantes entenderam sua participação no evento como parte de uma estratégia de fortalecimento do campo bolsonarista e de interferência no processo eleitoral brasileiro. Assim, a quebra do protocolo diplomático encontrou respaldo apenas entre os eleitores mais fortemente identificados com a direita bolsonarista. Entre todos os demais perfis — inclusive entre grupos críticos ao governo Lula — predominou a expectativa de que relações internacionais devam ser conduzidas com prudência, respeito institucional e clara separação entre disputas eleitorais e a diplomacia de Estado.
Por fim, a notícia sobre a investigação contra Lulinha produziu impacto limitado sobre as avaliações dos participantes. Em nenhum dos segmentos surgiu um movimento significativo de mudança de opinião sobre Lula em decorrência da investigação envolvendo seu filho, indicando que o episódio foi interpretado à luz de crenças já consolidadas sobre o presidente e seu governo. As principais diferenças entre os grupos concentraram-se na credibilidade atribuída à declaração de Lula de que não interferiria no caso. Entre os bolsonaristas, prevaleceu a convicção de que haveria tentativas de proteção ao filho e de que a manifestação presidencial possuía caráter exclusivamente estratégico. Nos grupos de indecisos, predominou a percepção de que essa era a postura institucional esperada de um chefe de Estado, acompanhada, em alguns casos, de reconhecimento positivo da conduta adotada, ainda que insuficiente para alterar avaliações já estabelecidas sobre o presidente. Os lulistas, por sua vez, além de dissociarem mais claramente a responsabilidade de Lula das acusações dirigidas ao filho, interpretaram o episódio como parte da disputa política entre governo e oposição, relativizando seu potencial para afetar a imagem do presidente.
MDP
O Monitor do Debate Público (MDP) é um projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e da Esfera Pública (LEMEP), sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP-UERJ). Baseia-se no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela própria equipe.
O POMT permite monitorar de modo dinâmico a opinião pública e suas clivagens em torno de temas da agenda pública, preferências, valores e recepção de notícias, entre outros. Opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Como nos grupos focais tradicionais, o formato permite que o moderador aprofunde temas sensíveis, dificilmente acessíveis por pesquisas quantitativas ou questionários estruturados.
O caráter assíncrono, próprio da comunicação no WhatsApp, favorece respostas mais refletidas — vantagem tanto para a pesquisa social quanto para a eleitoral, já que o voto é também uma decisão que costuma exigir reflexão.
Sua continuidade temporal favorece situações deliberativas, em que cada participante é levado a elaborar suas razões em diálogo com as dos demais.
O celular é hoje o meio de comunicação mais acessível e disseminado. Por isso, participar dos grupos não exige computador nem que as pessoas interrompam suas atividades para interagir.
O MDP aplica o POMT à análise semanal do debate público brasileiro, segmentado em seis grupos de diferentes orientações ideológicas, da extrema direita à esquerda — recorte justificado por sua relevância demográfica no cenário atual.
Equipe MDP
Carolina de Paula – Diretora geral
Doutora em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Coordenou o IESP nas Eleições, plataforma multimídia de acompanhamento das eleições de 2018. Foi consultora da UNESCO e coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, atuando em campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Presta consultoria em desenho de pesquisa qualitativa e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade. Escreve no blog Legis-Ativo, do Estadão.
João Feres Jr. – Diretor científico
Mestre em Filosofia Política pela Unicamp e mestre e doutor em Ciência Política pela City University of New York (Graduate Center). Foi professor do antigo IUPERJ (2003–2010) e é, desde 2010, professor titular de Ciência Política do IESP-UERJ. Coordena o LEMEP, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB).
Francieli Manginelli – Analista sênior e coordenadora de recrutamento
Cientista social, mestre em Sociologia pela UFPR e doutoranda em Sociologia no IESP-UERJ, com experiência em relações de consumo e estratégias de comunicação. Tem formação em UX Research e em gestão e monitoramento de redes sociais, mídias digitais e estratégias eleitorais. Atua em pesquisas de mercado e campanhas políticas e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade.
André Felix – Coordenador de TI
Mestre em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Tem experiência em planejamento e desenvolvimento de sistemas computacionais de pequeno e médio porte e em manutenção de servidores web, com especialização em modelagem e implementação de bancos de dados relacionais.
Vittorio Dalicani – Analista Jr.
Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do INCT ReDem e dos grupos de pesquisa NUSP e Observatório das Elites, ambos vinculados à UFPR. Dedica-se à representação política parlamentar e à metodologia científica, com experiência no uso de inteligência artificial na pesquisa e na construção e análise de bancos de dados prosopográficos.
INCT ReDem
O Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) é um centro de pesquisa sediado no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), financiado pelo CNPq e pela Fundação Araucária.
Reunindo mais de 50 pesquisadoras(es) de mais de 25 universidades no Brasil e no exterior, o ReDem investiga, a partir de três eixos de pesquisa (Comportamento Político, Instituições Políticas e Elites Políticas) as causas e consequências da crise das democracias representativas, com ênfase no Brasil.
Sua atuação combina metodologias quantitativas e qualitativas, como surveys, experimentos, grupos focais, análise de perfis biográficos e modelagem estatística, produzindo indicadores e ferramentas públicas sobre representação política, qualidade da democracia e comportamento legislativo.
O objetivo central do ReDem é gerar conhecimento científico de alto impacto e produzir recursos técnicos que auxiliem cidadãos, jornalistas, formuladores de políticas e a comunidade acadêmica a compreender, monitorar e aperfeiçoar a representação política democrática no Brasil.