Comparando o eleitorado brasileiro de 2022 e 2026
Os eleitores de Lula e de Bolsonaro (Jair em 2022, Flávio em 2026) em sete dimensões demográficas e atitudinais, às vésperas das duas eleições.
Faltando cerca de três meses para o primeiro turno, vale a pena comparar dois retratos tomados no mesmo ponto do calendário: o eleitorado de Lula e o de Bolsonaro às vésperas de 2022 e às vésperas de 2026, Jair então, Flávio agora. A leitura dominante na imprensa e em boa parte da academia é a de uma divisão que só se aprofunda. Os números da pesquisa A Cara da Democracia contam algo mais sóbrio: o essencial não se moveu, a composição mudou pouco, e a única mudança de vulto nada tem a ver com radicalização.

Ideologia, antipetismo e costumes
Comece pelo que estrutura a escolha. No autoposicionamento de esquerda a direita (escala de 1 a 10), os eleitores de Lula estão em 4,6 (contra 5,1 em 2022) e os de Bolsonaro em 8,4 (contra 8,1). A distância entre os dois lados permanece larga e praticamente igual; o único deslocamento estatisticamente sólido é o dos eleitores de Lula, que se firmaram um pouco mais à esquerda. Não há sinal de que a direita eleitoral tenha se radicalizado: o avanço de 0,2 ponto não sobrevive aos testes.
O mesmo vale para o resto do repertório. O antipetismo segue sendo o cimento do eleitorado de Bolsonaro e cresce pouco (de 55% para 61% do grupo). O conservadorismo nos costumes é estável e bem distinto entre os dois lados (índice de 0,66 à direita, 0,50 à esquerda). E a concordância com a ideia de que “há uma conspiração da esquerda para tomar o poder” fica onde estava, em torno de 60% entre os eleitores de Bolsonaro. Em suma: a substância da divisão é a mesma de quatro anos atrás.

Simpatia declarada pelos candidatos
Como se transfere um voto de pai para filho? Uma pista está nas notas de simpatia que vão de 1 (“não gosta de jeito nenhum”) a 10 (“gosta muito”), atribuídas pelos entrevistados a cada figura. Convém tratá-las pelo que são: uma medida da intensidade da preferência declarada, não um termômetro de emoções. Feita essa ressalva, o desenho é claro. Cada eleitorado dá cerca de 8 ao seu próprio nome e cerca de 2 ao adversário, e essas notas não mudam frente a 2022.
A novidade está na herança. Entre os eleitores de Flávio, Jair ainda recebe nota maior (8,1) do que o próprio Flávio (7,4), diferença pequena, mas consistente. Já a rejeição se transfere por inteiro: os eleitores de Lula são igualmente frios com Jair (1,8) e com Flávio (1,8), sem qualquer desconto para o herdeiro. O sobrenome carrega a candidatura, mas a preferência positiva ainda se ancora, em alguma medida, na figura do pai.

Perfil demográfico
No perfil demográfico, quase tudo é continuidade: cor, escolaridade, composição de renda, religião e região dos dois eleitorados mantêm o padrão de 2022. Dois traços, porém, se mexem. A idade: iguais em 2022 (por volta dos 44 anos), os dois grupos se descolam: o eleitorado de Lula envelhece (para 45,4) e o de Flávio rejuvenesce (para 41,6). E o gênero: a maioria masculina do eleitorado de Bolsonaro encolhe, de 58% para 53% de homens, enquanto o de Lula segue majoritariamente feminino. São mudanças que alargam a base da direita, tornando-a mais jovem e menos masculina, não que a endurecem.

Satisfação com a democracia e confiança na urna
A mudança maior do período não está na divisão entre os eleitorados, e sim numa inversão que atravessa os dois. Em 2022, sob o governo Bolsonaro, quem se dizia satisfeito com a democracia era o eleitor de Bolsonaro (52%), e o de Lula era o insatisfeito (apenas 22% satisfeitos). Em 2026, com Lula no poder, a posição virou: 61% dos eleitores de Lula estão satisfeitos, contra 23% dos de Flávio. A confiança na apuração acompanha o mesmo trajeto: a desconfiança na urna sobe de 41% para 60% entre os eleitores de Bolsonaro e cai de 26% para 17% entre os de Lula.


Balanço
O conjunto desmente a imagem de uma divisão em aceleração permanente. A linha que separa os dois eleitorados é a mesma, a candidatura passou de pai para filho com pouca perda, e o que efetivamente se moveu foi, de um lado, a forma demográfica das duas bases e, de outro, a avaliação do regime, que muda de mãos junto com o governo. Nada disso nega que existam divisões fortes na sociedade brasileira. Serve, antes, para dimensioná-las: em 2026, o eleitorado dos dois principais nomes está, no essencial, onde já estava.