De Olho na Imprensa: Relatório N° 160

14/10/2026 – 20/10/2026

No DONI, examinamos os textos de O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo que mencionam o governo federal, o presidente Lula ou personagens e instituições do Poder Executivo, sejam eles manchetes, chamadas de capa, artigos de opinião, colunas ou editoriais1. Acompanhamos também a cobertura das Eleições 2026, com atenção aos presidenciáveis, a outros atores relevantes para a disputa e aos quatro partidos que integram a série histórica do projeto, PT, PL, PSD e MDB. 

Os gráficos mostram a evolução mensal dos índices, e a coluna de outubro reúne os dados apurados até o dia 20. O comentário, por sua vez, examina a semana de 14 a 20 de outubro, a segunda da campanha do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro e a última completa antes da votação de domingo, dia 25. Por isso, sempre que tratarmos de valores semanais, eles virão identificados como tais2.

PRINCIPAIS RESULTADOS 

  • ESPECIAL Eleições 2026: A reta final do segundo turno, marcada pelo empate técnico nas pesquisas, pela aprovação do fim da escala 6×1 e pelo primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, dominou o noticiário e respondeu por 85 dos 113 textos sobre o presidente e por 49 dos 78 sobre o governo.
  • Lula menos criticado: O IV semanal do presidente passou de −0,70 para −0,54, com 40 textos contrários, ante 41 na semana anterior, e 68 neutros, ante 56. O Estadão continuou a ser o jornal mais severo, com −0,75.
  • Governo com cobertura mais negativa: O IV do governo federal recrudesceu de −1,16 para −1,50, com 46 textos contrários e 27 neutros em 78 publicações. No Estadão, o índice chegou a −2,75, valor ampliado por uma base de apenas quatro textos neutros.
  • Flávio sob escrutínio: Os textos contrários ao candidato do PL subiram de 20 para 30, e seu IV caiu de −0,24 para −0,45, a apenas 0,09 do de Lula.

Gráfico 1. Cobertura dos presidenciáveis e de outros atores políticos relevantes para a disputa (IV)3

No acompanhamento dos presidenciáveis e de outros atores relevantes para a disputa (Gráfico 1), Lula fechou setembro com o índice mais negativo do grupo (−0,81), ainda que bem menos adverso que o de agosto (−1,34). Em seguida vinham Jair Bolsonaro, que acompanhamos não como candidato, mas como figura central da disputa, com −0,48, Flávio Bolsonaro, com −0,46, e Renan Santos, com −0,30. Romeu Zema (−0,14) e Ronaldo Caiado (−0,10) encerraram o mês perto da neutralidade, e Augusto Cury foi o único a terminar setembro em terreno positivo. Nos vinte primeiros dias de outubro, Lula marca −0,70, Flávio, −0,32, e Jair Bolsonaro, −0,29, enquanto Zema, Caiado, Santos e Cury aparecem com índice zero.

Na semana, o IV de Lula passou de −0,70 para −0,54, enquanto o de Flávio Bolsonaro caiu de −0,24 para −0,45, e a distância entre os dois, que era de 0,46, ficou em apenas 0,09. Das 96 menções ao candidato do PL, 66 foram neutras e 30 contrárias, sem nenhuma favorável ou ambivalente. Os textos críticos, que haviam somado 20 na semana anterior, chegaram a 30, e a reprovação, até então restrita aos editoriais, alcançou as colunas, nas quais os contrários (dezessete) superaram os neutros (quinze). O estopim foi a mudança de posição sobre a escala 6×1. Depois de criticar a PEC, Flávio anunciou que votaria pelo fim da jornada, guinada que lhe valeu acusações de incoerência e até de mentira, como em “Flávio mente sobre escala 6×1”, de Thiago Amparo, na Folha, e em “A conversão de Flávio”, de Bernardo Mello Franco, e “Para quem Flávio está mentindo?”, de Vera Magalhães, ambas em O Globo. Dora Kramer, na Folha, estendeu a acusação aos dois concorrentes em “Candidatos das mil faces”, e os editoriais “O triunfo populista”, do Estadão, e “Oportunismo de Flávio se une ao de Lula contra a 6×1”, da Folha, repartiram a censura entre governo e oposição. O debate promovido por Band e Estadão no dia 18 agravou o quadro, e o senador foi descrito como debochado e provocador em “Debate digno da pior campanha da história”, do Estadão, além de criticado em “Um debate tardio e agressivo”, da Folha.

Entre os jornais, a Folha foi o mais severo com o senador, com dezessete textos contrários em 43, ao passo que O Globo publicou oito em 34, e o Estadão, cinco em dezenove. Jair Bolsonaro, citado em 33 textos (25 neutros e oito contrários), passou de −0,29 para −0,32, e as críticas a ele vieram sobretudo de artigos de opinião da Folha, como “As Forças Armadas na democracia”, de Maria Hermínia Tavares de Almeida, e da coluna “O filho do Riocentro”, de Bernardo Mello Franco, em O Globo. Caiado, Zema e Santos foram mencionados uma única vez, de forma neutra, e na mesma coluna de O Globo, “Jogo empatado, juiz engajado”, e ficaram com IV zero.

Gráfico 2. Cobertura dos partidos (IV) 

No plano partidário (Gráfico 2), o PT fechou setembro em −0,48, praticamente no mesmo patamar de agosto (−0,52), mas desceu a −0,96 nos vinte primeiros dias de outubro, o índice mais desfavorável entre as quatro legendas acompanhadas. O PL terminou setembro em −0,07, com melhora expressiva em relação a agosto (−0,26), e registra −0,24 em outubro. O PSD, que encerrou setembro com 0,20, único valor positivo do mês, voltou a zero em outubro, nível em que o MDB permanece desde agosto.

Na semana, a assimetria entre as duas principais legendas persistiu, embora menor. O índice petista repetiu o −0,88 da semana anterior, resultado de 30 textos contrários, 32 neutros, um favorável e um ambivalente, em 64 menções, enquanto o do PL piorou. A crítica ao PT seguiu a trilha da que foi dirigida ao governo e girou em torno das “bondades” eleitorais e da guinada sobre a maioridade penal, tratada em “O leilão da maioridade penal”, editorial do Estadão, e em “Pela reeleição, Lula faz até ‘arminha’”, coluna de Thaís Oyama em O Globo. A dificuldade da esquerda em dialogar com os evangélicos rendeu a chamada de O Globo “Carta do PT aos evangélicos soa oportunista” e a coluna “Flávio venceu na linguagem da fé”, de Juliano Spyer, na Folha, jornal em que Mariliz Pereira Jorge, em “Esquerda descobre a direita democrática”, atribuiu ao partido décadas de intolerância.

O PL recebeu 59 menções, 44 neutras e quinze contrárias, e seu IV passou de −0,24 para −0,34. As críticas ao partido acompanharam as que atingiram Flávio e partiram sobretudo das colunas da Folha, responsável por dez dos quinze textos contrários, entre eles “O segundo mandato é de vingança”, de Ruy Castro, e “A ideologia do dinheiro”, de Alvaro Costa e Silva, que alertou para os planos de “reformar” o STF e de reeditar a PEC da Blindagem num eventual governo do PL. No Estadão, as dez menções à legenda foram neutras. PSD e MDB apareceram em um e dois textos, respectivamente, todos neutros, e o Novo, de Romeu Zema, e o Missão, de Renan Santos, não integram a série histórica.

Três eixos organizaram a cobertura eleitoral da semana. O primeiro foi a ofensiva de benefícios na reta final, que os três jornais leram como uso eleitoral da máquina pública. Em poucos dias, Lula anunciou um Pix de R$ 5 mil e o perdão de dívidas para os microempreendedores individuais (MEIs), prometeu estender o Pé-de-Meia aos universitários, ao custo estimado de R$ 4,6 bilhões por ano, e acenou com passe livre no transporte aos fins de semana, enquanto o governo antecipou para a semana da eleição o pagamento do Bolsa Família, já com o reajuste de 15%. A Folha levou à manchete a conta de R$ 290 bilhões das “bondades eleitorais”, e Estadão e O Globo deram o mesmo destaque à antecipação do benefício. O tom subiu nos editoriais. O Estadão falou em “A orgia eleitoral de Lula” e chamou de compra de votos o perdão aos MEIs, O Globo publicou “Surto eleitoreiro de Lula não parece ter fim”, e a Folha, “Lula perde pruridos no uso eleitoral da máquina pública” e “Esgota-se o modelo de estímulo ao consumo”.

A aprovação da PEC que extingue a escala 6×1, por 75 votos a 1 no Senado, e sua promulgação “com Lula em clima de campanha”, como registrou chamada da Folha, foram lidas na mesma chave. O Globo tratou a votação como oportunismo em editorial, o Estadão falou em “O triunfo populista”, e a Folha distribuiu a crítica entre governo e oposição. A exceção ficou por conta de “Conquista civilizatória”, coluna de Flávia Oliveira em O Globo, que celebrou a mudança como a maior conquista dos trabalhadores em mais de uma década.

O segundo eixo foi a guinada de Lula na segurança pública. O presidente passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, enquanto a PEC da Segurança era adiada no Congresso. Chamadas de O Globo registraram a mudança de posição e a tentativa da direita de explorar a contradição, o Estadão condenou a postura dos candidatos em “O leilão da maioridade penal”, e a Folha pediu que o tema saísse do palanque. O Globo censurou o adiamento da proposta em “Congresso frustra sociedade ao adiar a PEC da Segurança”.

O terceiro eixo foi a disputa propriamente dita. As pesquisas apontaram empate técnico, com Flávio à frente por 51% a 49% dos votos válidos no Datafolha e por 46% a 44% dos votos totais na Quaest. Nas ruas, o ato pró-Flávio na Avenida Paulista reuniu 71,9 mil pessoas, e o pró-Lula em Copacabana, 56,4 mil, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP divulgada por O Globo. O primeiro debate do segundo turno, promovido por Band e Estadão no dia 18, apareceu nas manchetes do dia seguinte como uma troca de acusações de corrupção que envolveu as famílias dos dois candidatos, e os editoriais do dia 20 condenaram ambos. O Estadão, em “Debate digno da pior campanha da história”, e a Folha seguiu linha parecida em “Um debate tardio e agressivo”, acompanhada pelas colunas “Confronto vazio de ideias”, de Dora Kramer, e “Fundo do poço”, de Merval Pereira.

A judicialização, que dominou as semanas anteriores, perdeu força e mudou de alvo. Depois de novo vaivém, o ministro Kassio Nunes Marques liberou o canal pró-Lula no WhatsApp, e o TSE editou regras para esses canais. A atenção passou então à Meta, que admitiu falhas nas contas de Lula depois que a inteligência artificial do WhatsApp produziu propaganda para Flávio e vetou material sobre o presidente, episódio que levou o governo a acionar o MPF e o PT a anunciar pedido de cassação da chapa do PL. Os editoriais sobre o assunto, “Meta tem de zelar por equilíbrio na campanha eleitoral”, de O Globo, e “Meta deve agir com transparência na campanha”, da Folha, foram neutros em relação ao presidente, assim como “Falta prudência à Justiça Eleitoral”, do Estadão.

COBERTURA DO GOVERNO FEDERAL E DO PRESIDENTE LULA

Gráfico 3. Cobertura do Governo Federal por jornal (IV)4

A série mensal do Gráfico 3 mostra o IV do governo federal em −1,26 em setembro, e em −1,37 em outubro, com dados até o dia 20. Na semana, o índice foi de −1,16 para −1,50, e a avaliação piorou nos três jornais. O Estadão manteve a posição mais desfavorável (−2,75, ante −2,43), seguido pela Folha (−1,50, ante −0,79), e por O Globo (−1,14, ante −0,94). O volume de textos caiu de 82 para 78. Os negativos passaram de 44 para 46 e os neutros, de 36 para 27, ao passo que os favoráveis subiram de um para quatro, ao lado de um ambivalente. No Estadão, houve onze textos contrários e apenas quatro neutros. A Folha somou dezessete desfavoráveis, nove neutros, dois positivos e um ambivalente, em 29 textos, e O Globo, dezoito contrários, catorze neutros e dois favoráveis, em 34.

Gráfico 4. Temas mais presentes na cobertura do Governo Federal e de Lula

A cobertura das Eleições 2026 respondeu, na semana, por 85 dos 113 textos sobre Lula, três quartos do total, e por 49 dos 78 sobre o governo federal, cerca de 63% (Gráfico 4). Economia e segurança pública completam o trio de temas mais frequentes, a primeira com doze textos na cobertura do governo e dez na de Lula, a segunda com quatro e três, respectivamente. O STF, terceiro colocado na semana anterior, saiu do grupo.

Folha e O Globo publicaram 34 textos cada sobre Lula no contexto da disputa, e o Estadão, dezessete. Predominou o registro factual, com 58 neutros, 24 contrários, dois favoráveis e um ambivalente, e a parcela de textos contrários foi menor no Estadão (quatro em dezessete) e em O Globo (nove em 34) do que na Folha (onze em 34).

Na cobertura do governo, o tema eleitoral recebeu tratamento mais adverso, com 27 contrários, dezenove neutros e três favoráveis em 49 textos. Em números absolutos, O Globo lidera, com doze contrários em 25, mas a proporção mais alta é a da Folha, com onze em dezessete, seguida pela do Estadão, com quatro em sete. O vocabulário da crítica deixou o balanço da derrota no primeiro turno e passou ao uso eleitoral da máquina pública. Além dos editoriais já citados, “Pela reeleição, Lula faz até ‘arminha’”, de Thaís Oyama, e “Lula roda, roda, mas pouco se mexe”, de Vera Magalhães, ambos em O Globo, trataram a guinada na maioridade penal e a sucessão de anúncios como um oportunismo que não rendeu frutos nas pesquisas, e “Dias de tensão e desespero”, de Dora Kramer, na Folha, descreveu uma campanha de populismo fiscal e uso sem escrúpulos da máquina. No Estadão, Roseann Kennedy, em “Flávio repete erros de Lula; petista abusa da máquina pública e volta a ser ‘metamorfose’”, e Denis Lerrer Rosenfield, em “Pornografia política”, falaram em compra de votos. A declaração da lobista Roberta Luchsinger de que Lulinha se reuniu “inúmeras vezes” com ministros rendeu manchete contrária no Estadão e chamada, na Folha.

Na economia, o padrão adverso se manteve na cobertura do governo, com nove contrários, dois neutros e um favorável em doze textos. Os quatro textos do Estadão sobre o tema foram contrários, a Folha publicou três críticos em cinco, e O Globo, dois em três. Na cobertura de Lula, o assunto rendeu dez textos, oito contrários e dois neutros. O alvo principal foi a conta das medidas eleitorais, que a Folha estimou em R$ 290 bilhões para 2026 e 2027, em manchete que apontava pressão sobre a dívida pública, e que O Globo, em chamada, apresentou como reforço da necessidade de ajuste. Em editorial, a Folha criticou a expansão de gastos e as benesses eleitorais (“Esgota-se o modelo de estímulo ao consumo”), e o Estadão cobrou liderança do governo em “É preciso fortalecer as agências reguladoras” e condenou, em “É preciso rever os benefícios fiscais”, a desoneração da cesta básica para todos os contribuintes, independentemente da renda. Na opinião assinada, “Um projeto para o Brasil”, de Roberto Macedo, e “Ajuste fiscal e embuste político”, de Jorge J. Okubaro, ambos no Estadão, apontaram a ausência de debate sobre crescimento e ajuste, e “A caminho de um estelionato eleitoral”, de Carlos Alberto Sardenberg, em O Globo, estendeu a crítica aos dois candidatos. O único texto favorável ao governo no tema foi o artigo “O voto que a economia já não explica”, de Helena Morais, Rafael Ribeiro e Fernanda Cimini, na Folha, que reconheceu resultados econômicos positivos da gestão. A segurança pública, terceiro tema da semana, apareceu em quatro textos sobre o governo, dois contrários e dois neutros, e em três sobre Lula, dois contrários e um ambivalente, puxados pela guinada do presidente na maioridade penal e pelo adiamento da PEC da Segurança.

Os textos favoráveis ao governo subiram de um para quatro. Além do artigo sobre a economia, entram nessa conta duas colunas de O Globo, “Conquista civilizatória”, de Flávia Oliveira, que celebrou o fim da escala 6×1, e “O que vem depois de tanta emoção?”, de Fernando Gabeira, que saudou a queda do desmatamento na Amazônia, e o artigo “O apelo da dignidade”, de Muniz Sodré, na Folha, que apresentou Lula como símbolo de estabilidade democrática. Os textos de Flávia Oliveira e Muniz Sodré foram também os únicos favoráveis ao presidente. O editorial da Folha “Atenção ao telemarketing abusivo”, que elogiou o mérito da medida provisória, mas com ressalvas, foi ambivalente para governo e presidente, e Lula recebeu outras duas avaliações ambivalentes, em artigos da Folha, “Ideias para um futuro possível”, de Pedro Mouallem, que reconheceu suas qualidades, mas cobrou propostas, e “Pauta das armas não pode ficar de fora da vitrine”, de Carolina Ricardo e Cristina Neme.

Gráfico 5. Cobertura do Governo Federal por veículo e tipo de texto

Entre os 46 textos contrários ao governo (Gráfico 5), as colunas seguem na dianteira, com dezesseis, à frente dos editoriais (quinze), das chamadas de capa (sete), dos artigos de opinião (quatro) e das manchetes (quatro). Os dois primeiros postos repetem a semana anterior, quando houve dezoito colunas e catorze editoriais contrários, mas as chamadas agora ultrapassaram os artigos. Por jornal, O Globo somou dezoito textos contrários, oito em colunas e seis em editoriais, a Folha, dezessete, com seis colunas e cinco editoriais, e o Estadão, onze, sendo quatro editoriais e três artigos. Das dez manchetes que citaram o governo, quatro foram contrárias, o dobro da semana anterior, duas sobre a antecipação do Bolsa Família (Estadão e O Globo), uma sobre os R$ 290 bilhões das “bondades eleitorais” (Folha) e outra sobre as declarações da lobista contra Lulinha (Estadão).

A distribuição por gênero deixa mais nítido o perfil de cada jornal. No Estadão, os quatro editoriais e os três artigos de opinião que mencionaram o governo foram contrários, e a única chamada, neutra. Em O Globo, seis das nove chamadas de capa foram neutras e seis dos oito editoriais, contrários, enquanto as colunas se dividiram entre oito contrárias, três neutras e duas favoráveis, as únicas do jornal. Na Folha, quatro das seis chamadas foram negativas, assim como cinco dos seis editoriais que citaram o governo, sendo o sexto ambivalente, e os artigos reuniram os dois textos favoráveis do jornal, num total de sete.

Gráfico 6. Cobertura do Presidente Lula por jornal (IV)

No Gráfico 6, a série mensal do IV de Lula mostra setembro em −0,81, recuperação nítida em relação a agosto (−1,34), e outubro em −0,70, com dados até o dia 20. Na semana, o índice passou de −0,70 para −0,54, calculado sobre 113 textos, dos quais 40 contrários, 68 neutros, dois favoráveis e três ambivalentes. O Estadão seguiu como o jornal mais severo, embora com índice menos negativo (−0,75, ante −0,93), e o avanço mais significativo veio de O Globo (−0,38, ante −0,70), ao passo que a Folha, praticamente estável (−0,55, ante −0,53), passou a ser o segundo jornal mais crítico. O índice do Estadão resulta de 28 textos, doze contrários e dezesseis neutros. A Folha, com 47 publicações, o maior volume da semana, soma dezessete contrárias, 26 neutras, uma favorável e três ambivalentes, e O Globo, com 38, reúne onze negativas, 26 neutras e uma favorável. 

Gráfico 7. Cobertura do Presidente Lula por veículo e tipo de texto

Na cobertura do presidente (Gráfico 7), os editoriais assumiram a liderança entre os textos contrários, com catorze, seguidos das colunas (doze), das chamadas de capa (seis), das manchetes (quatro) e dos artigos de opinião (quatro), o que inverte a ordem da semana anterior, quando as colunas somaram dezoito e os editoriais, catorze. A Folha publicou dezessete textos contrários, seis deles editoriais, quatro colunas, quatro chamadas, duas manchetes e um artigo, o Estadão, doze, com seis editoriais, três artigos, duas colunas e uma manchete, e O Globo, onze, seis dos quais em colunas. Segue de pé, portanto, o padrão em que a crítica a Lula passa pela opinião assinada em O Globo e pela voz institucional do próprio jornal no Estadão, onde seis dos sete editoriais que citaram o presidente foram contrários. A novidade é a adesão da Folha a esse segundo modelo, com seis editoriais contrários em oito. O noticiário também perdeu parte do registro neutro. Das catorze manchetes que mencionaram o presidente, quatro foram contrárias, a de O Globo sobre a extensão das “bondades” aos MEIs, a do Estadão sobre a lobista ligada a Lulinha e as duas da Folha, sobre o custo das medidas eleitorais e sobre a antecipação do Bolsa Família. Nas chamadas de capa, ao contrário, prevaleceu a neutralidade, com 30 das 36 neutras.

Conclusão

A última semana completa da campanha trouxe movimentos opostos nos índices do presidente e do governo federal. O IV de Lula passou de −0,70 para −0,54, e o do governo recuou de −1,16 para −1,50, de modo que a distância entre ambos, que havia encolhido para 0,46, voltou a crescer e chegou a 0,96, com o governo na posição mais desfavorável pela quinta semana consecutiva. A melhora de Lula decorreu, mais uma vez, da expansão do noticiário factual, já que os neutros passaram de 56 para 68 enquanto os contrários se mantiveram praticamente estáveis (de 41 para 40), com pesquisas, debate e o episódio da Meta cobertos sobretudo em chamadas de tom neutro. No caso do governo, o movimento foi o inverso, com os contrários subindo de 44 para 46 e os neutros caindo de 36 para 27, porque a sucessão de anúncios da reta final, do perdão aos MEIs ao passe livre e à antecipação do Bolsa Família, foi lida como uso eleitoral da máquina pública e atribuída ao governo. Como o IV divide o saldo entre favoráveis e contrários pela soma de neutros e ambivalentes, a retração dessa base amplia o valor absoluto do índice mesmo quando a crítica cresce pouco. A eleição continuou a dominar a pauta, com 85 dos 113 textos sobre Lula e 49 dos 78 sobre o governo, e reproduziu o contraste entre um tratamento mais factual do presidente (58 neutros em 85) e mais crítico do governo (27 contrários em 49).

Nos textos opinativos, a crítica seguiu duas linhas. A primeira foi a condenação das “bondades” eleitorais, que motivou editoriais nos três jornais e três das quatro manchetes contrárias ao governo na semana. A segunda foi o julgamento da campanha como vazia e agressiva, do “leilão” da maioridade penal ao debate do dia 18, que o Estadão considerou “digno da pior campanha da história”. A guerra jurídica no TSE perdeu centralidade, e os editoriais sobre a Meta não tomaram partido em relação ao presidente. O Estadão permaneceu como o jornal mais crítico, com −0,75 para Lula e −2,75 para o governo, valor este calculado sobre apenas quatro textos neutros, mas foi na Folha que a avaliação do governo mais se deteriorou, de −0,79 para −1,50.

A diferença de tratamento entre os candidatos, que já vinha diminuindo, praticamente desapareceu, com a distância entre os índices semanais de Lula e de Flávio caindo de 0,46 para 0,09. A mudança de posição do candidato do PL sobre a escala 6×1 e seu desempenho no debate deslocaram para ele parte da crítica, e Flávio passou a ser avaliado também pela coerência de suas promessas, e não apenas noticiado, com 30 textos contrários em 96 menções, ante 20 em 103 na semana anterior. Lula, por sua vez, continua a ser julgado como governante, e seus atos de governo seguem lidos na chave da instrumentalização eleitoral, o que explica por que a melhora de seu índice pessoal conviveu com a piora do índice do governo. A economia permanece adversa, com nove textos contrários em doze na cobertura do governo, e reforça a leitura das edições anteriores de que esse é o tema que menos oscila e o que melhor expressa a posição de fundo dos três jornais. Às vésperas da votação, resta saber se a maior severidade com o candidato do PL se sustentará nos últimos dias de campanha ou se terá sido um episódio passageiro, ligado à controvérsia da escala 6×1 e ao debate.

DONI

O De Olho na Imprensa! (DONI) é um relatório produzido pela equipe do Manchetômetro, que é um projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da UERJ. Utilizamos a metodologia de análise de valências para avaliar o posicionamento dos jornais, complementada pela leitura qualitativa dos enquadramentos predominantes. Valores negativos do IV indicam que as menções contrárias superam as favoráveis, e valores positivos, o inverso. Como o denominador reúne apenas os textos neutros e ambivalentes, o índice não está contido em um intervalo fixo e se torna tanto mais sensível quanto menor for a base de textos. 

Manchetômetro

Expediente:
Luan Freitas – Coleta e codificação de dados
Natália Paiva – Revisão de dados
Eduardo Barbabela – Revisão de dados, análise e redação
Pollyanna Brêtas – Redação e revisão
João Feres Júnior – Revisão, redação e análise
André Madruga – Divulgação
Lidiane Vieira – Divulgação
André Felix – TI

  1. Os textos opinativos — artigos, colunas e editoriais — são coletados nas páginas 2, 3 e 4 da Folha de S. Paulo e nas páginas 2 e 3 de O Globo e de O Estado de S. Paulo. ↩︎
  2.  Esta edição cobre a semana de 14 a 20 de outubro. Os gráficos mostram setembro fechado e uma coluna de outubro com os dados até o dia 20. Como a coluna de outubro reúne os vinte primeiros dias do mês, os índices semanais não coincidem com ela. Os gráficos referentes às Eleições 2026 seguem agregados mensalmente, embora o comentário continue concentrado na semana. Como o denominador do IV considera apenas as menções neutras e ambivalentes, o índice não está contido em um intervalo fixo e se torna mais instável à medida que diminui o número de textos codificados. Quando não há menções neutras ou ambivalentes, adotamos o denominador mínimo de um. No primeiro turno, o rol de presidenciáveis foi ampliado para contemplar a lista completa registrada no Tribunal Superior Eleitoral: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Hertz Dias (PSTU), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata). Os índices semanais são calculados sobre bases menores que as das edições mensais e, portanto, estão mais sujeitos à variação provocada por poucos textos. ↩︎
  3. As candidaturas de Clariana Barão, Edmilson Costa, Hertz Dias, Samara Martins e Wilson Grassi não foram citadas na semana, assim como Aldo Rebelo e Cabo Daciolo. Augusto Cury apareceu em dois textos, ambos neutros, e Rui Costa Pimenta, em um, de valência ambivalente, o que resulta em IV zero para ambos. 
    ↩︎
  4. As valências dizem respeito à forma como a imprensa avalia as posições e as ações do presidente ou do governo federal. Um texto de valência contrária a Lula é aquele em que o presidente recebe tratamento crítico, e não necessariamente aquele que noticia um fato desfavorável ao governo.
    ↩︎

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