Os partidos não querem mais o Executivo? Incentivos econômicos e estratégias partidárias nas eleições brasileiras

Introdução

À primeira vista, os dados eleitorais recentes parecem contar uma história inequívoca: os partidos brasileiros perderam interesse pelo Executivo. Coligações para o governo dos estados encolheram, e cada vez mais legendas preferem lançar candidato próprio a se aliar a outra. Mas há um problema nessa leitura: no mesmo período, cresceu o número de partidos disputando o governo estadual sozinhos: sinal de que o interesse pelo cargo mais alto do Executivo estadual não desapareceu; ele apenas mudou de forma.

Neste texto, defendo uma explicação diferente: o que parece desinteresse é, na verdade, o resultado de um desenho de financiamento público que recompensa quase exclusivamente o desempenho no Legislativo: sobretudo na Câmara dos Deputados. Ao concentrar ali os incentivos financeiros, esse desenho faz com que os partidos concentrem ali também seus recursos, mesmo continuando a disputar o Executivo. 

Coligações para o Executivo minguam porque a barganha que as sustentava — tempo de TV e recursos em troca de apoio na esfera proporcional — perdeu sentido depois do fim das coligações proporcionais; o dinheiro migra para o Legislativo porque é lá que ele se multiplica no ciclo seguinte. Nenhum dos dois movimentos, porém, equivale a um partido abrir mão do Executivo.

Alianças para o Executivo

No primeiro semestre de 2026, publiquei, a convite dos Cadernos Konrad Adenauer, um texto sobre o fim das coligações proporcionais e a reconfiguração das alianças majoritárias no Brasil. A pergunta era simples: será que o fim das coligações proporcionais mudou o cálculo dos partidos também na arena majoritária, mesmo essa não tendo sido diretamente afetada pela reforma?

Os dados de 2018 e 2022 sugerem que sim. De um lado, cresceu o número médio de partidos lançando candidato a governador — de 6,85 em 2018 para 7,81 em 2022. De outro, encolheu o número médio de partidos por coligação no mesmo pleito — de 4,30 para 3,0. Os dados preliminares de 2026 aprofundam essa segunda tendência: considerando as federações como partidos únicos, a média de partidos por aliança nas disputas ao governo estadual caiu para 2,7. No plano presidencial, o efeito é ainda mais nítido: dos 12 candidatos aptos a disputar o pleito de 2026, apenas dois formaram coligação — Lula (Federação PT-PV-PCdoB, PSB, PDT e Federação PSOL-Rede) e Augusto Cury (Avante e Agir). Em 2022, foram três coligações presidenciais; em 2018, oito.

Lidos em conjunto, esses números descartam uma primeira hipótese óbvia — a de que os partidos simplesmente perderam interesse pelo Executivo. Se fosse esse o caso, esperaríamos ver menos candidaturas, não mais. O que os dados mostram é outra coisa: cada vez mais partidos disputam o Executivo sozinhos, e cada vez menos topam ceder recursos e tempo de TV a um candidato de outra legenda para fazer parte de uma coligação. A pergunta que fica é por que a vontade de disputar não se traduz mais em vontade de se aliar.

Incentivos financeiros para os partidos: como os recursos públicos são distribuídos?

Para entender essa migração de recursos, é preciso olhar para como o dinheiro chega aos partidos. Desde que o Supremo Tribunal Federal proibiu as doações empresariais a campanhas (ADI 4650), o financiamento público passou a ser, disparado, a principal fonte de receita de partidos e candidatos no Brasil — hoje entre 80% e 90% de tudo que é arrecadado. Seja por candidatos em ano eleitoral, seja por partidos em qualquer ano, vem de dois fundos públicos: o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), criado em 2017, e o Fundo Partidário (FP), mais antigo. Ambos cresceram muito nos últimos anos — o FEFC saltou de R$ 1,7 bilhão em 2018 para R$ 4,9 bilhões em 2026; o FP, de cerca de R$ 400 milhões para mais de R$ 1,1 bilhão em 2025.

O que importa aqui não é só o tamanho desses fundos, mas a regra que define quem recebe quanto. Uma fatia pequena é dividida em partes iguais entre os partidos (5% do FP, 2% do FEFC). O grosso, porém, segue um critério de desempenho: 95% do Fundo Partidário são distribuídos conforme os votos de cada partido para a Câmara dos Deputados na eleição anterior. No FEFC, dos 98% restantes, 35% seguem o mesmo critério — votos para a Câmara —, 48% dependem do número de deputados federais eleitos, e apenas 15% da bancada no Senado. Em nenhuma das duas fórmulas — nem no fundo mais antigo, nem no mais recente — o desempenho em eleições majoritárias, governo estadual ou Presidência, entra na conta.1

Ou seja: o desenho do financiamento público brasileiro recompensa, quase exclusivamente, quem se sai bem na disputa pela Câmara dos Deputados. Resta saber se os partidos, na prática, respondem a esse incentivo.

Incentivos e estratégias: como os partidos investem?

Para testar se esse desenho de fato molda o comportamento partidário, analisei as receitas declaradas pelos candidatos nas eleições de 2022 (dados do TSE), separando o financiamento por cargo disputado e por origem do recurso, pública ou privada.

O total movimentado na eleição foi de R$ 6,64 bilhões: R$ 1,24 bilhão de fontes privadas e R$ 5,4 bilhões de fontes públicas. Esse dinheiro, porém, está longe de se distribuir igualmente entre os cargos em disputa. Deputado Federal, sozinho, respondeu por quase metade de tudo (49%, ou R$ 3,26 bilhões); somado a Deputado Estadual/Distrital (28%, R$ 1,86 bilhão). Concentração de 77% de todo o recurso movimentado na eleição — mais de três em cada quatro reais —, contra apenas 23% para Presidente, Governador e Senador juntos.

Figura 1: Receita por cargo e tipo de fonte (Valores Absolutos)

Esse número, por si só, já mostra onde está o incentivo. E, quando olhamos a origem do dinheiro, o padrão se confirma: o financiamento público domina em todos os cargos, mas pesa mais justamente onde o critério de repasse é mais generoso com o desempenho legislativo. Deputado Federal é o cargo mais dependente de recurso público (87% da receita), seguido por Senador (84%) e Governador (80%); Presidente (71%) e Deputado Estadual/Distrital (74%) recorrem, proporcionalmente, um pouco mais a doações e recursos próprios.

Figura 2: Receita por cargo e tipo de fonte (Valores Proporcionais)

O mesmo padrão aparece quando olhamos partido a partido — e fica ainda mais nítido quando concentramos o olhar só em Deputado Federal, o cargo que, sozinho, absorve a maior fatia do fundo público de quase toda legenda (Figura 3). Entre as 32 legendas com receita pública registrada em 2022, a média investida em Deputado Federal foi de 50% de todo o recurso público do partido (mediana de 54%) — ou seja, metade de tudo que um partido recebe de Fundo Partidário e FEFC vai, em média, para um único cargo. Os casos mais extremos mostram o quanto essa concentração pode ir longe: Avante (79%), PSC (75%), PTB (69%) e Patriota (67%) destinam dois terços ou mais do seu fundo público só a candidaturas de Deputado Federal. No outro extremo estão PMB (8%), PSTU (10%) e UP (19%), exceções pontuais e com pouco recurso público em jogo. Entre os partidos de porte médio a grande, PT (41%) e PDT (32%) são os que menos concentram recursos em Deputado Federal (partidos que lançaram candidatos a presidente).

Figura 3: Receita por partido e cargo (Valores Proporcionais)

Uma hipótese natural seria a de que essa concentração em Deputado Federal é maior entre os partidos que mais arrecadam — afinal, são eles que têm mais bancada federal a defender. Os dados não sustentam essa leitura: não há relação estatística entre o total de recursos públicos de um partido e o percentual que ele investe, proporcionalmente, em Deputado Federal (r = 0,11, p = 0,55). Partidos grandes e pequenos concentram recursos nesse cargo de forma parecida — o padrão não é escolha de uma legenda ou de outra, é uma característica do sistema como um todo.

Figura 4: Correlação entre o total de recursos do partido (Absoluto) e % de recursos inventidos na disputa para deputado federal 

E essa uniformidade tem uma explicação simples: como vimos na seção anterior, o critério que define o financiamento futuro de um partido é pautado, quase inteiramente, pelo desempenho na Câmara dos Deputados. Investir em Deputado Federal não é apenas eleger uma bancada — é alimentar diretamente as três fórmulas que definem o repasse do ciclo seguinte: os 95% do Fundo Partidário distribuídos por votos para a Câmara, e os 35% (votos) mais 48% (cadeiras) do FEFC que seguem o mesmo critério. Nenhuma delas responde ao desempenho no Executivo. Diante desse cálculo, faz sentido que quase todo partido, grande ou pequeno, escolha concentrar ali boa parte do seu fundo público.

Discussão

Voltando à pergunta que dá título a este texto: os partidos não querem mais o Executivo? Os dados aqui reunidos sugerem que não, ou pelo menos não exatamente. O que os partidos querem, cada vez mais, é disputar o Executivo sozinhos, e não mais se aliar a outras legendas para isso: cresce o número de candidaturas próprias ao governo estadual, mesmo com menos aliados por chapa. O interesse político pelo cargo não desapareceu.

O que desaparece, ou nunca existiu no desenho atual, é o incentivo financeiro para investir ali. As duas tendências que abrem este texto, coligações mais enxutas e dinheiro concentrado no Legislativo, têm origens distintas, mas convergem para o mesmo efeito. O fim das coligações proporcionais retirou o motivo para que um partido cedesse recursos e tempo de TV a um candidato de outra legenda ao governo estadual, já que aquela troca, que rendia vantagens na arena proporcional, perdeu sentido com a reforma. Já o desenho do financiamento público, com Fundo Partidário e FEFC pautados quase inteiramente por votos e cadeiras na Câmara dos Deputados, faz com que investir no Legislativo seja, também, investir no financiamento futuro do próprio partido. Investir no Executivo não oferece esse retorno.

Coligações mais enxutas trazem, porém, uma consequência que vai além do dinheiro. Quando menos partidos se comprometem formalmente com um candidato ao Executivo antes da eleição, menos partidos também chegam à eleição com um compromisso prévio de governar juntos. A coligação eleitoral costumava ser, entre outras coisas, um primeiro esboço da coalizão de governo: os partidos que dividiam palanque também tendiam a dividir secretarias e apoio na Assembleia depois da vitória (no nível federal, Ministérios e Congresso). Com esse esboço cada vez mais raro, resta saber como o governador eleito, sozinho ou quase sozinho na campanha, monta sua base de sustentação já eleito. Ele passa a negociar a coalizão de governo inteiramente depois do resultado das urnas, num processo que não tem mais o compromisso prévio da coligação como ponto de partida, e cuja dinâmica, negociação cargo a cargo, apoio caso a caso, ainda não sabemos bem como se compara à antiga lógica de coligação.

O resultado é um Executivo que perde peso na lógica partidária por dois caminhos ao mesmo tempo: atrai cada vez menos aliados antes da eleição, já que menos partidos veem sentido em se coligar para disputá-lo, e recebe uma fatia cada vez menor dos recursos dos partidos, não porque eles deixaram de querer o cargo, mas porque as regras do jogo não recompensam quem aposta nele. Reverter essa tendência, ou ao menos equilibrá-la, exigiria repensar os critérios de distribuição do Fundo Partidário e do FEFC, hoje quase inteiramente pautados pelo desempenho na Câmara e no Senado, para valorizar também os partidos que seguem disputando o Executivo. E entender essa tendência, num sentido mais amplo, exigiria olhar para o que acontece depois da eleição: como se formam as coalizões de governo quando a coligação eleitoral deixou de fazer esse trabalho antes dela.

Bruno Marques Schaefer
brunoschaefer@iesp.uerj.br 
Professor Adjunto do Departamento de Estudos Políticos do IESP (Instituto de Estudos Sociais e Políticos) da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Coordenador do programa de pós-graduação em Ciência Política no IESP. Co-coordena o MAPE (Laboratório de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas e Eleições do IESP-UERJ). É Editor de Replicabilidade na Revista DADOS. As áreas de interesse acadêmico são: políticas públicas, partidos políticos, metodologia científica e financiamento político.

  1.  A partir da Emenda Constitucional (EC) nº 111/21, há atribuição de peso diferente aos votos destinados a negros e mulheres nas eleições que ocorrerem de 2022 a 2030. De modo mais detalhado, a referida ação prevê que os votos dados a candidatas mulheres ou a candidatos negros serão computados em dobro fins de distribuição do FP e do FEFC. ↩︎

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