De Olho na Imprensa: Relatório N° 155
09/09/2026 – 15/09/2026
No DONI, são examinados os textos que citam o governo federal, o presidente Lula ou algum personagem ou instituição do Executivo, publicados nos jornais O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. A análise abrange manchetes, chamadas de capa, artigos de opinião, colunas e editoriais1. Também acompanhamos a cobertura das Eleições 2026, com atenção aos textos sobre os presidenciáveis, outros atores políticos relevantes para a disputa e os quatro partidos que integram a série histórica: PT, PL, PSD e MDB.
Os gráficos seguem a agregação mensal. A análise considera a semana de 9 a 15 de setembro. Assim, os números mencionados nos gráficos referem-se ao acumulado mensal, enquanto os dados semanais são sempre identificados. Esta edição inclui ainda uma breve análise lexical dos 31 textos opinativos da semana2.
PRINCIPAIS RESULTADOS
• ESPECIAL Eleições 2026: A crise no Supremo Tribunal Federal ganhou espaço na
cobertura eleitoral e foi tema de 16 dos 65 textos analisados na semana. O conflito
também entrou no debate entre os presidenciáveis, que se posicionaram sobre o
episódio.
• Flávio sob investigação: A operação da Polícia Federal que apura o financiamento do
documentário Dark Horse foi tema de nove textos, incluindo duas manchetes, além de
um editorial de O Estado de S. Paulo que classificou Flávio Bolsonaro como candidato sob
suspeita. Apesar da repercussão do caso, seu IV semanal ficou em −0,37.
• Menor negatividade da série semanal: IV do governo federal ficou em −0,35, e o de Lula,
em −0,75, os menores níveis de negatividade registrados desde o início da apuração
semanal. O governo também voltou a registrar textos favoráveis: foram três na semana,
depois de duas semanas sem nenhum.
Gráfico 1. Cobertura dos presidenciáveis e de outros atores políticos relevantes para a disputa (IV) 3,4

O Gráfico 1 apresenta o Índice de Valência (IV), em agregação mensal, dos presidenciáveis e de outros atores relevantes para a disputa de 2026. O recorte semanal mantém a ordem observada no índice mensal entre Lula e Flávio Bolsonaro, com −0,75 e −0,37, respectivamente. No caso de Flávio, o resultado semanal deve ser lido à luz da distribuição das 39 menções ao candidato registradas no período. Dessas, 27 foram classificadas como neutras, o que corresponde a pouco mais de dois terços do total. A predominância de referências neutras ajuda a explicar por que o volume de exposição do candidato não resulta, necessariamente, em um índice mais negativo.
Entre os assuntos que concentraram essa exposição estão as investigações da Polícia Federal relacionada ao financiamento do documentário Dark Horse, mencionada em nove textos e em duas manchetes ao longo da semana. Embora o caso tenha recebido espaço relevante no noticiário, parte significativa das referências foi de caráter factual, restrita ao registro da operação e de seus desdobramentos. A cobertura do episódio, portanto, contribuiu para ampliar a presença de Flávio Bolsonaro no noticiário, mas não necessariamente para elevar sua valência negativa. O dado reforça a distinção entre volume de exposição e valência da cobertura, ou seja, um tema pode ocupar espaço significativo no noticiário sem que isso implique, por si só, uma avaliação negativa do ator mencionado.
Gráfico 2. Cobertura dos partidos (IV)

No plano partidário, o PT registra IV de −0,36 na primeira metade de setembro e permanece como a legenda mais citada nos textos. Na semana, o índice foi de −0,33, resultado de cinco textos contrários e quinze neutros. O PL, por sua vez, teve 22 menções, o maior volume da série, mas 21 delas foram neutras e apenas uma, contrária, o que resultou em um IV de −0,05. A diferença entre as duas legendas está, portanto, tanto no volume quanto na distribuição das menções por valência. No caso do PL, a predominância de referências neutras está associada à cobertura factual da investigação envolvendo Flávio Bolsonaro. O PSD e o MDB apareceram uma vez cada, em textos neutros. Novo, legenda de Romeu Zema, e Missão, de Renan Santos, não integram a série histórica, restrita aos quatro partidos acompanhados desde o início do projeto.
A cobertura eleitoral se organizou em três frentes, todas relacionadas à crise no Supremo. A primeira foi o afastamento do diretor da Polícia Federal determinado pelo ministro André Mendonça, decisão defendida por presidenciáveis da oposição e atribuída pelo Planalto a motivações eleitorais. A Folha de S. Paulo publicou um editorial e uma chamada com o mesmo título, nos quais acusou Flávio Bolsonaro de explorar a crise com “leviandade e cinismo”, enquanto uma coluna de O Estado de S. Paulo recorreu, em declaração de Miguel Reale Júnior, à expressão “liquefação da República”. A segunda frente foi a operação da Polícia Federal sobre o financiamento do documentário Dark Horse, mencionada em nove textos e em duas manchetes, além de um editorial do Estadão, intitulado “Flávio é um candidato sob suspeita”. A terceira foi a divulgação de pesquisa que passou a registrar empate técnico nos dois turnos e, ao final da semana, apontou Flávio Bolsonaro numericamente à frente com 42% das intenções de voto, contra 40% de Lula. Augusto Cury, que na semana anterior respondia por um quarto da cobertura, teve apenas duas menções, ambas neutras. Também foram registradas a sabatina em que Renan Santos descartou apoiar o candidato do PL no segundo turno e a cobrança interna do PT por mudanças na campanha de Lula. O Estado de S. Paulo foi o veículo com os editoriais de tom mais negativo em relação aos dois principais nomes da disputa, classificando Flávio Bolsonaro como “candidato sob suspeita”, enquanto também criticou o presidente em texto com o título “Lula é isso aí”. Na Folha, um editorial descreveu a disputa como uma campanha acirrada e com o nível baixo de debate.
Gráfico 3. Cobertura do Governo Federal por jornal (IV)5

O Gráfico 3 apresenta a série mensal do IV do governo federal. Na primeira metade de setembro, o índice está em −0,85, ante −1,11 no fechamento de agosto. Na semana de 9 a 15 de setembro, ficou em −0,35, o menor grau de negatividade registrado desde a adoção da apuração semanal, e menos de um terço do da semana anterior. O Estadão foi o mais desfavorável, com −1,50, seguido por O Globo, com −0,23, e pela Folha, com −0,20. Entre os fatores que explicam o resultado estão o aumento no volume de textos neutros e o retorno das avaliações favoráveis.
Gráfico 4. Temas mais presentes na cobertura do Governo Federal e de Lula

Na semana de 9 a 15 de setembro, as Eleições 2026 foram tema de 22 dos 65 textos analisados, correspondentes a pouco mais de um terço do total. O Supremo Tribunal Federal apareceu em 16 textos, seguido pela investigação sobre o financiamento do documentário Dark Horse, com nove, e pelo caso Master, com cinco. Embora a eleição tenha concentrado o maior número de textos, foi a crise no STF que estruturou parte relevante da agenda da semana: os três temas seguintes se articularam, em diferentes graus, em torno do conflito envolvendo a Corte e seus ministros.
O STF foi, portanto, o principal eixo temático da semana. A cobertura tratou a Corte menos como instância de arbitragem e mais como espaço de disputa entre atores políticos e institucionais. O vocabulário utilizado por colunistas reforçou essa caracterização: uma coluna de O Globo recorreu à expressão “bangue-bangue judicial”, outra falou em “briga no escuro”, enquanto uma coluna da Folha de S. Paulo argumentou que o excesso de política torna o tribunal disfuncional. A crise também foi incorporada à disputa eleitoral. A oposição defendeu o ministro André Mendonça, enquanto o Planalto atribuiu à decisão motivações eleitorais. Um editorial da Folha avaliou positivamente a atuação do presidente do tribunal e constituiu um dos três textos favoráveis ao governo registrados na semana.
A cobertura eleitoral reuniu 22 textos, distribuídos principalmente entre a divulgação de pesquisas e a repercussão da crise judicial. As sondagens divulgadas ao longo da semana apontaram empate técnico nos dois turnos. Na última pesquisa, Flávio Bolsonaro apareceu numericamente à frente de Lula no segundo turno, com 42% das intenções de voto contra 40%. Uma coluna de O Globo resumiu o cenário com a avaliação de que a eleição “vai para a prorrogação”. A economia e a política fiscal, por sua vez, somaram oito textos e mantiveram o padrão negativo observado nas semanas anteriores: seis foram classificados como contrários. A alta do petróleo, a ampliação do subsídio aos combustíveis e a elevação do teto do MEI concentraram as avaliações negativas; neste último caso, O Globo classificou a medida como uma distorção que contribui para ampliar o déficit da Previdência.
A análise lexical dos 31 textos opinativos da semana, que totalizam cerca de 15 mil palavras, reforça a centralidade da crise institucional. Após a retirada das palavras de função, Lula aparece 72 vezes, Flávio Bolsonaro, 65, e Alexandre de Moraes, 56, seguidos por André Mendonça, com 38, e Daniel Vorcaro, com 37. Dois ministros do Supremo e um banqueiro figuram, assim, entre os cinco nomes mais frequentes do conjunto, ao lado dos dois principais nomes da disputa presidencial. O vocabulário associado ao campo judicial e institucional soma 209 ocorrências, acima do campo eleitoral, com 164, e dos campos fiscal e econômico, com 71. Daniel Vorcaro aparece em 15 dos 31 textos, frequência superior à de qualquer ministro individualmente, o que evidencia a presença simultânea da crise institucional e do caso financeiro na agenda opinativa da semana. Apesar dessa centralidade, o vocabulário empregado é predominantemente descritivo, com termos de desqualificação, como “cinismo”, “oportunismo” e “farsa”, somam pouco mais de dez ocorrências no conjunto de aproximadamente 15 mil palavras.
Gráfico 5. Cobertura do Governo Federal por veículo e tipo de texto

A presença de críticas ao governo caiu de 14 para dez textos contrários, o menor número da série semanal. Os editoriais respondem por sete deles, as colunas por dois e os artigos de opinião por um. Não houve chamada de capa nem manchete desfavorável ao governo ao longo da semana. O Globo registrou quatro textos contrários, enquanto O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo registraram três cada. Na direção oposta, foram identificados três textos favoráveis ao governo: um editorial de O Globo, sobre as multas do Ibama; um editorial da Folha, sobre a condução do Supremo; e um artigo de opinião sobre política econômica.
Gráfico 6. Cobertura do Presidente Lula por jornal (IV)

O Gráfico 6 apresenta a série mensal do IV de Lula. Na primeira metade de setembro, o índice ficou em −0,95, ante −1,36 no fechamento de agosto. No recorte semanal, o IV foi de −0,75, calculado a partir de 39 textos, sendo 17 contrários, dois favoráveis, um ambivalente e 19 neutros. Entre os jornais, o Estadão apresentou o resultado mais negativo, com −4,00, seguido por O Globo, com −1,00, e pela Folha, com −0,20. O resultado do Estadão deve ser interpretado com cautela devido ao reduzido número de textos: foram apenas cinco menções a Lula na semana, sendo quatro contrárias e uma neutra. O Globo, por sua vez, publicou nove textos sobre o presidente, dos quais quatro foram contrários.
Gráfico 7. Cobertura do Presidente Lula por veículo e tipo de texto

A distância entre o índice do presidente e o do governo voltou a aumentar, de 24 para 40 centésimos, com resultado mais negativo para Lula. Foram 17 textos contrários ao presidente e dez ao seu governo. No caso do petista, as colunas responderam por oito peças, seguidas pelos editoriais, com cinco. O Globo concentrou nove publicações contrárias, ante quatro do Estadão e três da Folha de S. Paulo. A predominância das colunas é relevante para a composição do índice, já que esse gênero comporta maior espaço para avaliações dos autores.
CONCLUSÃO
A semana registrou os menores índices de negatividade desde o início da apuração semanal tanto para o governo federal quanto para Lula. O resultado deve ser interpretado, porém, à luz da composição temática da cobertura. O assunto dominante foi a crise entre ministros do Supremo Tribunal Federal, que atravessou os noticiários judicial, eleitoral e policial, e produziu, em grande parte, textos de caráter factual. Ou seja, mais de 60% das menções aos dois principais atores foram classificadas como neutras. A análise dos textos opinativos reforça esse deslocamento, com dois ministros do Supremo e um banqueiro entre os cinco nomes mais citados. Já o caso de Flávio Bolsonaro ilustra a diferença entre volume de exposição e valência. O candidato foi alvo de uma operação da Polícia Federal, teve o sigilo quebrado e foi chamado de “candidato sob suspeita” em editorial do Estadão, mas a maior parte de suas menções na semana foi classificada como neutra, por se limitar ao registro da investigação. Nas próximas semanas, será possível acompanhar se a exposição acumulada se traduz em avaliações negativas ou se a valência permanece predominantemente neutra. Já o eixo econômico e fiscal segue adverso, com seis textos contrários em oito publicações, mantendo o padrão observado nas últimas edições como sendo o tema de menor oscilação e aquele que apresenta a valência mais consistentemente negativa nos três jornais.
- Os textos opinativos — artigos, colunas e editoriais — são coletados nas páginas 2, 3 e 4 da Folha de S. Paulo, e nas páginas 2 e 3, de O Globo e de O Estado de S. Paulo. ↩︎
- Esta edição cobre a semana de 9 a 15 de setembro. Os gráficos mostram agosto fechado e uma coluna de setembro com os quinze primeiros dias do mês. Os gráficos referentes às Eleições 2026 seguem agregados mensalmente, embora o comentário continue concentrado na semana. Como o denominador do IV considera apenas as menções neutras e ambivalentes, o índice não está contido em um intervalo fixo e se torna mais instável à medida que diminui o número de textos codificados. Quando não há menções neutras ou ambivalentes, adotamos denominador mínimo de um. O rol de presidenciáveis foi ampliado para contemplar a lista completa registrada no Tribunal Superior Eleitoral: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Hertz Dias (PSTU), Pablo Marçal (PRTB), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata). Os índices semanais são calculados sobre bases menores que as das edições quinzenais e, portanto, estão mais sujeitos à variação provocada por poucos textos. A análise lexical cobre os 31 textos opinativos da semana para os quais dispomos do conteúdo integral, e as contagens excluem palavras de função. ↩︎
- O Índice de Valência (IV) é calculado pela fórmula IV = F-CA+N , em que F é o número de menções favoráveis; C, o de contrárias; A, o de ambivalentes; e N, o de neutras.
↩︎ - As candidaturas de Clariana Barão, Edmilson Costa, Hertz Dias, Pablo Marçal, Rui Costa Pimenta, Samara Martins e Wilson Grassi não foram citadas no período. Augusto Cury apareceu em dois textos neutros, o que resulta em IV zero.
↩︎ - As valências dizem respeito à forma como a imprensa avalia as posições e as ações do presidente ou do governo federal. Um texto de valência contrária a Lula é aquele em que o presidente recebe tratamento crítico, e não necessariamente aquele que noticia um fato desfavorável ao governo. ↩︎
DONI
O De Olho na Imprensa! (DONI) é um relatório produzido pela equipe do Manchetômetro, que é um projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da UERJ. Utilizamos a metodologia de análise de valências para avaliar o posicionamento dos jornais, complementada pela leitura qualitativa dos enquadramentos predominantes. Valores negativos do IV indicam predomínio de menções contrárias, e valores positivos, de menções favoráveis; como o denominador reúne apenas os textos neutros e ambivalentes, o índice não está contido em um intervalo fixo e é tanto mais sensível quanto menor a base de textos.
Manchetômetro
Luan Freitas – Coleta e codificação de dados
Natália Paiva – Revisão de dados
Eduardo Barbabela – Revisão de dados, análise e redação
Pollyanna Brêtas – Redação e revisão
João Feres Júnior – Revisão, redação e análise
André Madruga – Divulgação
Lidiane Vieira – Divulgação
André Felix – TI