De Olho na Imprensa: Relatório N° 157

23/09/2026 – 29/09/2026

No DONI, examinamos os textos publicados pelos jornais O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo que mencionam o governo federal, o presidente Lula ou algum personagem ou instituição do Executivo. A análise abrange manchetes, chamadas de capa, artigos de opinião, colunas e editoriais1. Acompanhamos também a cobertura das Eleições 2026, com atenção aos textos sobre os presidenciáveis, sobre outros atores políticos relevantes para a disputa e sobre os quatro partidos que integram a série histórica: PT, PL, PSD e MDB. 

Os gráficos seguem a agregação mensal e o comentário, por sua vez, concentra-se na semana de 23 a 29 de setembro. Assim, os valores dos gráficos correspondem ao acumulado do mês, e os dados semanais são sempre identificados como tais2. Esta edição traz ainda uma breve análise lexical dos 50 textos opinativos da semana cujo conteúdo integral estava disponível. 

PRINCIPAIS RESULTADOS 

  • ESPECIAL Eleições 2026: A disputa presidencial dominou o noticiário da semana. A cobertura esteve presente em 49 dos 87 textos sobre o presidente Lula, e em 31 das 73 publicações sobre o governo federal.
  • Flávio com menor negatividade: O IV semanal de Flávio Bolsonaro foi de −0,33, ante −0,90 na semana anterior, o valor menos negativo entre as semanas completas desde agosto. Das 69 menções ao candidato, 52 foram neutras.
  • Governo sob mais crítica: O Índice de Valência do governo federal recuou para −1,65, ante −1,10 na semana anterior, com 45 textos contrários, o maior número desde o início de agosto, em semana que foi marcada pela leitura de que a proibição das bets foi uma medida eleitoreira do governo. O índice de Lula ficou estável, em −0,73. No acumulado do mês, o IV é de −0,78.

Gráfico 1. Cobertura dos presidenciáveis e de outros atores políticos relevantes para a disputa (IV)34

O Gráfico 1 apresenta o Índice de Valência (IV) mensal dos presidenciáveis e dos demais atores relevantes para a disputa de 2026. Em setembro, com dados até o dia 29, Lula permanece como o ator de índice mais negativo, −0,78, embora distante do −1,34 registrado em agosto. Seguem-se Jair Bolsonaro, acompanhado não como candidato, mas como figura central da disputa, com −0,50; Flávio Bolsonaro, com −0,47; e Renan Santos, com −0,30. Romeu Zema (−0,15) e Ronaldo Caiado (−0,10) aproximam-se da neutralidade, e Augusto Cury, que não consta do gráfico, continua a ser o único com saldo positivo, de 0,10. Todos os atores representados registram em setembro índices menos negativos que em agosto.

No recorte semanal, o destaque é Flávio Bolsonaro, cujo IV passou de −0,90 para −0,33. Das 69 menções ao candidato do PL, 52 foram neutras e 17 contrárias, sem nenhuma favorável. A melhora decorre menos de uma avaliação benevolente do que da natureza do noticiário sobre ele, dominado por pesquisas, agendas de campanha e pela disputa do voto útil, assuntos tratados em chave informativa. Como o denominador do IV reúne apenas as menções neutras e ambivalentes, a expansão desse volume dilui o peso das críticas, que se concentraram nos textos opinativos. Exemplo disso é a coluna da Folha que chamou Flávio de “presidenciável da milícia”, ao apontar a destinação de R$ 200 mil em emendas a um projeto situado em área de influência dos mandantes do assassinato de Marielle Franco.

Gráfico 2. Cobertura dos partidos (IV)

No plano partidário, o PT registra cerca de −0,49 em setembro, ante −0,52 em agosto, e permanece como a legenda de índice mais desfavorável entre as quatro acompanhadas. Na semana, marcou −0,55, ante −0,77 na anterior, resultado de 13 textos contrários, 1 favorável e 22 neutros. O PL foi citado 13 vezes, quase sempre em chave informativa, com 12 menções neutras e uma contrária, o que resulta em IV de −0,08, próximo ao do acumulado mensal. Em agosto, o índice mensal do partido era de −0,26. O PSD é a única das quatro legendas com saldo positivo em setembro, de cerca de 0,20, e o MDB permanece na neutralidade. Na semana, cada um apareceu uma única vez, em texto neutro. O contraste entre as duas principais legendas da disputa se mantém: o PT absorve a avaliação negativa associada às críticas à campanha de Lula e às medidas tidas por eleitoreiras, enquanto o PL figura sobretudo no noticiário factual. O Novo, partido de Romeu Zema, e o Missão, de Renan Santos, não integram a série histórica, restrita às legendas acompanhadas desde o início do projeto.

A cobertura eleitoral se organizou em torno de três episódios. O primeiro foi a proibição das apostas on-line por medida provisória, anunciada a nove dias do primeiro turno, que chegou às manchetes dos três jornais e foi interpretada como iniciativa eleitoreira. O Estadão publicou o editorial “Fazendo a coisa certa pelos motivos errados”, e a Folha, “Proibição de bets mostra Lula governado pela eleição”, no qual a medida aparece ao lado do reajuste do Bolsa Família e do programa de socorro aos endividados. O segundo foi o discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU, que dividiu os editoriais: o Estadão viu nele um comício eleitoral (“Na ONU, Lula escolhe seus inimigos”), e a Folha observou que o presidente misturou os papéis de estadista e de candidato. Já o Globo avaliou que ele manteve postura sóbria, ainda que com derrapadas. O terceiro reuniu a informação falsa de cunho religioso contra Flávio Bolsonaro, envolvendo Nossa Senhora, que, segundo o Estadão, foi disseminada pela militância lulista, e a decisão do ministro Flávio Dino que anulou determinação do ministro André Mendonça, de retirada de postagens nas redes sobre o tema. Nesse ponto, os três jornais convergiram em editoriais de mesmo teor: “Dino atua para reeleger Lula”, no Estadão; “Flávio Dino abusa de toga para reeleger Lula”, na Folha; e “Dino faz uso político da Justiça”, em O Globo. As pesquisas completaram o quadro. O Datafolha registrou Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno, e, ao fim da semana, O Globo noticiou empate numérico, de 42% a 42%, na simulação de segundo turno.

COBERTURA DO GOVERNO FEDERAL E DO PRESIDENTE LULA

Gráfico 3. Cobertura do Governo Federal por jornal (IV)5

O Gráfico 3 apresenta a série mensal do IV do governo federal. Em setembro, o índice está em −1,21, ante −1,11 de agosto. Na semana de 23 a 29, recuou para −1,65, ante −1,10 na anterior, o valor mais negativo desde o período de 5 a 11 de agosto, quando chegou a −1,80. O Estadão foi o veículo mais desfavorável, com −2,80, seguido por O Globo, com −1,40, e pela Folha, −1,36. Os textos contrários passaram de 39 para 45, e os favoráveis, de cinco para dois. Além disso, a base de neutros e ambivalentes, que compõem o denominador do índice, encolheu de 31 para 26. Em termos proporcionais, os contrários subiram de 52% para 62% do total.

Gráfico 4. Temas mais presentes na cobertura do Governo Federal e de Lula

Na semana, as Eleições 2026 responderam por 49 dos 87 textos sobre Lula, mais da metade do total, e por 31 dos 73 textos sobre o governo federal. Economia e as Bets completam os três temas mais frequentes: na cobertura do governo, a economia soma 16 textos, e as Bets, 11. Na de Lula, as Bets somam onze, e a economia, oito.

A eleição foi o eixo em torno do qual se organizou o noticiário. Na cobertura de Lula, a Folha concentrou o maior volume, com 22 textos, seguida por O Globo, com 18, e pelo Estadão, com nove. Prevaleceu o tom informativo: dos 49 textos, 26 são neutros, 20 contrários e 3 ambivalentes. O Estadão destoa, com seis contrários dos nove publicados. Na cobertura do governo, o quadro é mais adverso, com 19 contrários e 12 neutros entre os 31 textos sobre a eleição, e a Folha à frente, com oito negativos. As colunas de O Globo trataram a proibição das bets como “a grande aposta de Lula” e afirmaram que ela “pode dar em nada”, e uma coluna da Folha avaliou que a arrogância atrapalha a campanha do presidente, em “Quando a soberba é senhora”.

A economia manteve o padrão adverso na cobertura do governo, com dez contrários em 16 textos, seis deles em O Globo, que publicou oito sobre o tema. Na cobertura de Lula, foram oito textos, divididos igualmente entre contrários e neutros. A crítica concentrou-se no custo fiscal das medidas de campanha. Um editorial de O Globo alertou que a alta dos gastos públicos exigirá sacrifícios, e outro cobrou a revisão do custo das estatais dependentes. Já a Folha, no editorial “Benesse sem compensação”, apontou a frustração de receitas com a tributação de dividendos. Uma chamada de capa do mesmo jornal registrou que o pacote de medidas de Lula alcançou R$ 216 bilhões com a proibição das bets e o Desenrola 3. As Bets somam onze textos em cada cobertura, com sete contrários ao governo e cinco ao presidente. As manchetes noticiaram a proibição em tom factual, ao passo que os textos opinativos a trataram como oportunismo, como no artigo “Oportunismo eleitoral ineficaz”, publicado na Folha.

A leitura integral dos 50 textos opinativos da semana, que somam cerca de 26 mil palavras, confirma a centralidade da disputa. Os nomes mais frequentes são Lula, com 169 ocorrências, Flávio, com 71, Bolsonaro, com 62, sobrenome que abrange o candidato e o ex-presidente. Aparecem ainda Trump, com 21, e Dino, com 17. Lula figura em 49 dos 50 textos. O léxico do campo eleitoral soma 447 ocorrências, bem acima do campo judicial e institucional, com 255, e do fiscal e econômico, com 204. O vocabulário das apostas reúne 138 ocorrências, distribuídas em 14 textos. Na análise da semana de 9 a 15 de setembro, o campo judicial liderava, mas agora, a reta final da campanha recolocou a eleição no centro do debate opinativo. A crítica, por sua vez, está mais apoiada no argumento do que na desqualificação, isto é, termos como oportunismo, populismo, mentira ou hipocrisia somam 32 ocorrências, pouco mais de uma a cada mil palavras.

Gráfico 5. Cobertura do Governo Federal por veículo e tipo de texto

No recorte por veículo e gênero, a crítica ao governo se concentrou nos textos opinativos. Dos 45 contrários, 15 são editoriais, 12 colunas e 6 artigos de opinião, ante 11 chamadas de capa e 1 manchete. Entre os opinativos, dois em cada três textos sobre o governo foram contrários (33 dos 49). Já entre as peças informativas, a metade (12 dos 24). A Folha publicou 17 textos contrários, e o Estadão e O Globo, 14 cada. Os cinco editoriais do Estadão sobre o governo foram todos desfavoráveis, e coube ao jornal a única manchete negativa da semana, “Em ofensiva por votos, governo lança programa para compra de dívidas”. As três manchetes de O Globo foram neutras. Os dois textos favoráveis saíram na Folha: a coluna “O Brasil de sempre nas Nações Unidas”, sobre o discurso de Lula na ONU, e o artigo “A constituição do Super Homem”, que defende a reeleição do presidente como a melhor chance de recompor o sistema político.

Gráfico 6. Cobertura do Presidente Lula por jornal (IV)

O Gráfico 6 apresenta a série mensal do IV de Lula. Em setembro, com dados até o dia 29, o índice está em −0,78, ante −1,34 no fechamento de agosto. Na semana, ficou em −0,73, com base em 87 textos, sendo 37 contrários, 2 favoráveis, 4 ambivalentes e 44 neutros. O Estadão foi o mais desfavorável, com −1,63, seguido pela Folha, com −0,60, e por O Globo, com −0,50. O resultado do Estadão revela que em 21 textos, 13 foram contrários e nenhum favorável. A Folha, com 36 textos, e O Globo, com 30, concentram a maior parte das menções neutras, 18 cada.

Gráfico 7. Cobertura do Presidente Lula por veículo e tipo de texto

A distância entre os índices do presidente e do governo subiu de 0,38 para 0,92, com o governo em posição mais desfavorável pela segunda semana consecutiva. Na cobertura de Lula, as colunas assumem a dianteira, com 14 textos contrários, seguidas pelos editoriais, com 10, e pelas chamadas de capa, com 7. A Folha lidera, com 14 negativos, seguida pelo Estadão, com 13, e por O Globo, com 10, oito deles em colunas. O peso das colunas é coerente com a natureza do gênero, que confere aos autores maior margem para avaliação e julgamento. A clivagem entre opinião e informação é ainda mais nítida aqui do que na cobertura do governo: 29 dos 52 textos opinativos sobre Lula foram contrários, ante apenas 8 das 35 peças informativas.

Conclusão

A semana registra um descolamento entre o governo federal e o presidente. O IV do governo atingiu seu patamar mais crítico desde a primeira quinzena de agosto, enquanto o de Lula permaneceu estável. Seria equivocado, porém, ler nessa estabilidade uma cobertura mais benigna do presidente. Ela decorre, em larga medida, do modo como a eleição organizou o noticiário, na medida em que a disputa respondeu por mais da metade dos textos sobre Lula, em sua maioria informativos, 26 neutros em 49, alimentados por pesquisas que apontam empate no segundo turno. Como o IV tem por denominador os textos neutros e ambivalentes, a base ampla de Lula, com 48 textos, amortece o efeito das críticas, ao passo que a do governo se reduziu a 26. A proporção de textos contrários, menos sensível a esse efeito, oferece uma comparação mais direta: 62% no caso do governo e 43% no do presidente. O mesmo mecanismo ajuda a explicar a melhora de Flávio Bolsonaro, que fechou a semana em −0,33, com 52 de suas 69 menções classificadas como neutras.

DONI

O De Olho na Imprensa! (DONI) é um relatório produzido pela equipe do Manchetômetro, que é um projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da UERJ. Utilizamos a metodologia de análise de valências para avaliar o posicionamento dos jornais, complementada pela leitura qualitativa dos enquadramentos predominantes. Valores negativos do IV indicam predomínio de menções contrárias, e valores positivos, de menções favoráveis; como o denominador reúne apenas os textos neutros e ambivalentes, o índice não está contido em um intervalo fixo e é tanto mais sensível quanto menor a base de textos. 

Manchetômetro

Expediente:
Luan Freitas – Coleta e codificação de dados
Natália Paiva – Revisão de dados
Eduardo Barbabela – Revisão de dados, análise e redação
Pollyanna Brêtas – Redação e revisão
João Feres Júnior – Revisão, redação e análise
André Madruga – Divulgação
Lidiane Vieira – Divulgação
André Felix – TI

  1. Os textos opinativos — artigos, colunas e editoriais — são coletados nas páginas 2, 3 e 4 da Folha de S. Paulo e nas páginas 2 e 3 de O Globo e de O Estado de S. Paulo.
    ↩︎
  2.  Os gráficos referentes às Eleições 2026 também seguem a agregação mensal. Como o denominador do IV reúne apenas as menções neutras e ambivalentes, o índice não está contido em um intervalo fixo e torna-se mais instável à medida que diminui o número de textos codificados; na ausência de menções neutras ou ambivalentes, adota-se denominador mínimo igual a um. Por essa razão, os índices semanais, calculados sobre bases menores que as das antigas edições quinzenais, são mais sensíveis à variação provocada por poucos textos. O rol de presidenciáveis foi ampliado para contemplar a lista completa de candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Hertz Dias (PSTU), Pablo Marçal (PRTB), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata). A análise lexical cobre os 28 textos opinativos da semana cujo conteúdo integral está disponível, e as contagens excluem palavras de função. Na classificação temática, os rótulos foram normalizados para agrupar variantes do mesmo assunto.
    ↩︎
  3. O Índice de Valência (IV) é calculado pela fórmula IV = (F − C) / (A + N), em que F é o número de menções favoráveis; C, o de contrárias; A, o de ambivalentes; e N, o de neutras.
    ↩︎
  4. As candidaturas de Clariana Barão, Edmilson Costa, Hertz Dias, Pablo Marçal, Rui Costa Pimenta e Wilson Grassi não foram citadas na semana. Samara Martins apareceu em um texto neutro, e Augusto Cury, em três, o que resulta em IV nulo para ambos. Augusto Cury não figura no Gráfico 1, e seu IV acumulado em setembro, de 0,10, provém da tabela de apoio.
    ↩︎
  5. As valências dizem respeito à forma como a imprensa avalia as posições e as ações do presidente ou do governo federal. Um texto de valência contrária a Lula é aquele em que o presidente recebe tratamento crítico, e não necessariamente aquele que noticia um fato desfavorável ao governo. ↩︎

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