A abstenção no estado e na cidade do Rio de Janeiro no primeiro turno de 2026
1 Objeto e recorte
Este relatório isola o estado e a cidade do Rio de Janeiro do material reunido para a análise nacional da abstenção no primeiro turno da eleição presidencial de 4 de outubro de 2026. A pergunta que o organiza é se a posição do estado no quadro nacional, a segunda maior taxa de abstenção entre as unidades da federação, descreve um padrão fluminense ou resulta da concentração do eleitorado numa única cidade.
Valem aqui as mesmas definições do relatório geral. A abstenção é a razão entre eleitores aptos que não compareceram e o total de aptos; brancos e nulos são computados sobre o comparecimento e tratados como fenômenos distintos. O relatório mede ausência às urnas e voto não-válido, e não infere a partir dessas medidas disposições ou estados mentais do eleitorado.
As unidades de observação são o município, o par município-zona, o local de votação e a seção eleitoral. A versão anterior deste relatório parou no município, porque os arquivos consolidados do TSE ainda não estavam publicados; o arquivo de seção, disponível desde 5 de outubro, permite agora descer aos níveis em que a capital pode ser examinada por dentro. A seção 7 trata dessa descida, que no caso carioca é a parte mais substantiva do material.
2 O estado no quadro nacional
O estado do Rio de Janeiro registrou 23,32% de abstenção, a segunda maior taxa entre as unidades da federação, atrás apenas do Mato Grosso do Sul (23,87%) e acima de Minas Gerais (22,81%) e de São Paulo (22,54%). A média nacional do eleitorado domiciliado no país foi de 20,84%; incluído o eleitorado no exterior, cujas taxas não são comparáveis, o Brasil fecha o primeiro turno em 21,08%.
Tabela 1 – Taxas de abstenção, brancos e nulos por recorte territorial no Rio de Janeiro
| Recorte | Municípios | Eleitorado apto | Abstenção (%) | Brancos (%) | Nulos (%) | Razão cadastral |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Capital | 1 | 4.952.612 | 26,12 | 2,01 | 3,10 | 0,970 |
| Região Metropolitana sem a capital | 20 | 4.556.893 | 21,19 | 2,16 | 2,97 | 0,987 |
| Interior | 71 | 3.348.143 | 22,06 | 1,95 | 2,60 | 1,022 |
| Estado | 92 | 12.857.648 | 23,32 | 2,05 | 2,92 | 0,989 |
| Brasil | 5.570 | 157.824.642 | 20,84 | 1,84 | 2,94 | 0,986 |
Fonte: elaboração própria a partir do sistema de divulgação de resultados do TSE e do IBGE.
A tabela já responde à pergunta da seção anterior. Retirada a capital, o estado deixa de ser excepcional: a região metropolitana cai para 21,19% e o interior fica em 22,06%, ambos acima da média nacional, mas dentro da faixa de vários estados do Sudeste e do Centro-Oeste. A taxa estadual de 23,32% é, em boa medida, efeito de composição: a cidade do Rio concentra 38,5% do eleitorado fluminense e responde por 43,2% dos ausentes do estado.

Taxa de abstenção por município do estado do Rio de Janeiro
Entre os 92 municípios fluminenses a abstenção varia de 15,00% em Macuco a 26,71% em Mangaratiba, com mediana de 21,49% e desvio-padrão de 2,34 pontos percentuais. A dispersão é menor que a nacional, de 4,05 pontos.
3 A capital
A cidade do Rio de Janeiro reuniu 4.952.612 eleitores aptos, dos quais 1.293.714 não compareceram, 26,12% do eleitorado. Essa é a maior taxa de abstenção entre os 29 municípios brasileiros com mais de quinhentos mil eleitores, à frente de Porto Alegre (23,99%), Belo Horizonte (23,61%) e São Paulo (23,39%), e o dobro da de Fortaleza (13,02%), que fecha a série. Entre os 5.570 municípios do país, a capital fluminense ocupa a 473ª posição, no topo de 8,5% da distribuição.

Taxa de abstenção por município de mais de 500 mil eleitores
Brancos e nulos não acompanham esse deslocamento. A capital registrou 2,01% de brancos e 3,10% de nulos sobre o comparecimento, valores próximos aos das demais metrópoles e sem relação com sua posição extrema na abstenção, o que reitera, no recorte fluminense, a independência entre as três taxas documentada no relatório geral.
4 A região metropolitana
Tabela 2 – Taxas de abstenção, brancos e nulos por município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
| Município | Eleitorado apto | Abstenção (%) | Brancos (%) | Nulos (%) | Razão cadastral |
|---|---|---|---|---|---|
| Rio de Janeiro | 4.952.612 | 26,12 | 2,01 | 3,10 | 0,970 |
| Petrópolis | 239.569 | 24,17 | 2,41 | 3,23 | 1,043 |
| São Gonçalo | 653.184 | 23,46 | 2,19 | 3,27 | 0,886 |
| Belford Roxo | 346.172 | 22,83 | 2,33 | 3,09 | 0,913 |
| Itaboraí | 177.920 | 22,64 | 2,33 | 2,63 | 0,997 |
| Nova Iguaçu | 614.931 | 22,41 | 2,42 | 3,29 | 0,988 |
| Seropédica | 60.965 | 22,19 | 2,08 | 2,51 | 0,965 |
| Maricá | 185.609 | 22,14 | 1,67 | 2,23 | 1,164 |
| Mesquita | 136.302 | 22,02 | 1,97 | 2,54 | 1,018 |
| Cachoeiras de Macacu | 46.722 | 21,88 | 1,94 | 2,51 | 1,022 |
| Nilópolis | 128.648 | 21,84 | 1,87 | 2,64 | 1,067 |
| Japeri | 76.652 | 21,81 | 2,45 | 2,88 | 1,020 |
| Guapimirim | 44.941 | 21,68 | 1,91 | 2,14 | 1,107 |
| Itaguaí | 100.542 | 21,59 | 2,09 | 2,36 | 1,108 |
| Paracambi | 33.690 | 21,45 | 2,15 | 2,76 | 0,992 |
| Tanguá | 26.468 | 19,81 | 2,06 | 2,10 | 1,078 |
| Niterói | 412.252 | 19,60 | 1,54 | 2,30 | 1,014 |
| Magé | 192.902 | 19,52 | 2,25 | 2,68 | 1,080 |
| São João de Meriti | 340.128 | 18,63 | 2,28 | 3,32 | 0,966 |
| Duque de Caxias | 634.694 | 17,97 | 2,26 | 3,34 | 0,997 |
| Queimados | 104.602 | 16,88 | 2,16 | 2,61 | 0,954 |
Fonte: elaboração própria a partir do sistema de divulgação de resultados do TSE e do IBGE.

Taxa de abstenção por município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro
O ordenamento interno da região metropolitana é o resultado mais difícil de acomodar em qualquer leitura que associe ausência às urnas a privação socioeconômica ou a periferia urbana. A capital lidera, e os municípios de menor abstenção da região são os da Baixada Fluminense: Queimados (16,88%), Duque de Caxias (17,97%) e São João de Meriti (18,63%). A distância entre a capital e Duque de Caxias é de oito pontos percentuais, com o Rio no alto. Niterói, que tem o maior rendimento domiciliar da região, fica em 19,60%, abaixo da média estadual.
Os municípios metropolitanos que se aproximam da capital, São Gonçalo (23,46%), Belford Roxo (22,83%), Nova Iguaçu (22,41%), não formam com ela um bloco contíguo nem compartilham perfil socioeconômico com ela. A região metropolitana não se comporta, nesse quesito, como unidade.
5 O componente cadastral
A hipótese administrativa, a de que parte da abstenção medida são títulos de eleitores falecidos, emigrados ou domiciliados em outro município, é a primeira a ser testada antes de qualquer leitura política. No caso da capital ela não tem o que explicar. A razão entre o eleitorado apto do TSE em 2026 e a população de 16 anos ou mais do Censo de 2022 é de 0,970 na cidade do Rio: há menos títulos ativos do que residentes em idade eleitoral. O cadastro carioca é subdimensionado, não inflado, e ainda assim a cidade tem a maior abstenção entre as grandes do país. Isso cancela a hipótese de que a alta abstenção no município do Rio de Janeiro se deva em parte a um suposto grande número de cariocas que têm título registrado na cidade, mas nela já não moram.

Taxa de abstenção por razão cadastral nos municípios do Rio de Janeiro
No conjunto do estado o sinal é contrário ao que a hipótese administrativa prediz. A correlação entre a razão cadastral e a taxa de abstenção nos 92 municípios é negativa: -0,228 de Pearson e -0,238 de Spearman. Municípios com cadastro mais inflado tendem a registrar abstenção menor, não maior. O mesmo vale para São Gonçalo e Belford Roxo, cujas razões são de 0,886 e 0,913 e cujas taxas estão entre as mais altas da região metropolitana.
Isso não autoriza a conclusão de que o cadastro seja irrelevante em geral, pois o relatório nacional mostra que, controlada a estrutura espacial, o efeito existe e é positivo, ainda que pequeno. Autoriza, sim, a conclusão restrita de que a abstenção fluminense, e sobretudo a carioca, não é explicada pelo estado do cadastro.
6 Estrutura espacial dentro do estado
No relatório nacional nenhum dos 92 municípios fluminenses integra agrupamento local significativo, nem de alta nem de baixa abstenção. Recalculado o diagnóstico com pesos de vizinhança internos ao estado, pergunta distinta, que examina se há estrutura espacial dentro do Rio, o resultado se confirma para a abstenção e se inverte para as demais taxas. O I de Moran global da abstenção é de 0,038, sem significância estatística (p = 0,239); os dos brancos e dos nulos são de 0,291 e 0,259, ambos com p = 0,001.
A abstenção no Rio de Janeiro, portanto, não é um fenômeno regional. Municípios vizinhos não se parecem entre si mais do que o acaso produziria, e os poucos agrupamentos locais que o teste assinala (oito dos 92 municípios) não devem ser lidos como estrutura, dado que a estatística global não rejeita a hipótese de ausência de autocorrelação. Brancos e nulos, ao contrário, organizam-se no espaço também dentro do estado.
Esse é um resultado de método com consequência substantiva: o estado do Rio não pode ser descrito como região de alta abstenção no sentido que o mapa de agrupamentos dá à expressão, embora tenha a segunda maior taxa estadual do país. A taxa alta vem do peso de uma cidade, a capital, e não de um padrão difuso.
7 A heterogeneidade interna da capital
A seção 3 apresentou a cidade do Rio como uma unidade de 4.952.612 eleitores e 26,12% de abstenção. A cidade tem 49 zonas eleitorais, 1.449 locais de votação e 12.635 seções, e a taxa agregada esconde variação de magnitude maior que a que separa estados.
Tabela 3 – Dispersão da taxa de abstenção por nível territorial no estado e na capital
| Recorte e nível | Unidades | Mediana (%) | Desvio-padrão (p.p.) | Mínimo (%) | Máximo (%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Estado, município | 92 | 21,49 | 2,34 | 15,00 | 26,71 |
| Estado, município-zona | 183 | 22,26 | 3,06 | 15,00 | 31,85 |
| Estado, local de votação | 5.046 | 22,30 | 4,68 | 2,67 | 53,03 |
| Estado, seção | 37.675 | 22,44 | 6,06 | 2,67 | 55,38 |
| Capital, zona | 49 | 26,29 | 1,67 | 22,16 | 31,85 |
| Capital, local de votação | 1.449 | 26,10 | 4,23 | 9,24 | 46,36 |
| Capital, seção | 12.635 | 26,48 | 5,91 | 3,77 | 55,38 |
Fonte: elaboração própria a partir do Repositório de Dados Eleitorais do TSE.
No estado, a dispersão entre os 92 municípios é de 2,34 pontos percentuais. Entre as 5.046 locais de votação ela sobe para 4,68 pontos, e entre as 37.675 seções, para 6,06. Na capital o mesmo padrão se repete em escala menor de unidades e maior de contraste: as 49 zonas variam 9,69 pontos, de 22,16% a 31,85%, e os locais de votação variam de 9,24% a 46,36%.

Taxa de abstenção por zona eleitoral da cidade do Rio de Janeiro
As zonas de maior abstenção concentram-se no Centro. A zona 5 registra 31,85%, a 17 registra 30,18% e a 204 registra 29,28%. No extremo oposto, a zona 120 fica em 22,16%, abaixo da média estadual. A distância entre a zona mais e a menos abstencionista da cidade, 9,69 pontos, é maior que a distância entre o Nordeste e o Centro-Oeste no agregado nacional.

Distribuição da taxa de abstenção por local de votação da cidade do Rio de Janeiro
Entre os 1.387 locais de votação da capital com pelo menos mil eleitores, a taxa vai de 9,24% a 46,36%. Os cinco de maior abstenção estão todos no Centro, e quatro deles funcionam em prédios públicos: o Colégio Pedro II da unidade Centro (46,36%), a Alfândega da Receita Federal (42,18%), o Ministério da Fazenda (41,72%) e a Câmara Municipal (40,21%). Os de menor abstenção são escolas particulares da Zona Oeste: o Colégio PH da Ilha Pura (9,24%), o Colégio QI da Freguesia (14,00%) e o Colégio PH da Barra da Tijuca (14,28%).
O padrão sugere uma hipótese que o material aqui reunido não testa, mas que os endereços dos locais de votação permitem testar: a de que a abstenção cresce com a distância entre o lugar onde o eleitor mora e aquele onde vota. Locais do Centro instalados em repartições públicas atendem seções cujo eleitorado foi cadastrado na região central, e não necessariamente reside nela. Verificar isso exige geocodificar os 1.449 endereços e cruzá-los com dados de setor censitário, o que fica para a etapa seguinte.

Decomposição da variância da abstenção por nível territorial no Rio de Janeiro
A decomposição da variância mede o peso de cada nível. No estado, 21,02% da variância da abstenção entre seções corresponde a diferenças entre municípios, 3,85% a diferenças entre zonas do mesmo município, 24,77% a diferenças entre locais de votação de uma mesma zona e 50,36% a diferenças entre seções de um mesmo local. Na capital, onde não há nível municipal, as zonas respondem por 8,57%, os locais por 31,05% e as seções por 60,38%.
Quase quatro quintos da variação fluminense, portanto, ocorrem abaixo do município, e na capital quase todo o contraste está abaixo da zona. Nenhuma das covariáveis municipais usadas no relatório nacional representa esse nível. Vale aqui a mesma cautela registrada lá: a seção eleitoral é pequena, com algumas centenas de eleitores, e a composição de seu cadastro introduz heterogeneidade de idade e de tempo de domicílio sem conteúdo territorial. O nível do local de votação é o mais informativo dos três, e responde sozinho por 31,05% da variância na capital.
8 Principais resultados
- A taxa estadual de 23,32%, segunda do país, é efeito de composição. Retirada a capital, o estado não se distingue dos demais do Sudeste: 21,19% na região metropolitana e 22,06% no interior.
- A cidade do Rio de Janeiro tem a maior abstenção entre os 29 municípios brasileiros de mais de quinhentos mil eleitores, 26,12%, o que equivale a 1.293.714 pessoas. Concentrando 38,5% do eleitorado do estado, responde por 43,2% de seus ausentes.
- O cadastro não explica o caso carioca. A razão entre eleitorado apto e população em idade eleitoral na capital é de 0,970, abaixo da unidade, e no conjunto do estado a correlação entre essa razão e a abstenção é negativa.
- O ordenamento da região metropolitana é inverso ao que a leitura pela periferia sugeriria: as menores taxas estão na Baixada Fluminense, e a capital lidera com oito pontos de vantagem sobre Duque de Caxias.
- A maior parte da variação fluminense está abaixo do município. Diferenças entre municípios respondem por 21,02% da variância entre seções; diferenças entre zonas do mesmo município, por 3,85%; e diferenças entre locais de votação e entre seções, pelos 75,13% restantes. Na capital, as 49 zonas variam 9,69 pontos e os locais de votação vão de 9,24% a 46,36%.
- A abstenção fluminense não tem estrutura espacial. O I de Moran interno ao estado não é distinguível de zero, enquanto brancos e nulos se organizam no espaço, mais uma evidência de que as três taxas são fenômenos distintos.
Fontes dos dados
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Repositório de dados eleitorais: detalhe da votação por seção, eleições gerais 2026, primeiro turno. Brasília: TSE, 2026. Disponível em: http://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele. Acesso em: 6 out. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Sistema de divulgação de resultados: eleições gerais 2026, primeiro turno. Ciclo ele2026, eleição 6257. Disponível em: http://resultados.tse.jus.br. Acesso em: 5 out. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo demográfico 2022: população residente por idade. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: http://apisidra.ibge.gov.br. Acesso em: 5 out. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Malha municipal digital do Brasil: 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: http://servicodados.ibge.gov.br. Acesso em: 5 out. 2026.
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