O perfil da abstenção no estado e na cidade do Rio de Janeiro – Versão 4.0
1 Objeto e pergunta
Os relatórios anteriores descreveram onde a abstenção é alta no Rio de Janeiro. Este procura dizer quem se abstém, e quanto do que se observa no território decorre de quem está inscrito em cada lugar.
A pergunta tem uma formulação precisa. A taxa de abstenção de uma zona eleitoral depende de duas coisas: das taxas de abstenção dos grupos que compõem seu eleitorado e da participação de cada grupo nesse eleitorado. Uma zona com muitos eleitores de 80 anos terá abstenção alta mesmo que seus eleitores de 80 anos se comportem como os de qualquer outra zona. Separar os dois componentes é o que esta rodada faz.
2 Fontes e o que elas permitem
Duas bases do Repositório de Dados Eleitorais sustentam a análise. O perfil_comparecimento_abstencao de 2022 traz, para cada zona do Rio, o eleitorado apto e as ausências cruzados por faixa etária, gênero e grau de escolaridade. É a única fonte disponível que mede abstenção por grupo demográfico, e não a estima. O perfil_eleitorado de 2026 traz a composição do cadastro na véspera do pleito atual.
A limitação é de ano. O arquivo de perfil do comparecimento de 2026 ainda não foi publicado, de modo que as taxas por grupo usadas aqui são as de 2022. Para a descrição do perfil, nas seções 3 e 4, isso é explícito e o ano está indicado em cada número. Para a padronização da seção 6, as taxas de 2022 entram reescaladas para reproduzir o total observado em 2026, e o que se compara são desvios relativos entre zonas.
Três campos do cadastro merecem nota. Escolaridade e gênero têm cobertura praticamente completa no Rio, com 0,08% e 0,06% de registros sem informação. Raça e cor, não: 82,95% do eleitorado fluminense consta como não informado, porque a declaração só passou a ser coletada em inscrições e atualizações recentes. O campo descreve quem atualizou o título, e não a composição racial do eleitorado, e por isso não é usado neste relatório.
A análise é de unidades agregadas sempre que cruza composição com território. Associação entre o perfil de uma zona e a abstenção dessa zona não autoriza conclusão sobre indivíduos. A seção 5 mostra, com os próprios dados, o tamanho do erro que essa passagem produziria.
3 Quem se abstém
Tabela 1 – Taxa de abstenção por faixa etária no Rio de Janeiro, 1º turno de 2022
| Faixa etária | Eleitorado apto | % do eleitorado | Abstenção (%) |
|---|---|---|---|
| 16 anos | 44.121 | 0,34 | 21,37 |
| 17 anos | 79.452 | 0,62 | 23,02 |
| 18 anos | 148.407 | 1,16 | 13,21 |
| 19 anos | 169.088 | 1,32 | 17,70 |
| 20 anos | 185.247 | 1,44 | 17,93 |
| 21 a 24 anos | 918.049 | 7,16 | 19,93 |
| 25 a 29 anos | 1.214.789 | 9,47 | 20,14 |
| 30 a 34 anos | 1.157.073 | 9,02 | 19,33 |
| 35 a 39 anos | 1.179.676 | 9,20 | 17,79 |
| 40 a 44 anos | 1.255.130 | 9,78 | 16,19 |
| 45 a 49 anos | 1.105.031 | 8,61 | 14,92 |
| 50 a 54 anos | 1.039.130 | 8,10 | 13,48 |
| 55 a 59 anos | 1.033.785 | 8,06 | 12,60 |
| 60 a 64 anos | 921.647 | 7,19 | 12,70 |
| 65 a 69 anos | 766.988 | 5,98 | 15,51 |
| 70 a 74 anos | 561.240 | 4,38 | 42,57 |
| 75 a 79 anos | 374.380 | 2,92 | 63,88 |
| 80 a 84 anos | 249.767 | 1,95 | 77,70 |
| 85 a 89 anos | 155.976 | 1,22 | 87,73 |
| 90 a 94 anos | 117.288 | 0,91 | 95,82 |
| 95 a 99 anos | 111.056 | 0,87 | 99,33 |
| 100 anos ou mais | 39.850 | 0,31 | 99,52 |
Fonte: elaboração própria a partir do Repositório de Dados Eleitorais do TSE.

Taxa de abstenção por faixa etária no Rio de Janeiro
A idade organiza a abstenção mais do que qualquer outra característica registrada. A curva tem fundo plano e sobe de forma abrupta a partir dos 70 anos, idade em que o voto deixa de ser obrigatório: 42,57% entre 70 e 74 anos, 63,88% entre 75 e 79, 77,70% entre 80 e 84, e acima de 95% a partir dos 95. Entre 55 e 59 anos, a faixa de menor abstenção, a taxa é de 12,60%.
No outro extremo da escala etária, os eleitores de 16 e 17 anos, também de voto facultativo, abstêm-se a 21,37% e 23,02%, pouco acima dos adultos jovens. Quem se inscreve antes dos 18 comparece quase tanto quanto quem é obrigado, o que faz desse grupo um caso distinto do dos idosos, ainda que a lei os trate do mesmo modo.
Tabela 2 – Taxa de abstenção por grau de escolaridade no Rio de Janeiro, 1º turno de 2022
| Grau de escolaridade | Eleitorado apto | % do eleitorado | Abstenção (%) |
|---|---|---|---|
| Analfabeto | 246.572 | 1,92 | 67,76 |
| Lê e escreve | 759.944 | 5,93 | 44,48 |
| Fundamental incompleto | 3.085.807 | 24,08 | 25,58 |
| Fundamental completo | 1.072.827 | 8,37 | 27,61 |
| Médio incompleto | 2.843.016 | 22,19 | 17,81 |
| Médio completo | 3.015.027 | 23,53 | 17,13 |
| Superior incompleto | 636.581 | 4,97 | 16,68 |
| Superior completo | 1.153.425 | 9,00 | 16,45 |
Fonte: elaboração própria a partir do Repositório de Dados Eleitorais do TSE.
A escolaridade produz um gradiente igualmente nítido, embora de natureza em parte legal: analfabetos têm voto facultativo. A taxa cai de 67,76% entre analfabetos e 44,48% entre os que apenas leem e escrevem para algo entre 16% e 18% em todos os graus a partir do ensino médio incompleto. Acima do médio incompleto o gradiente praticamente desaparece: a diferença entre ensino médio completo (17,13%) e superior completo (16,45%) é de menos de um ponto percentual.
Gênero quase não diferencia. As mulheres, 53,92% do eleitorado fluminense, abstiveram-se a 22,10%, contra 23,45% dos homens.
4 Voto facultativo e voto obrigatório
Tabela 3 – Abstenção por obrigatoriedade do voto no Rio de Janeiro, 1º turno de 2022
| Recorte | Facultativo (% dos aptos) | Abstenção do facultativo (%) | Abstenção do obrigatório (%) | Ausências do facultativo (% do total) |
|---|---|---|---|---|
| Estado | 14,55 | 62,25 | 16,02 | 39,82 |
| Capital | 16,61 | 65,06 | 16,06 | 44,66 |
| Demais municípios | 13,23 | 59,99 | 15,99 | 36,39 |
Fonte: elaboração própria a partir do Repositório de Dados Eleitorais do TSE.
O eleitorado de voto facultativo reúne os de 16 e 17 anos, os de 70 anos ou mais e os analfabetos. No estado ele responde por 14,55% dos aptos e por 39,82% de todas as ausências, com taxa de 62,25%. O eleitorado obrigatório, 85,45% do total, abstém-se a 16,02%.
O contraste entre a capital e o restante do estado é o resultado mais consequente desta seção. A capital tinha, em 2022, abstenção total de 24,20%, contra 21,81% nos demais municípios. Entre os eleitores de voto obrigatório, porém, as duas taxas eram praticamente idênticas: 16,06% na capital e 15,99% no interior. Toda a diferença estava no eleitorado facultativo, que na capital é maior (16,61% contra 13,23%) e se abstém mais (65,06% contra 59,99%).
Em 2022, portanto, a abstenção carioca excedia a do interior por composição, e não por comportamento de quem é obrigado a votar. A seção 6 verifica se isso ainda vale em 2026.
5 O mesmo dado em dois níveis de agregação

Escolaridade e abstenção em dois níveis de agregação
A seção 3 mostrou que, entre indivíduos, menos escolaridade significa mais abstenção. No nível da zona eleitoral, com os mesmos dados e o mesmo ano, o sinal se inverte: a correlação entre a participação de eleitores de baixa escolaridade e a taxa de abstenção da zona é de -0,257. Zonas com eleitorado menos escolarizado abstêm-se menos. A participação de eleitores com superior completo correlaciona-se positivamente com a abstenção da zona (0,254), ao contrário do que o dado individual indica.
A inversão não é paradoxo nem erro de medida. As zonas de baixa escolaridade no Rio estão na Baixada Fluminense e no interior, onde a abstenção é baixa por outras razões, e as de alta escolaridade estão na capital, onde é alta. O que o agregado capta é a geografia, não a escolaridade. Quem lesse apenas o nível da zona concluiria que escolaridade protege contra o comparecimento, exatamente o contrário do que ocorre entre pessoas.
O mesmo vale para gênero. A correlação entre a participação de mulheres e a abstenção da zona é de 0,222, positiva, embora as mulheres se abstenham menos que os homens no nível individual. A explicação é a idade: mulheres são maioria crescente nas faixas mais velhas, e zonas envelhecidas têm mais mulheres e mais abstenção.
O registro vale como advertência para a leitura dos mapas dos relatórios anteriores. Eles descrevem corretamente onde a abstenção está, e nada dizem sobre quem se abstém.
6 Quanto a composição explica
A padronização indireta aplica as taxas por grupo de 2022 à composição de cada zona em 2026 e produz a abstenção que seria esperada se os grupos se comportassem como em 2022. A diferença entre o observado e esse esperado é a parte que a composição não explica.

Abstenção observada por abstenção esperada pela composição
Entre as 183 zonas do estado, a correlação entre observado e esperado é de 0,576, o que corresponde a 33,2% da variância. O desvio-padrão observado entre zonas é de 3,06 pontos percentuais, do qual 1,84 pontos são atribuíveis à composição e 2,50 pontos permanecem como resíduo. Composição é o fator isolado mais importante, e responde por cerca de um terço do que separa uma zona de outra.
A composição da capital difere bastante da do interior, e nas duas direções. O eleitorado de 70 anos ou mais é de 17,16% na capital contra 12,52% no restante do estado, o que puxa a abstenção carioca para cima. Em contrapartida, a capital tem menos analfabetos (1,33% contra 2,04%) e muito mais eleitores com superior completo (12,95% contra 7,29%), o que puxa para baixo. O saldo é positivo, mas modesto.
7 A capital depois da composição

Diferença entre abstenção observada e esperada pela composição
A cidade do Rio de Janeiro registrou 26,12% de abstenção em 2026, contra 24,32% esperados por sua composição. O restante do estado registrou 21,56% contra 22,69% esperados. A diferença observada entre capital e interior é de 4,56 pontos percentuais, dos quais 1,63 pontos, ou 36%, decorrem da composição do eleitorado. Os 2,93 pontos restantes não decorrem.
As 49 zonas da capital ficam todas acima do esperado por sua composição, sem exceção. O resíduo vai de 0,07 ponto na zona 23 a 5,11 pontos na zona 161. As zonas de maior resíduo não são as de maior abstenção bruta, e sim aquelas cuja composição preveria taxas baixas: a zona 9, com eleitorado escolarizado e relativamente jovem, tem 23,78% de abstenção observada contra 19,12% esperados.
A comparação com 2022 dá a esse resultado o seu peso. Naquele pleito, os eleitores de voto obrigatório da capital e do interior abstinham-se na mesma proporção, e a diferença entre os dois recortes era inteiramente de composição. Em 2026 isso deixou de valer: a capital está 1,80 pontos acima do que sua composição prevê, e o interior está 1,13 pontos abaixo. A ressalva de que as taxas por grupo são de 2022 permanece, e é justamente por elas serem de 2022 que a comparação faz sentido: o que mudou não foi a composição, foi o comportamento.
8 Principais resultados
- A idade é o eixo principal do perfil da abstenção, e o corte relevante é legal antes de ser etário. A abstenção salta de cerca de 13% na faixa de 55 a 59 anos para 42,57% entre 70 e 74, quando o voto deixa de ser obrigatório, e passa de 95% acima dos 95 anos.
- O eleitorado de voto facultativo é 14,55% dos aptos fluminenses e produz 39,82% de todas as ausências. Entre os eleitores obrigados a votar, a abstenção estadual foi de 16,02% em 2022.
- Escolaridade diferencia pouco acima do ensino médio incompleto. Entre médio completo e superior completo a diferença é inferior a um ponto percentual. O que diferencia é a condição de analfabeto, que também é condição de voto facultativo.
- A relação entre escolaridade e abstenção inverte de sinal entre o nível individual e o da zona, no mesmo ano e com os mesmos dados. Zonas de baixa escolaridade abstêm-se menos (-0,257), embora eleitores de baixa escolaridade se abstenham mais. Leituras do perfil da abstenção a partir de dados agregados por território produzem conclusões invertidas.
- A composição do eleitorado explica cerca de um terço da variação entre as zonas do estado e 36% da diferença entre a capital e o interior.
- As 49 zonas da capital abstêm-se mais do que sua composição prevê, todas elas. Em 2022, a abstenção do eleitorado obrigatório carioca era igual à do interior; em 2026 a capital excede o esperado em 1,80 pontos percentuais.
Fontes dos dados
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Repositório de dados eleitorais: detalhe da votação por seção, eleições gerais 2026, primeiro turno. Brasília: TSE, 2026. Disponível em: http://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele. Acesso em: 6 out. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Repositório de dados eleitorais: perfil do eleitorado 2026. Brasília: TSE, 2026. Disponível em: http://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele. Acesso em: 6 out. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Repositório de dados eleitorais: perfil do comparecimento e da abstenção, eleições gerais 2022. Brasília: TSE, 2025. Disponível em: http://cdn.tse.jus.br/estatistica/sead/odsele. Acesso em: 6 out. 2026.
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