A eleição do cansaço
Por Carolina Almeida de Paula
Faltando uma semana para o primeiro turno, as pesquisas qualitativas feitas de norte a sul convergem sobre o clima da campanha deste ano: pouquíssima vontade de se envolver, pouca conversa entre amigos e familiares, pouco movimento nas ruas. As razões ainda precisam ser analisadas com mais cuidado e mais dados, mas não é exagero dizer que o brasileiro vive uma espécie de ressaca de 2018 e 2022, quando a política dominava a conversa do dia a dia. Nas centenas de grupos qualitativos que conduzi este ano para campanhas eleitorais, o que ouço não é só apatia, que é o diagnóstico mais imediato para uma eleição de baixo engajamento. Não gosto da palavra para descrever o fenômeno, porque ela sugere um desinteresse genérico, e não é disso que se trata. O cenário é mais complexo: mistura decepção com a política e um cansaço evidente, provocado por anos de conflitos que impactam até a vida pessoal dos cidadãos. Isso precisa ser segmentado e explicado por marcadores comportamentais e sociodemográficos, o que farei em outra ocasião. Na presente reflexão, trabalho apenas com os dados empíricos de uma rodada do Monitor do Debate Público sobre o clima e expectativa do eleitorado brasileiro para a eleição do dia 4 de outubro.
O Monitor do Debate Público (MDP) é um painel qualitativo longitudinal baseado no LEMEP/IESP-UERJ, em parceria com o INCT-ReDem. Acompanha um grupo de eleitores ao longo do tempo, o que permite ver como percepções e sentimentos mudam ao longo do ciclo político, e não só registrar um instantâneo. São 50 participantes, distribuídos em seis grupos segundo sua posição politico-ideológica: bolsonaristas convictos (BC), bolsonaristas moderados (BM), indecisos conservadores (IC), indecisos progressistas (IP), lulistas (LL) e lulistas descontentes (LD). No dia 25 de setembro, pedimos que avaliassem o clima da eleição, resumissem o próprio sentimento em uma palavra e dissessem como o tema aparece entre as pessoas com quem convivem.
O único grupo em que um vocabulário de motivação predomina é o dos bolsonaristas convictos. Ali as palavras são “esperança”, “confiança”, “fervoroso”, e as campanhas estão “a todo vapor”. A esperança, porém, tem um alvo definido, “tirar o PT”, e vem junto com um medo também definido: o de um “golpe” ou de fraude nas urnas, alimentado pelo que circula nas redes. O que mais chama atenção nesse grupo é a harmonia do convívio, que não vem de a política ter perdido importância, mas da homogeneidade do ambiente: “aqui em casa sempre estamos em concordância”, “meus vizinhos e parentes 90% são Flávio Bolsonaro”. Um participante nomeia isso sem rodeios ao falar do que se vê “fora dessa bolha”. É a paz de quem conversa só com quem pensa igual.
Basta passar aos bolsonaristas moderados para o quadro mudar. A eleição é “esquisita”, “morna”, “fria”, uma das “mais frias dos últimos tempos”. Uma participante diz que se sente “anestesiada” e não espera que nada mude para “nós que estamos na ponta do barco”. Outra resume tudo em “medo”. Aparecem os escândalos envolvendo o STF e o caso Vorcaro, e um participante descreve o brasileiro assistindo ao “filme trash que é nossa República, no sofá e de mãos atadas”. Mesmo quem mantém alguma expectativa de mudança diz sentir “mais preocupação e incerteza do que esperança”. Ou seja, os moderados estão mais perto dos indecisos do que dos convictos do próprio campo.
Nos dois grupos de indecisos está o núcleo central do cansaço. Entre os indecisos conservadores, as palavras escolhidas formam quase uma escala de desânimo: “desesperança”, “vergonha”, “desalento”, “descrédito”, “desprezo”, “frustração”. A ideia que atravessa o grupo é a repetição: “de novo a mesma coisa”, “vai começar tudo de novo”, e uma participante cita Elis Regina, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. A polarização aparece como um “circo” entre direita e esquerda a que se assiste de fora, com eleitores que “viraram fã-clube de político” e outros que vão votar “só por obrigação”. A crítica às instituições é forte e tem a marca do campo conservador, com “justiça com dois pesos e duas medidas”, juízes envolvidos em escândalos, candidaturas censuradas, candidatos que fogem de debates, mas tal crítica não leva à mobilização, e sim ao afastamento. Entre os indecisos progressistas o tom é parecido, com mais “preocupação”, “decepção”, “incerteza” e “cansaço”, e a inquietação às vezes aponta para o outro lado, como na participante que cita “Trump, Bolsonaros” entre as fontes de preocupação. Outra escolhe “clareza”, mas no sentido amargo de quem teve os olhos abertos por tantas revelações de corrupção dos dois lados. A fala mais marcante da rodada talvez seja deste grupo: “ninguém nem tá lembrando muito que a eleição tá chegando. O pessoal tá se virando pra sobreviver”. Para boa parte desse eleitorado, a eleição disputa atenção com a sobrevivência cotidiana e perde. Vários ainda não sabem em quem votar e dizem que o excesso de acusações atrapalha a decisão em vez de ajudar. A inclinação ideológica até muda o alvo da crítica, mas não o sentimento que ela produz.
É entre os lulistas que a tensão aparece com mais força, e ela tem relação direta com as pesquisas, com a “proximidade que os dois candidatos tomaram” nas últimas semanas. As palavras são “tenso”, “medo”, “desesperança”, “estranheza”, e há queixa de um clima “de farpa”. É também nesse grupo que aparece o depoimento mais eloquente sobre o esgotamento de quem já foi militante. Um participante lembra que em 2018 “houve muita luta” e em 2022 “uma mobilização nacional”, e admite que agora não tem lido nem acompanhado quase nada, porque já não consegue “mergulhar com o afinco” de antes. Conclui que, “aconteça o que acontecer, já perdemos”. Esse é o cansaço do engajado, diferente do cansaço do desiludido, mas os dois terminam no mesmo recuo. Os lulistas descontentes, por sua vez, formam o grupo mais próximo da normalidade: falam de clima “tranquilo”, “pacífico”, “brando”, “dentro da normalidade”, e escolhem palavras como “expectativa” e “acirramento”. A distância em relação ao governo parece funcionar como amortecedor, já que quem não tem tanto em jogo sofre menos com a disputa. Porém, isso tampouco causa entusiasmo. O grupo fala de “desilusão” com uma corrupção que envolveria “todas as instituições”, da dificuldade de decidir o voto, da hipótese do voto nulo e da sensação de uma “calmaria perigosa”.
Entre as diferenças, alguns pontos são comuns aos seis grupos. O primeiro é a comparação espontânea com as eleições anteriores: em quase todos, alguém diz que o clima está menos animado, menos belicoso, com menos brigas do que na última vez, quando “pessoas pararam de falar com a própria família”. O segundo é a corrupção como fonte de decepção generalizada. Ela aparece entre bolsonaristas moderados, indecisos dos dois matizes e lulistas, e quase sempre atinge “os dois lados”, o que tira dos escândalos um efeito mobilizador de impacto. Ânimo e confiança ficam no bolsonarismo convicto, e a tensão ansiosa entre os lulistas, que acompanham as pesquisas. No espaço entre esses dois segmentos, que é onde está a maior parte do eleitorado, predominam cansaço, descrédito e incerteza.
Esses dados não trazem grande novidade para quem leu o relatório 121 do MDP, de fevereiro deste ano, em que esse quadro já estava esboçado. As pesquisas quantitativas divulgadas ao longo do ano registraram a menor movimentação da história recente. A maior surpresa foi a leitura novelesca que se fez delas, atribuindo a oscilações mínimas o efeito de acontecimentos de conjuntura que elas não tinham como captar e fazendo prognósticos que a própria margem de erro muitas vezes não permitia. O outro erro foi olhar para o que gera mais interesse e burburinho, a pequena parcela hiperengajada da dita polarização, que corresponde a uma fração reduzida do eleitorado. A grande massa do eleitorado está justamente na faixa dos cansados e desanimados. Infelizmente, foi a que menos chamou a atenção da imprensa e dos analistas.
Carolina de Paula é doutora em Ciência Política, pesquisadora do LEMEP (IESP-UERJ) e INCT-ReDem.