A próxima eleição começa dentro do Congresso?
Por Luana Calzavara · Pós-doutoranda LEMEP, IESP/UERJ
Faltando poucos dias para a eleição, faço uma aposta: PSD, Republicanos e PSDB devem chegar às urnas mais fortes do que estavam em 2022, e a UNIÃO, mais fraca. Não é uma previsão baseada em pesquisas eleitorais. A aposta vem do que aconteceu dentro da Câmara dos Deputados nos últimos quatro anos — e de uma regularidade que aparece nas sete legislaturas anteriores.
A hipótese é simples: o que acontece dentro da Câmara durante o mandato ecoa na eleição seguinte. Partidos que ganham força tendem a chegar mais fortes; partidos que perdem, mais fracos. Em outubro, teremos um novo teste.
No texto anterior, mostrei que as reformas eleitorais recentes reduziram o número de partidos que disputam efetivamente as eleições, mas não impediram que a Câmara continuasse se reorganizando durante o mandato. Os partidos de tamanho intermediário seguiram ganhando deputados por meio das trocas de legenda, enquanto os maiores perderam cadeiras ou ficaram próximos do saldo zero. A pergunta agora é se esse movimento termina dentro do Congresso — ou se chega também às urnas.
Há razões para suspeitar disso. Ao crescer na Câmara, um partido acumula recursos importantes para a disputa seguinte: mais espaço em comissões e cargos, maior exposição e uma bancada maior para direcionar recursos aos municípios. Além disso, quem troca de partido pode levar consigo uma base eleitoral que o novo partido ainda não tinha. Em uma análise das migrações partidárias entre 1994 e 2022, encontrei que, em 89% dos casos, o deputado migrante tinha sua base em regiões onde o partido de destino não tinha nenhum deputado forte. Nas regiões que receberam um migrante, a chance de o partido crescer em votos foi de cerca de 63%, contra 29% nas que não receberam (Calzavara, 2025).
Um exemplo é o PSB no Rio de Janeiro. Em 1998, o partido elegeu dois deputados federais no estado, ambos do sul fluminense. Em 2001, o então governador Anthony Garotinho se filiou ao PSB e levou consigo um grupo político forte no norte do estado. Em 2002, o partido elegeu seis deputados no Rio, com votos vindos da região onde antes não tinha presença. É exatamente esse o mecanismo que interessa aqui: uma troca dentro do sistema partidário pode alterar também a geografia eleitoral de um partido (Calzavara, 2025).
O PSB de 2002 é apenas um caso. Quando ampliamos a comparação para todos os partidos, a mesma relação aparece com bastante frequência. Entre 1994 e 2022, comparei a bancada de cada partido na eleição que abriu cada legislatura com a bancada ao fim do mandato e com a eleita quatro anos depois, num total de 154 casos. Entre os 35 partidos que ganharam ao menos duas cadeiras durante o mandato, 74% terminaram a eleição seguinte com mais cadeiras do que tinham no início. Entre os 69 que perderam ao menos duas, 77% terminaram com menos.
A cada dez cadeiras ganhas no mandato, o partido elegeu em média nove a mais do que na eleição anterior. A associação aparece nas sete legislaturas e também em 2022, a primeira eleição sem coligações proporcionais, mesmo retirando o PL, que ganhou mais de 60 cadeiras. O sinal não é igual para todos os portes.

FIGURA 1 Saldo de bancada durante a legislatura e variação da bancada na eleição seguinte, por partido, de 1994 a 2022 (154 casos). Fonte: Câmara dos Deputados, TSE e base da tese. Elaboração própria.
Os dados não permitem dizer em qual direção funciona essa relação. Partidos em ascensão podem atrair deputados justamente porque já chegam competitivos à eleição seguinte. Mas a migração também pode reforçar esse crescimento: deputados levam consigo bases eleitorais que o novo partido não tinha. Seja qual for a direção predominante, há uma regularidade importante para outubro: historicamente, perder força dentro da Câmara previu queda eleitoral com mais regularidade do que ganhar força previu alta.
“Historicamente, perder bancada por migração previu queda eleitoral com mais regularidade do que ganhar bancada previu alta.”
É por isso que PSD, Republicanos, PSDB e UNIÃO merecem atenção em outubro. O PSD passou de 42 para 49 deputados durante a legislatura e o Republicanos, de 41 para 47. O PSDB é o caso mais incômodo: saiu de 2022 com 13 deputados, no limite da cláusula de desempenho, e chegou a 17 em abril de 2026, o terceiro maior crescimento proporcional da Câmara, atrás apenas de NOVO e REDE, que partiram de bancadas bem menores. A UNIÃO é o quarto nome desta aposta, e talvez o mais seguro dos quatro. O partido caiu de 58 para 43 deputados durante a legislatura, a maior perda líquida da Câmara. Dado que, historicamente, perder bancada previu queda eleitoral com mais regularidade do que ganhar bancada , a UNIÃO ir mal em outubro é o resultado que a hipótese prevê com mais confiança.
Aplicando a relação histórica, a Tabela 1 traz a projeção para os quatro partidos e registra publicamente a aposta. A faixa esperada é grande: quase dez cadeiras para os médios, seis para o PSDB e catorze para a UNIÃO, e nenhum partido isolado decide a questão. O teste mais informativo é o conjunto. Se os partidos que ganharam deputados durante a legislatura voltarem a ter desempenho melhor do que os que perderam, a regularidade histórica terá sobrevivido ao novo cenário eleitoral. Se essa associação desaparecer, teremos uma evidência importante de que algo mudou. E, se PSD, Republicanos e PSDB terminarem abaixo do que tinham em 2022, ou se a UNIÃO terminar acima, a aposta feita aqui sai particularmente enfraquecida.

TABELA 1 Projeção da bancada eleita em 2026, com base na relação observada de 1994 a 2022. Fonte: Câmara dos Deputados, TSE e base da tese. Elaboração própria.
A aposta está feita antes da abertura das urnas. Depois de 4 de outubro, poderemos voltar a estes números e conferir: crescer ou perder força dentro da Câmara continuou sendo um bom sinal de quem cresceria ou cairia também nas urnas?
NOTA METODOLÓGICA
Os dados de bancada vêm da Câmara dos Deputados, do TSE e de uma base de migrações partidárias construída para minha tese de doutorado (Calzavara, 2025), e cobrem as eleições de 1994 a 2022. O saldo durante a legislatura mistura migração com fusões de partidos, cassações e suplências. As projeções assumem que a relação observada até 2022 continua valendo, o que é justamente o que a eleição de outubro testa. O desempenho dos partidos também depende de fatores alheios à troca de legenda, como a popularidade de lideranças estaduais e o efeito da disputa presidencial.
CALZAVARA, Luana Maria de Matos. Fragmentação de dentro para fora: estratégias políticas e dinâmica do sistema partidário brasileiro. 2025. 139f. Tese (Doutorado em Ciência Política) — Instituto de Estudos Sociais e Políticos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2025.
Luana Calzavara
Pós-doutoranda LEMEP, IESP/UERJ
luacalzavara@iesp.uerj.br