O voto em Flávio Bolsonaro (2026) e em Pablo Marçal (2024) nos 96 distritos da cidade de São Paulo
RELATÓRIO · COMPORTAMENTO ELEITORAL · SÃO PAULO
Um cruzamento dos resultados do 1º turno da eleição presidencial de 2026 com os do 1º turno da eleição municipal de 2024, agregados por distrito censitário e combinados com dados do IBGE sobre renda, cor ou raça, idade e tipo de domicílio.
DESTAQUES
- Os distritos em que Marçal foi forte em 2024 são, em geral, os mesmos em que Flávio Bolsonaro foi forte em 2026 (r = 0,64). A correspondência é real, mas explica menos da metade da variação entre distritos.
- Os dois desempenhos têm gradientes socioeconômicos opostos: o voto em Marçal cai conforme sobe a renda do distrito (r = −0,56); o voto em Flávio sobe (r = +0,23). O mesmo vale para cor ou raça, com os sinais invertidos.
- Isolado o componente especificamente marçalista — a fatia de Marçal dentro do voto de direita de cada distrito —, a correlação com o desempenho de Flávio cai para 0,26.
- O voto em Flávio se correlaciona mais com o total do voto de direita de 2024 (0,76) do que com Marçal isoladamente (0,64). A semelhança dos mapas mede o nível geral de direita do distrito, não herança de eleitorado.
- Onde o modelo mais erra, erra por estrutura social: o resíduo correlaciona −0,84 com o percentual de pessoas pretas e pardas e +0,76 com renda.
A pergunta
A sobreposição dos mapas eleitorais de 2024 e 2026 em São Paulo circulou na imprensa como indício de que Flávio Bolsonaro teria herdado o eleitorado de Pablo Marçal. A hipótese é plausível à primeira vista: são duas candidaturas de direita, e os territórios de maior desempenho de fato coincidem em boa medida. Este relatório testa a afirmação com os microdados do TSE agregados por distrito e cruzados com o Censo.
A conclusão é que a hipótese não se sustenta. O que produz a semelhança entre os mapas é outra coisa, e os dois votos se distinguem justamente na dimensão que mais importa para qualquer leitura sociológica da direita paulistana: a posição socioeconômica.
Como os dados foram construídos
A zona eleitoral não coincide com nenhuma unidade censitária e, por isso, não pode ser cruzada diretamente com o Censo. A solução adotada desce à seção eleitoral e usa as coordenadas que o próprio TSE publica para cada local de votação desde 2022. Cada local foi atribuído a um distrito por ponto-em-polígono sobre a malha de setores censitários CD2022 do IBGE, e os votos foram agregados em seguida. O procedimento dispensa geocodificação externa e interpolação areal, que são as duas maiores fontes de erro nesse tipo de cruzamento.
Foram processados 2.052 locais de votação em 2026 e 2.034 em 2024. A perda por ausência de coordenada válida foi de 0,007% dos votos em 2026 e 0,42% em 2024, e os totais conferem com o resultado oficial do município. Todos os percentuais são calculados sobre votos válidos.
A correspondência existe, mas é rasa
A correlação entre o percentual de Marçal em 2024 e o de Flávio em 2026, nos 96 distritos, é de 0,64 — associação clara, com R² de 0,41. Dois terços da variação do desempenho de Flávio entre distritos não são explicados pelo desempenho de Marçal. A questão interessante está no que sobra.

Cada ponto é um distrito (N = 96). A linha tracejada é o ajuste linear simples. No mapa, o resíduo desse ajuste: amarelo onde Flávio ficou abaixo do que o desempenho de Marçal previa, verde onde ficou acima. Fontes: TSE e IBGE.
Gradientes socioeconômicos opostos
Os dois votos se relacionam de maneira inversa com praticamente todas as variáveis estruturais disponíveis. O voto marçalista era mais forte quanto mais pobre, mais negro e mais jovem o distrito; com Flávio ocorre o contrário.
| Correlação com… | Marçal 2024 | Flávio 2026 |
|---|---|---|
| Renda média do responsável pelo domicílio | −0,56 | +0,23 |
| % de domicílios em apartamento | −0,54 | +0,03 |
| % de pessoas pretas e pardas | +0,28 | −0,47 |
| % de pessoas com 60 anos ou mais | −0,13 | +0,54 |
| Taxa de alfabetização (15 anos ou mais) | −0,14 | +0,46 |
Correlações de Pearson entre distritos. N = 96.

Médias simples dos distritos de cada quintil. O desempenho de Flávio é achatado entre o segundo e o quinto quintil e cai apenas na periferia mais pobre; o de Marçal tem o perfil inverso, com queda acentuada no quintil mais rico.
O que explica a semelhança dos mapas
Se os gradientes são opostos, por que a correlação entre os dois desempenhos é positiva e razoavelmente alta? Porque ambos funcionam, antes de mais nada, como indicadores do nível geral de voto de direita do distrito — e não de nada específico ao marçalismo. Três resultados apontam na mesma direção.
Primeiro, o voto em Flávio correlaciona mais com o total da direita de 2024 — soma de Nunes, Marçal, Datena e Marina Helena — do que com Marçal isoladamente: 0,76 contra 0,64.
Segundo, quando se isola o componente propriamente marçalista, medido pela participação de Marçal dentro do voto de direita de cada distrito, a correlação com o desempenho de Flávio cai para 0,26. Essa mesma variável correlaciona −0,64 com renda: como desvio em relação ao resto da direita, o marçalismo era um fenômeno de periferia.
Terceiro, no modelo que prevê o desempenho de Flávio a partir de Marçal somado às variáveis demográficas (R² = 0,92), o coeficiente da renda torna-se positivo e altamente significativo. Entre dois distritos com o mesmo desempenho de Marçal, Flávio vai melhor no mais rico. A correlação bivariada escondia isso porque os dois efeitos se anulavam.
Onde o ajuste erra, e por quê
Os resíduos não são ruído. Correlacionam −0,84 com o percentual de pessoas pretas e pardas e +0,76 com renda: é a clivagem de cor e de classe aparecendo inteira naquilo que a correlação simples deixou de fora.
| Flávio acima do previsto | p.p. | Flávio abaixo do previsto | p.p. |
|---|---|---|---|
| Moema | +13,3 | Jardim Ângela | −8,5 |
| Itaim Bibi | +11,2 | Capão Redondo | −7,5 |
| Morumbi | +10,7 | Cidade Tiradentes | −7,3 |
| Jardim Paulista | +9,2 | Anhanguera | −6,6 |
| Campo Belo | +9,1 | Grajaú | −6,4 |
| Santo Amaro | +6,8 | Guaianases | −6,0 |
Resíduo do ajuste Flávio ~ Marçal, em pontos percentuais.
Um resultado lateral que merece atenção
A soma dos votos de Nunes, Marçal, Datena e Marina Helena em 2024 fica entre 57% e 63% dos válidos em todos os quintis de renda — praticamente plana. No mesmo território, Lula vence com 52% no quintil mais pobre em 2026. Isso diz menos sobre a direita do que sobre a construção do indicador: Nunes é candidato de máquina do MDB e não é equivalente ideológico dos demais. Clivagem municipal e clivagem nacional não se sobrepõem em São Paulo, e tratar a eleição de 2024 como prévia da de 2026 erra a premissa.
Nota técnica
Fontes. TSE: votacao_secao_2026_BR (presidente, 1º turno, 04/10/2026), votacao_secao_2024_SP (prefeito, 1º turno) e eleitorado_local_votacao de 2024 e 2026. IBGE: malha de setores censitários CD2022 e agregados do Censo 2022 por distrito (básico, cor ou raça, demografia, alfabetização, características do domicílio); Censo 2010, agregados por setor, para renda.
Renda. O Censo 2022 não publicou rendimento nos agregados por setor ou distrito — a variável só foi coletada na amostra. Usa-se a renda média mensal do responsável pelo domicílio em 2010, ponderada pelos domicílios do setor, como medida da posição relativa do distrito, não do nível de renda atual. Os resultados principais se mantêm quando se substitui renda por percentual de apartamentos e por cor ou raça, ambas de 2022.
Autocorrelação espacial. O I de Moran dos resíduos do ajuste é +0,49 (seis vizinhos mais próximos). Os erros-padrão de mínimos quadrados estão subestimados e os valores-p devem ser lidos como indicativos. Para inferência formal, cabe modelo espacial ou erros-padrão com correção espacial.
Reprodutibilidade. O pipeline completo em R, do download dos microdados ao modelo, e a base distrital final estão disponíveis mediante solicitação aos autores.
EXPEDIENTE
De Olho Nas Eleições (DONE) é um portal de análise político-eleitoral que acompanha o ciclo eleitoral de 2026. Seu propósito é traduzir a complexidade do processo eleitoral em textos que qualquer pessoa consiga ler e entender, sem abrir mão do rigor acadêmico. O projeto dá continuidade à iniciativa IESP nas Eleições, que em 2018 reuniu 65 autores e mais de 50 textos, publicados depois no livro Eleições 2018 e a Crise da Democracia Brasileira. As análises se organizam em seis frentes temáticas: Opinião Pública, Mídia e Redes Sociais, Instituições, Economia, Política Externa e Eleições.
Coordenação
João Feres Júnior e Carolina de Paula
Equipe
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