O lugar das mulheres nas candidaturas aos governos estaduais e ao Senado
Entre 2018 e 2026, o espaço feminino cresceu nas vices e nas suplências, posições que nenhuma cota alcança
Em quais posições os partidos abrem espaço para as mulheres? As eleições gerais de 2026 permitem uma resposta razoavelmente precisa. A participação feminina nas candidaturas a vice-governadora cresceu desde 2018 e avançou na primeira suplência do Senado neste ano, após dois pleitos praticamente estáveis. A segunda suplência seguiu outro caminho, com alta em 2022 e recuo agora. Em todas essas posições, o espaço aberto às mulheres permanece maior do que o da titularidade.
Para examinar essa distribuição, comparamos as candidaturas apresentadas nas eleições gerais de 2018, 2022 e 2026, nos estados e no Distrito Federal, a partir dos arquivos do Tribunal Superior Eleitoral. A análise considera o primeiro turno e conta cada candidatura apenas uma vez. Inclui pedidos posteriormente indeferidos ou substituídos, pois o interesse é observar as candidaturas apresentadas, não apenas a composição final das chapas. Para 2026, o retrato é de 10 de setembro. Os registros de 2018 e 2022 correspondem a processos encerrados, ao passo que o de 2026 capta um momento em que as substituições ainda ocorrem. Como a substituição é uma das vias de entrada e de saída de mulheres nas chapas, a comparação com o ano corrente exige essa reserva.
Nos governos, a diferença entre titulares e vices é expressiva: as mulheres representavam 36,0% das candidaturas a vice em 2018, passaram a 38,8% em 2022 e chegaram a 42,2% em 2026. Entre as candidaturas titulares, os percentuais foram de 14,7%, 17,0% e 17,5%, respectivamente. Em oito anos, a distância entre essas posições aumentou de 21,3 para 24,7 pontos percentuais. O espaço feminino cresceu mais nas candidaturas à vice-presidência.
Há uma distinção importante entre a participação percentual e o número de mulheres. Em 2022, foram apresentadas 94 candidaturas femininas a vice, totalizando 242 candidaturas. Em 2026, são 87 entre 206. A proporção aumentou mesmo com a redução do número de mulheres, porque o conjunto de candidaturas a vice diminuiu e a queda foi maior entre os homens. A mesma cautela se aplica à leitura da titularidade, já que o número de chapas encolheu entre os dois pleitos e pequenas variações no percentual podem decorrer desse movimento no denominador.
Figura 1 – Percentual de mulheres entre as candidaturas apresentadas aos governos estaduais

Fonte: TSE, elaboração própria. Eleições gerais, primeiro turno. Inclui pedidos indeferidos e candidaturas substituídas.
*Retrato de 10/09/2026. sujeito a alterações. Gênero não divulgado mantido no denominador.
No Senado, a primeira suplência reúne 29,9% das candidaturas femininas em 2026, ante 23,5% em 2018 e 23,4% em 2022. São 101 mulheres entre as 338 candidaturas neste ano. O aumento em relação a 2022 é de 6,5 pontos percentuais, o maior avanço recente entre as posições examinadas. É também o avanço de consequência mais direta, porque cabe ao primeiro suplente exercer o mandato quando o titular se licencia para assumir um ministério ou outro cargo.
A segunda suplência apresenta um resultado diferente. A participação feminina passou de 29,3% em 2018 para 34,4% em 2022, mas caiu para 31,1% em 2026. Ainda está acima do patamar de oito anos atrás, embora já não se possa falar em crescimento contínuo. Neste ano, os percentuais da primeira e da segunda suplência estão próximos, separados por 1,2 ponto percentual.
Entre as candidaturas titulares ao Senado, as mulheres representam 21,9% em 2026, abaixo dos 23,9% de 2022 e acima dos 17,5% de 2018. Em todos os anos, a segunda suplência apresenta participação feminina superior à da titular. A primeira suplência acompanha esse padrão em 2018 e em 2026; em 2022, os dois percentuais praticamente se igualaram. Reunir as duas suplências em uma única categoria escondeu trajetórias distintas.
Figura 2 – Percentual de mulheres entre as candidaturas apresentadas ao Senado

Fonte: TSE, elaboração própria. Eleições gerais, primeiro turno. Inclui pedidos indeferidos e candidaturas substituídas.
*Retrato de 10/09/2026. sujeito a alterações. Gênero não divulgado mantido no denominador.
A comparação também precisa considerar o ciclo de renovação do Senado. Em 2018 e 2026, são duas vagas por unidade da Federação. Em 2022, havia uma. Por isso, os percentuais são mais informativos do que a simples contagem de candidaturas, embora não eliminem as diferenças políticas entre os pleitos. O contraste entre 2018 e 2026 é especialmente útil por envolver eleições com o mesmo número de vagas.
O resultado mais consistente está na distância entre mulheres e homens nas posições titulares. Em 2026, as candidaturas femininas ainda estão longe de representar metade das indicações ao governo ou ao Senado. Nas candidaturas a vice e nas suplências, a distribuição é menos desigual. Esse quadro permite discutir como as oportunidades de entrada se distribuem entre as chapas, sem presumir que a presença em uma posição de vice ou suplência seja irrelevante. Essas posições podem abrir caminho para o exercício do cargo.
Esse desenho tem uma implicação que costuma passar despercebida: a reserva de 30% para candidaturas femininas incide sobre as eleições proporcionais. Governo, Senado, vice e suplências são cargos majoritários e estão fora do alcance dessa regra, assim como da vinculação de recursos que dela decorre. O crescimento aqui descrito ocorre em posições nas quais nenhuma obrigação legal opera e se concentra nos lugares subordinados da chapa. A distribuição observada resulta de uma escolha partidária, não de imposição normativa.
Os números apresentados não permitem afirmar que o financiamento público tenha influenciado essas escolhas, nem sustentam a conclusão contrária. Desde 2018, a reserva de pelo menos 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha para candidaturas femininas integra as regras eleitorais, e todos os pleitos analisados já ocorrem sob essa política. Avaliar um eventual efeito indireto sobre a composição das chapas majoritárias exigiria examinar os repasses e as decisões partidárias de indicação.
O retrato disponível é o de um crescimento desigual da participação feminina. As candidaturas a vice mantêm a trajetória de aumento percentual e, no Senado, o avanço recente se concentra na primeira suplência. Acompanhar a representação das mulheres nesta eleição significa observar se a ampliação desses espaços se traduz em oportunidades de disputar a titularidade. Em 2026, a distância entre uma coisa e outra continua considerável.
Fontes: Portal de Dados Abertos do TSE. Consulta de candidatos, arquivos BRASIL de 2018, 2022 e 2026. Recorte: 4.227 candidaturas para os cinco cargos examinados. Os 27 registros de gênero não divulgáveis, equivalentes a 0,6% do recorte, foram mantidos no denominador. Bases geradas em 13/11/2024 (2018) e 10/09/2026 (2022 e 2026) e extraídas em 10/09/2026. A contagem inclui as candidaturas substituídas e suas respectivas substitutas, cada qual como um pedido distinto. Não é uma contagem de posições ocupadas simultaneamente.
Marcela Machado
Doutora em Ciência Política (UnB), professora do IDP e pesquisadora do Observatório do Congresso (UnB)
Eduardo Barbabela
Doutor em Ciência Política (UERJ), pesquisador do ISCSP/ULisboa e do DONEDoutor em Ciência Política (UERJ), pesquisador do ISCSP/ULisboa e do DONE