“Resgatar a Liberdade”: o que concretamente Bolsonaro entregou?
Em 2018, Jair Bolsonaro prometeu mais liberdade para o seu eleitorado, porém as evidências contam uma história diferente.
Em 2018, Jair Bolsonaro apresentou uma promessa bastante clara aos eleitores. No seu plano de governo estava escrito que o Brasil precisava de “um governo que defenda e resgate o bem mais precioso de qualquer cidadão: a Liberdade”. Não se tratava, portanto, apenas de uma palavra utilizada nos discursos de campanha. A liberdade aparecia como parte daquilo que Bolsonaro dizia que seu governo pretendia entregar aos brasileiros. Quatro anos depois, cinco dos seis indicadores de liberdade examinados neste texto estavam abaixo dos níveis registrados em 2018. A liberdade de associação foi a única exceção, permanecendo praticamente no mesmo patamar.
Mas o que significa dizer que um país tem mais ou menos liberdade? Essa pergunta é bastante complexa. Uma pessoa pode ter liberdade para expressar suas opiniões, mas encontrar dificuldades para participar de uma organização política. Pode ter liberdade religiosa, mas viver em um ambiente em que a imprensa sofre restrições. Pode ainda exercer seus direitos políticos e, ao mesmo tempo, estar pouco protegida contra a violência praticada pelo próprio Estado. Em outras palavras, quando uma campanha promete liberdade, é necessário perguntar de qual liberdade ela está falando.
Para observar essa questão, utilizei dados do Varieties of Democracy, mais conhecido como V-Dem. Trata-se de um projeto internacional que acompanha diferentes aspectos da democracia em diversos países. Ao invés de resumir uma democracia a uma única nota, o V-Dem trabalha com centenas de indicadores e índices que permitem observar desde eleições e participação política até liberdade de expressão, direitos individuais e limites ao poder dos governos. A versão utilizada neste texto é a 16, publicada em março de 2026.
Para o Brasil, selecionei seis medidas relacionadas à ideia de liberdade. Algumas delas são bastante próximas daquilo que encontramos no cotidiano. A liberdade de expressão diz respeito, entre outras coisas, à possibilidade de a imprensa trabalhar, de as pessoas discutirem política e de existir expressão acadêmica e cultural. A liberdade de associação observa se partidos e organizações da sociedade civil podem se organizar e atuar. As liberdades privadas envolvem direitos como circulação e religião. As liberdades políticas dizem respeito ao exercício da atividade política sem repressão. Já a integridade física considera a proteção das pessoas contra práticas como tortura e mortes políticas praticadas pelo Estado. Por fim, o índice de liberdades civis reúne diferentes aspectos dessas garantias.
O que aconteceu com essas liberdades?

O primeiro gráfico chama atenção para um aspecto importante. A deterioração não começou com Bolsonaro. Alguns indicadores já apresentavam queda antes de 2019. Entre 2015 e 2018, por exemplo, a liberdade de expressão passou de 0,921 para 0,792. As liberdades políticas caíram de 0,946 para 0,857 e as liberdades civis de 0,860 para 0,785. A integridade física também apresentou redução no período.
Esse resultado muda um pouco a forma de olhar para o problema. Seria incorreto afirmar que Bolsonaro inaugurou sozinho uma trajetória de perda de liberdades no Brasil. Parte dela já estava acontecendo antes da sua posse. Porém, reconhecer isso traz outra questão. Se o governo que assumiu em 2019 prometia justamente “resgatar” a liberdade, seria razoável esperar que essa trajetória fosse interrompida ou revertida. Os dados não mostram isso.
Entre 2018 e 2022, cinco das seis medidas terminaram abaixo do ponto de partida. A queda mais acentuada ocorreu na integridade física, que passou de 0,646 para 0,440. As liberdades civis passaram de 0,785 para 0,670 e as liberdades privadas de 0,868 para 0,772. A liberdade de expressão também diminuiu, assim como as liberdades políticas. A exceção foi a liberdade de associação. Em 2018, seu valor era de 0,889. Em 2022, 0,891. Praticamente não houve mudança.

Quando esses valores são transformados para uma escala de 0 a 100, a diferença aparece com mais clareza. A integridade física perdeu 20,6 pontos entre 2018 e 2022. As liberdades civis recuaram 11,5 pontos, as privadas 9,6, a liberdade de expressão 8,8 e as liberdades políticas 5,1. A liberdade de associação, novamente, permaneceu praticamente no mesmo lugar.
Porém, há outro movimento importante nos dados. Depois de 2022, cinco desses mesmos indicadores mudam de direção. Entre 2022 e 2025, a integridade física aumentou 37 pontos. A liberdade de expressão cresceu 20,6 pontos e as liberdades civis 20,1. As liberdades políticas e privadas também avançaram. A liberdade de associação foi novamente a exceção, com uma pequena redução.
Isso significa que Lula foi o responsável por recuperar sozinho essas liberdades? Não. Da mesma forma que seria um exagero atribuir todas as quedas anteriores exclusivamente a Bolsonaro. O presidente não governa sozinho, e mudanças dessa natureza envolvem instituições, decisões judiciais, governos subnacionais, conflitos políticos e diferentes atores sociais. O que os dados permitem observar é mais simples: a deterioração de várias medidas vinha de antes, continuou durante o governo Bolsonaro e, a partir de 2023, cinco delas passaram a apresentar uma trajetória diferente.
Por que isso interessa em 2026? Porque a liberdade voltou à campanha eleitoral. O plano de governo de Flávio Bolsonaro afirma que sua forma de governar permanece fiel ao “respeito à liberdade” e inclui explicitamente a liberdade de expressão e a liberdade religiosa entre seus valores. Em outro trecho, afirma que governar é devolver ao cidadão “a segurança, a liberdade e as oportunidades para construir o próprio destino”. A palavra, portanto, não desapareceu do vocabulário político do bolsonarismo. Oito anos depois, ela continua ocupando um lugar importante.
Porém, agora existe algo que não existia em 2018: uma experiência de governo para ser observada. Isso muda a pergunta que pode ser feita durante a campanha. Não basta saber quem promete defender a liberdade. É possível perguntar qual liberdade está sendo prometida, como ela será protegida e o que aconteceu com essas mesmas liberdades quando esse projeto político ocupou a Presidência da República.
Os dados do V-Dem também têm limites. Muitos de seus indicadores são construídos a partir da avaliação de especialistas e depois tratados por modelos estatísticos, portanto não são medidas diretas como uma contagem de votos ou uma taxa de desemprego. Além disso, observar que uma medida aumentou ou diminuiu durante determinado governo não significa demonstrar que o presidente tenha sido o único responsável pela mudança.
Ainda assim, há um resultado difícil de ignorar. Bolsonaro chegou à Presidência prometendo “resgatar” a liberdade. A deterioração de algumas dessas liberdades já vinha de antes, mas, quatro anos depois, cinco dos seis indicadores examinados estavam abaixo dos níveis registrados em 2018. A promessa pode ter permanecido no discurso. Os indicadores seguiram outro caminho.
Francisco Robert Bandeira Gomes da Silva (Universidade Federal do Piauí, Sociometria – Núcleo de Pesquisa e Extensão em Métodos Quantitativos em Ciências Sociais)