GATEKEEPING NO DIGITAL E A DISPUTA PRESIDENCIAL: FLÁVIO BOLSONARO TEM VANTAGEM SOBRE LULA NO INSTAGRAM?

Por Maria Luiza Paschoal (LEMEP/IESP-UERJ)

Esta análise mostra que, ao longo de 2026, uma publicação de Flávio Bolsonaro foi mais vista do que uma publicação comparável de Lula. A vantagem só se distingue do acaso a partir de julho, dobra em agosto e setembro e atinge seu pico na semana do primeiro turno. Nesta contribuição exploratória, faço também uma breve discussão sobre uma proposta de ampliação conceitual da ideia de gatekeeper no ambiente digital e examino as diferenças de visibilidade no Instagram entre os principais candidatos à Presidência da República no Brasil.

A análise nos coloca diante de uma posição de expectativa normativa de maior transparência por parte de corporações como a Meta. Embora hoje desempenhem um papel central na esfera pública, a estrutura fechada e obscura dessas corporações estrangeiras impede que tenhamos, tanto como sociedade civil quanto como comunidade científica, respostas sobre como as informações que circulam na esfera pública são filtradas, distribuídas e manipuladas.

Em um sistema comunicacional de massa o papel do gatekeeper1 é exercido por editores, programadores e jornalistas, atores identificáveis, sujeitos à pressão pública e a regras conhecidas, hoje é convertida a processos pelos quais não há definição clara de responsabilidade. A seleção e filtragem de informação é dispersa em uma cadeia de agentes (desenvolvedores, engenheiros, moderadores, gestores de produto), ao mesmo tempo, concentram-se em um número reduzido de executivos das big techs, que controlam as redes sociais e por consequência dinâmicas centrais da esfera pública. Assim, o controle do fluxo de informação se dilui e a culpa acaba recaindo sobre estruturas sem corpo. 

É através de uma matriz técnica-algorítmica, em última instância, que determina o que cada cidadão/usuário vê, em que ordem e com que frequência. Mas é importante reiterar que algoritmos são artefatos criados por indivíduos no interior de corporações, que, por meio deles, decidem quais informações chegarão a quais públicos.

Recentemente, pressionada a explicar por que contas no Instagram tiveram publicações ou alcance restritos ao postar conteúdos sobre o presidente Lula, a Meta atribuiu, em nota, a queda de engajamento a “incidentes técnicos recentes”. A resposta é evasiva: a culpa recai sobre uma falha técnica, e ninguém é responsabilizado2.

Em análise dos dados e metadados das postagens disponibilizadas pela Biblioteca de Conteúdo da Meta é possível descrever a visibilidade registrada pela plataforma. É pouco diante de tudo o que a plataforma sabe sobre cada publicação, mas é o suficiente para analisar quanto cada candidato é visto e como essa visibilidade varia ao longo do tempo, considerando as características específicas das publicações.

O que os dados da Biblioteca de Conteúdo da Meta deixam ver

Uma publicação de Flávio Bolsonaro recebe 44% mais visualizações do que uma publicação parecida de Lula feita na mesma semana. A comparação leva em conta o formato, a duração do vídeo, o tamanho da legenda, o dia e o horário da postagem e quantas vezes o perfil publicou naquele dia. Diante de dois posts semelhantes, publicados no mesmo momento, o de Flávio tende a ser mais visto.

A análise usa 1.907 posts publicados no Instagram entre 1º de janeiro e 12 de outubro de 2026: 977 de @lulaoficial e 930 de @flaviobolsonaro, registrados pela Biblioteca de Conteúdo da Meta. O histórico de seguidores vem do HubPolítico. Cinco semanas, de 26 de janeiro a 1º de março, ficam de fora: nelas, as visualizações dos dois perfis despencam ao mesmo tempo, chegando a 48 vezes abaixo do normal, o que indica falha no registro dos dados, e não queda de desempenho (Gráfico 1). Restam 1.710 publicações.

Gráfico 1 – Visualizações da publicação mediana, por semana; semanas em que ambos os perfis publicaram ao menos três vezes. Semanas de 26/01 a 01/03 excluídas: contagens de views uma ordem de grandeza abaixo do restante da série nos dois perfis, o que sugere inconsistência no registro das métricas pela plataforma. Fonte: Meta Content Library (posts de @lulaoficial e @flaviobolsonaro, 1/1–12/10/2026).

A diferença entre os perfis depende do que se compara (Gráfico 2). Olhando todos os posts sem distinção, Flávio tem 24% mais visualizações. O que muda a comparação é o momento. Quando só posts da mesma semana são comparados entre si, a diferença sobe para 59% e deixa de ser compatível com o acaso. Isso acontece porque as visualizações variam muito ao longo do ano, e a vantagem de Flávio se concentra no segundo semestre. O último ajuste, pelo número de posts que o perfil fez no mesmo dia, traz a diferença para 44%. Lula publica muito mais por dia a partir de agosto (10 posts por dia em setembro, contra 3 de Flávio), e quanto mais um perfil publica num dia, menos cada post é visto. Parte da vantagem de Flávio vem, portanto, de publicar menos. A maior parte, porém, permanece.

Gráfico 2. Vantagem estimada de Flávio sobre um post equivalente de Lula à medida que a comparação fica mais rigorosa, em visualizações (preto) e em visualizações por mil seguidores (laranja). As barras indicam a margem de incerteza (intervalo de 95%). Fontes: Meta Content Library e HubPolítico.

Mês a mês, a vantagem de Flávio só aparece a partir de julho (Gráfico 3). De janeiro a junho, as diferenças oscilam entre −13% e +18% e não se distinguem do acaso. Em julho, a diferença chega a 34%; em agosto, a 100%; em setembro, a 116%. Em setembro, um post de Flávio recebeu mais do que o dobro das visualizações de um post semelhante de Lula.

A partir de agosto, Lula publica muito mais: em setembro, foram 310 posts contra 90 de Flávio, e suas publicações somaram 667 milhões de visualizações, contra 446 milhões. Por post, no entanto, Flávio está à frente: a publicação típica dele teve 3,1 milhões de visualizações em setembro, contra 1,5 milhão de Lula.

Gráfico 3. Vantagem estimada de Flávio sobre um post equivalente de Lula, mês a mês, em visualizações (preto) e em visualizações por mil seguidores (laranja). As barras indicam a margem de incerteza (intervalo de 95%). Fontes: Meta Content Library e HubPolítico.

Lula tem a maior base de seguidores, mas a distância encolhe. Entre fevereiro e 21 de outubro, Flávio foi de 8,6 milhões para 15,1 milhões de seguidores; Lula, de 14,4 milhões para 18,3 milhões. O salto se concentra em torno do primeiro turno: entre 27 de setembro e 18 de outubro, Flávio ganhou 2,6 milhões de seguidores e Lula, 2,3 milhões.

Como a base de Flávio é menor, cada visualização pesa mais. Medida em visualizações por mil seguidores, a vantagem dele dobra: um post de Flávio alcança 100% mais do que um post equivalente de Lula. Nessa medida, a diferença aparece em quase todos os meses, inclusive no primeiro semestre, e chega a 167% em agosto e 183% em setembro.

O que os dados não mostram?

A análise registra uma vantagem de visibilidade de Flávio que persiste mesmo após o controle pelas características observáveis das publicações. Os dados disponibilizados pela Meta, porém, não permitem identificar os mecanismos que a produzem. Três explicações, complementares e não testadas aqui, podem orientar investigações futuras.

A primeira é estratégica: uma infraestrutura de distribuição que não passa pelas contas oficiais, feita de perfis automatizados, contas sem identificação e páginas de fofoca, humor e memes que republicam cortes e levam o conteúdo a públicos que o candidato não alcançaria sozinho. Nenhuma das bibliotecas da Meta a registra; ela opera abaixo da prestação de contas e, quando funciona, passa por interesse espontâneo. 

A segunda recai sobre a plataforma. O filtro não é neutro por construção, e quem o controla não é neutro por posição: a direção da Meta aproximou-se publicamente do governo de Donald Trump, aliado declarado do bolsonarismo, e tem interesses regulatórios no Brasil que dependem de quem governa. Não é preciso afirmar que o algoritmo foi ajustado para favorecer alguém; basta constatar que nada do que a empresa disponibiliza permitiria saber se foi. Essa segunda exigiria que a Meta fosse transparente em como seus algoritmos de recomendação funcionam.

A terceira é uma limitação da presente análise. A Biblioteca de Conteúdo da Meta registra apenas os metadados das publicações: o conteúdo dos vídeos, tom das mensagens, artifícios visuais, as imagens veiculadas e interações como salvamentos, republicações e compartilhamentos ficam fora do que é possível observar aqui.

As duas primeiras levam a um mesmo diagnóstico, se a vantagem vem de uma infraestrutura oculta, a plataforma não a detecta ou não a expõe; se vem da própria plataforma, não é possível com segurança verificar. Nos dois casos, é uma assimetria de visibilidade que não é explicada.

Nesse sentido, é importante devolver à figura do gatekeeper uma dimensão concreta, identificando os atores que desenvolvem, controlam e operam as estruturas algorítmicas, bem como os mecanismos pelos quais podem ser responsabilizados por suas decisões e pelos efeitos que elas produzem.

Referências

WHITE, David Manning. The “Gate Keeper”: A Case Study in the Selection of News. Journalism Quarterly, [S.l.], v. 27, n. 4, p. 383–390, set. 1950. Disponível em: https://doi.org/10.1177/107769905002700403.

  1. O gatekeeper, ou guardião dos portões em tradução livre, nomeia os profissionais que têm o papel de decidir o que é visto ou não na esfera pública (WHITE, 1950). ↩︎
  2. Em 16 de outubro de 2026, O Globo noticiou que a inteligência artificial da Meta produzia materiais de campanha favoráveis a Flávio Bolsonaro, enquanto recusava solicitações semelhantes relativas a Lula. A empresa atribuiu o episódio a uma falha nos mecanismos de proteção, afirmou tê-la corrigido e negou interferência eleitoral. Segundo sua explicação, pedidos que combinavam apenas o primeiro nome e o número eleitoral podiam escapar aos bloqueios, possibilidade que também se aplicaria a Lula quando identificado como “Luiz”. Cf. O Globo, 16 out. 2026.
    ↩︎

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