Boletim nº 1 — Da aliança ao palanque: a disputa presidencial nas campanhas estaduais
Primeiro boletim — período analisado: 17 a 31 de agosto de 2026
Lula e Ronaldo Caiado chegam a agosto de 2026 com o mesmo alcance formal nas disputas estaduais: cada um está ligado, por meio de seu partido, à coligação de 19 candidatos a governador. Nas redes sociais, porém, essa equivalência desaparece. Entre os 19 aliados de Lula, 16 o mencionam. Entre os 19 de Caiado, nenhum fala sobre ele.
O contraste revela uma diferença fundamental entre ter uma aliança registrada no TSE e contar com um palanque efetivamente acionado durante a campanha. A presença do partido de um presidenciável em uma coligação estadual indica um vínculo formal, mas não mostra se esse vínculo ganha visibilidade, é mobilizado para pedir votos ou permanece ausente da comunicação dos candidatos.
Este boletim investiga justamente essa distância. Analisamos como os candidatos a governador incorporam a disputa presidencial às suas publicações nas redes sociais: quanto mencionam os presidenciáveis, em que sentido essas referências aparecem e em que medida as alianças formais se transformam em manifestações de apoio durante a campanha.
Este primeiro boletim acompanha apenas uma direção dessa relação: dos candidatos a governador para os presidenciáveis. Em uma próxima etapa, faremos o caminho inverso, observando como os presidenciáveis acionam as candidaturas estaduais. As duas perspectivas, quando colocadas lado a lado, permitirão avançar sobre uma questão mais ampla: quando uma aliança eleitoral se transforma, de fato, em um palanque de campanha?
Principais achados
- Aliança formal nem sempre vira palanque nas redes: entre presidenciáveis com o mesmo número de alianças formais, uns convertem quase toda ela em menção, outros nenhuma — o caso mais extremo opõe Lula e Ronaldo Caiado, ambos com 19 alianças estaduais.
- A presença da disputa presidencial nas campanhas estaduais é fortemente desigual. Embora presidenciáveis apareçam em 7,4% do conjunto das publicações analisadas, 33 dos 69 candidatos não fazem nenhuma menção, enquanto Felipe Camarão (MA) e Jerônimo Rodrigues (BA) concentram, sozinhos, metade de todas as menções registradas.
- Essa presença é também territorialmente desigual: a maior parte dos estados registra menos de 10% de publicações com menções presidenciais, enquanto Maranhão (41,6%) e Bahia (38,2%) se destacam. Entre as candidaturas que mais acionam a disputa nacional, as menções tendem a se concentrar em um único presidenciável.
- O apoio é a principal forma de nacionalização: 88% das menções expressam apoio ou alinhamento. A rejeição é bem menos frequente, mas mostra que a disputa presidencial também pode entrar nas campanhas estaduais pelo antagonismo.
- Posts que mencionam presidenciáveis apresentam maior engajamento relativo: dentro das mesmas candidaturas, essas publicações têm desempenho mediano superior aos demais posts. A diferença é ainda maior entre as menções de rejeição, embora esse resultado se baseie em um número menor de candidaturas.
Volume e distribuição da presença da disputa presidencial
Entre 17 e 31 de agosto de 2026, os candidatos a governador publicaram 5.374 conteúdos nas redes sociais. Em 400 deles — 7,4% do total — aparece ao menos um presidenciável. Como uma mesma publicação pode mencionar mais de um nome, esses 400 posts correspondem a 445 menções, cujo sentido político será analisado mais adiante.
Essa proporção esconde dois mundos. Quase metade dos candidatos (33 de 69) não menciona nenhum presidenciável ao longo de duas semanas, enquanto Felipe Camarão (MA) e Jerônimo Rodrigues (BA) respondem sozinhos por metade de todas as menções registradas.
As diferenças também aparecem no território. Maranhão e Bahia são os estados em que a disputa presidencial ocupa maior espaço na comunicação das campanhas para governador: as menções aparecem, respectivamente, em 41,6% e 38,2% das publicações. Na maior parte dos estados, essa proporção não chega a 10%.
Há ainda uma forte concentração em torno de um único nome. Entre os 15 candidatos que mais incorporam a disputa presidencial às suas publicações, 13 mencionam apenas um presidenciável — quase sempre aquele ligado ao próprio campo partidário. Ciro Gomes é a exceção: menciona todos os presidenciáveis, sem manifestar apoio explícito a nenhum deles.
Sentido da presença: apoio predomina, mas a disputa nacional também aparece pela rejeição
Quando a disputa presidencial aparece nas campanhas estaduais, ela surge principalmente pela aproximação com um presidenciável. Das 445 menções identificadas, 391 (87,9%) são de apoio ou alinhamento, enquanto 32 (7,2%) expressam rejeição ou oposição e 22 (4,9%) são neutras ou ambíguas.
Parte dessa concentração se explica pelos candidatos que mais acionam a disputa presidencial. Felipe Camarão e Jerônimo Rodrigues, responsáveis por um volume expressivo das menções, são do PT e mencionam exclusivamente Lula, sempre em sentido de apoio. A rejeição, por sua vez, está concentrada em poucas candidaturas e aparece como uma forma de demarcar posição diante de presidenciáveis adversários.
A diferença é importante para entender o que estamos chamando de nacionalização. Tanto o apoio quanto a rejeição trazem a disputa presidencial para dentro da campanha estadual, mas fazem isso de maneiras politicamente distintas. No primeiro caso, o presidenciável aparece como aliado e a menção pode ser um indício de ativação do palanque; no segundo, a disputa nacional é mobilizada pelo antagonismo.
Para classificar essas menções, consideramos primeiro o conteúdo da própria publicação — elogios, agradecimentos, pedidos de voto, ataques ou contrastes — e, em seguida, o contexto da postagem. Partido e coligação foram utilizados como informações auxiliares nos casos em que ajudavam a esclarecer o sentido da menção.
Posts que citam presidenciáveis circulam mais
A presença da disputa presidencial também está associada ao desempenho das publicações. Para fazer essa comparação, olhamos cada candidatura separadamente: comparamos o desempenho dos posts que mencionam presidenciáveis com o dos demais posts publicados pelo mesmo candidato. Assim, evitamos comparar diretamente candidaturas com públicos de tamanhos muito diferentes.
Entre as candidaturas com pelo menos dois posts em cada categoria analisada, as publicações que acionam presidenciáveis apresentam desempenho mediano superior ao restante da comunicação do próprio candidato:
| Sentido da menção | Views | Reações | Compartilhamentos |
|---|---|---|---|
| Apoio | +37% | +41% | +94% |
| Rejeição | +71% | +88% | +98% |
O padrão aparece tanto nas menções de apoio quanto nas de rejeição. Posts de apoio têm, na mediana, 37% mais visualizações, 41% mais reações e 94% mais compartilhamentos que os demais posts das mesmas candidaturas. Entre as publicações de rejeição, as diferenças são ainda maiores: 71% mais visualizações, 88% mais reações e 98% mais compartilhamentos.
Neste primeiro recorte, portanto, a disputa presidencial aparece associada a maior repercussão nas redes, sobretudo quando é mobilizada pela rejeição a um adversário. Esse segundo resultado, porém, ainda deve ser lido com cautela: enquanto 23 candidaturas têm observações suficientes para a comparação dos posts de apoio, apenas sete atendem ao mesmo critério para rejeição. As menções neutras ou ambíguas ficaram fora da comparação por não haver casos suficientes.
Essas diferenças mostram uma associação, e não necessariamente um efeito da menção presidencial. Formato, tema, momento da campanha ou impulsionamento, por exemplo, também podem influenciar o desempenho de uma publicação.
Dimensão territorial
A aliança formal vira palanque nas redes?
A presença de um partido na coligação estadual cria uma aliança formal, mas isso não significa necessariamente que essa relação apareça na campanha. Para observar a distância entre essas duas dimensões, cruzamos a composição das coligações registradas no TSE com o comportamento dos candidatos a governador nas redes sociais.
Neste cruzamento, cada caso corresponde à relação entre uma candidatura estadual e um presidenciável. Para cada relação, verificamos se o partido do presidenciável integra a coligação estadual e, quando há menção nas redes, se ela expressa apoio ou rejeição.
Dos 69 candidatos a governador, 51 (74%) têm o partido de pelo menos um dos cinco presidenciáveis analisados em sua coligação estadual. Considerando separadamente cada relação entre candidatura estadual e presidenciável, encontramos 24 casos em que a aliança formal aparece acompanhada de apoio nas redes. Em apenas um caso, a aliança formal aparece acompanhada de uma menção que não expressa apoio. Fora das alianças registradas, identificamos quatro casos de apoio e 12 de rejeição. Esses resultados sugerem que a aproximação digital tende a confirmar alianças já formalizadas, enquanto a rejeição é mobilizada contra presidenciáveis que estão fora da coligação estadual.
| Relação observada | Número de casos | Leitura |
|---|---|---|
| Aliança formal + apoio | 24 | Indício de ativação do palanque |
| Sem aliança formal + apoio | 4 | Apoio além da estrutura formal |
| Sem aliança formal + rejeição | 12 | Nacionalização por antagonismo |
Há ainda 47 relações em que existe aliança formal, mas o presidenciável não é mencionado. Nesses casos, o vínculo consta no registro do TSE, mas não aparece na comunicação digital da candidatura durante o período analisado. O resultado mostra que a presença de um partido na coligação não implica, necessariamente, a ativação dessa aliança nas redes.
Alguns casos ajudam a visualizar essas combinações. No Rio de Janeiro, Douglas Ruas tem o PL, partido de Flávio Bolsonaro, em sua coligação e o menciona 20 vezes, sempre em sentido de apoio. Lula, por sua vez, aparece seis vezes, todas em sentido de rejeição. Em São Paulo, Fernando Haddad apresenta o padrão inverso: apoia Lula, cujo partido integra sua coligação, e mobiliza Flávio Bolsonaro pela rejeição, com o PL fora da aliança estadual.
Ciro Gomes oferece um contraste importante. Sua coligação inclui o PL, mas isso não se traduz em apoio digital a Flávio Bolsonaro: Ciro menciona todos os presidenciáveis analisados, sem manifestar apoio explícito a nenhum deles. É um exemplo de como a presença formal de um partido na coligação pode não se converter em ativação daquele vínculo na comunicação da campanha.
Como adiantado no início deste boletim, o contraste mais nítido está entre dois presidenciáveis com exatamente o mesmo número de alianças formais: Lula e Ronaldo Caiado, cada um presente na coligação estadual de 19 candidatos. Para Lula, a aliança quase sempre vira menção — apenas 3 desses 19 candidatos ficam em silêncio. Para Caiado, é o oposto: nenhum dos 19 candidatos coligados ao PSD o menciona nas redes no período analisado. Mesmo número de alianças formais, resultados opostos — a evidência mais direta de que coligação e ativação não são a mesma coisa.
O que vem a seguir
A disputa presidencial ocupa pouco espaço na maior parte das campanhas estaduais, mas ganha centralidade em um conjunto específico de candidaturas e territórios. Quando aparece, é sobretudo pela aproximação com um presidenciável, embora exista também uma nacionalização pelo antagonismo, mais rara e concentrada em poucas campanhas. O cruzamento com as coligações mostra ainda que aliança formal e comportamento nas redes nem sempre caminham juntos: há apoios que ultrapassam a estrutura formal e alianças que não se traduzem em menções durante o período analisado.
Mas esse retrato mostra apenas um lado da relação. Os candidatos a governador falam sobre os presidenciáveis — mas os presidenciáveis falam sobre eles? Um candidato à Presidência pode ter aliados formais em determinado estado e pouco incorporá-los à sua comunicação; em outros casos, pode dar visibilidade a candidaturas estaduais mesmo sem uma aliança formal entre os partidos.
O próximo boletim fará esse caminho inverso: dos presidenciáveis para os candidatos a governador. Ao colocar as duas direções lado a lado, poderemos identificar onde a aproximação ocorre apenas de baixo para cima, onde parte da campanha presidencial e onde há reciprocidade. É esse cruzamento que permitirá avançar da presença da disputa presidencial nas campanhas estaduais para uma análise mais completa de como os palanques são ativados na prática.