DEFESA NÃO DÁ VOTO NA DEMOCRACIA? A Defesa Nacional e a Segurança Internacional nas Eleições de 2026
Por Priscilla Mendes1
No Brasil, Defesa Nacional e Segurança Internacional tradicionalmente ocuparam posição secundária nos programas presidenciais, em comparação com temas como economia, saúde, educação e segurança pública. Contudo, sustenta-se aqui que esses temas adquiriram maior importância no debate eleitoral recente, principalmente desde 2018. No plano doméstico, a militarização da disputa política promovida por Jair Messias Bolsonaro e o posterior envolvimento direto de militares em seu governo ampliaram a visibilidade das relações civis-militares, do papel constitucional das Forças Armadas e da Defesa Nacional. No plano internacional, conflitos, crises, disputas entre grandes potências e transformações na ordem mundial também contribuíram para ampliar a presença da Segurança Internacional no debate político e eleitoral.
Esse aumento de visibilidade, contudo, não se traduziu, necessariamente, em uma discussão mais qualificada sobre Defesa e Segurança. A maior presença desses temas foi acompanhada pela incorporação de questões de segurança pública, aproximando e, por vezes, sobrepondo campos que possuem objetos e lógicas distintos. Se, por um lado, essa aproximação ampliou a presença da agenda securitária no debate eleitoral, por outro, obscureceu suas especificidades, sobretudo, quanto às dimensões propriamente estratégicas e internacionais da Defesa e da Segurança.
Para compreender como Defesa Nacional e Segurança Internacional aparecem nas eleições de 2026, analisamos os programas de governo de seis das doze candidaturas mais competitivas: Augusto Cury (Avante); Flávio Bolsonaro (Partido Liberal); Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores); Renan Santos (Partido Missão); Romeu Zema (Partido Novo); e Ronaldo Caiado (Partido Social Democrático).
Embora esses documentos não expressem, de maneira determinante, a totalidade dos projetos políticos nem presumam sua implementação integral, constituem fontes relevantes para identificar prioridades e concepções mobilizadas pelas candidaturas. A análise foi organizada em dezessete critérios, classificados em escala de 0 a 3, conforme sua incidência e relevância nos programas: 0 para ausência; 1 para menção pontual; 2 para presença recorrente ou acompanhada de proposta; e 3 em caso de tema estruturante, articulado a múltiplas propostas.
Tabela 1 – Critérios e definições operacionais para análise dos programas de governo
| Critério | Definição |
| Forças Armadas | Papel das instituições militares na defesa do Estado. |
| Capacidade Militar | Emprego e à preparação das Forças Armadas. |
| Orçamento de Defesa | Prioridade atribuída ao financiamento do setor de Defesa. |
| Indústria de Defesa | Importância da produção de materiais e tecnologias de Defesa para a capacidade nacional. |
| Tecnologia Estratégica | Incorporação da dimensão tecnológica às concepções de Defesa. |
| Território e Fronteiras | Proteção territorial, controle das fronteiras e exercício da soberania territorial. |
| Soberania | Preservação da autonomia decisória e territorial do Estado. |
| Ameaças Externas | Identificação e caracterização de riscos e ameaças provenientes do ambiente internacional. |
| Conflitos Internacionais | Abordagens e posicionamentos diante de conflitos internacionais. |
| Grandes Potências | Posições diante das principais concentrações de poder no sistema internacional. |
| Organizações Internacionais | Papel das organizações internacionais na inserção externa brasileira. |
| Cooperação Internacional | Formas de cooperação relacionadas ao enfrentamento de questões de segurança. |
| Crime Transnacional | Tratamento de crimes que ultrapassam fronteiras e suas implicações para a segurança internacional. |
| Terrorismo | Presença e tratamento da agenda do terrorismo nas propostas de governo. |
| Cibersegurança | Incorporação do domínio cibernético às concepções de segurança. |
| Questão Nuclear | Tratamento da dimensão nuclear da Defesa e da Segurança Internacional. |
| Ordem Internacional | Concepções sobre a posição e a atuação do Brasil na ordem internacional. |
Fonte: Elaborada pela autora.
Esses critérios permitiram observar tanto os aspectos propriamente militares da Defesa quanto suas dimensões políticas, tecnológicas, territoriais, econômicas e internacionais. A análise não se limitou à ocorrência de palavras ou expressões, mas considerou o conteúdo e o sentido atribuído a cada tema nos programas. Assim, uma mesma questão poderia ser enquadrada em diferentes critérios, conforme o contexto. Por exemplo, referências à Amazônia poderiam corresponder à categoria Território e Fronteiras, Soberania ou Tecnologia Estratégica, conforme fossem relacionadas, respectivamente, à proteção territorial, à autonomia sobre recursos ou ao emprego de capacidades tecnológicas.
Os resultados da Tabela 2 apresentam os índices de incidência atribuídos a cada tema e à presença de questões de Defesa e Segurança nos programas analisados, o que permitiu investigar, simultaneamente, a presença relativa dos diferentes temas e a diversidade de enfoques adotados pelas candidaturas na abordagem da Defesa e da Segurança. (Tabela 2)
Tabela 2 – Índice de incidência dos temas de Defesa Nacional e Segurança Internacional nos programas de governo das candidaturas à Presidência da República em 2026
Candidatos Temas de Defesa e Segurança | Augusto Cury | Flávio Bolsonaro | Luiz Inácio Lula da Silva | Renan Santos | Romeu Zema | Ronaldo Caiado |
| Forças Armadas | 2 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Capacidade militar | 1 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Orçamento de Defesa | 0 | 1 | 3 | 1 | 1 | 0 |
| Indústria de Defesa | 1 | 1 | 3 | 3 | 0 | 1 |
| Tecnologia estratégica | 3 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Território e fronteiras | 3 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Soberania | 2 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Ameaças externas | 1 | 2 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Conflitos internacionais | 0 | 1 | 2 | 2 | 1 | 0 |
| Grandes potências | 1 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Organizações internacionais | 1 | 2 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Cooperação internacional | 1 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Crime transnacional | 2 | 3 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Terrorismo | 1 | 3 | 1 | 0 | 1 | 1 |
| Cibersegurança | 1 | 2 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Nuclear | 0 | 0 | 2 | 3 | 0 | 1 |
| Ordem internacional | 1 | 2 | 3 | 3 | 1 | 1 |
| Índice de incidência por candidato | 1,24 | 2,24 | 2,65 | 2,71 | 0,89 | 0,89 |
Fonte: Elaborada pela autora.
Considerados os seis programas, os temas de maior incidência foram tecnologia estratégica e território e fronteiras, seguidos por Forças Armadas, soberania e crime transnacional. Também apresentaram presença relevante capacidade militar, grandes potências, ameaças externas, organizações internacionais, cooperação internacional, cibersegurança e ordem internacional. Em contraste, orçamento de Defesa, conflitos internacionais e questão nuclear tiveram incidência média mais baixa. O resultado evidencia que a agenda eleitoral de Defesa e Segurança não se organiza prioritariamente em torno da preparação para conflitos interestatais ou da alocação de recursos militares, mas em torno de uma combinação entre capacidades estratégicas, soberania, território, tecnologia e ameaças transnacionais.
A análise qualitativa da incidência desses assuntos permitiu identificar não apenas diferentes níveis de atenção à Defesa Nacional e à Segurança Internacional, mas, sobretudo, concepções distintas acerca do próprio significado desses campos. Entre os dois candidatos com maior incidência, os dados demonstraram diferenças substantivas, refletindo a oposição ao petismo do Partido Missão, que não somente foi a tônica de todo o seu programa, mas motivo da criação do Movimento Brasil Libre (MBL), que lhe precedeu
Em Lula, a Defesa esteve integrada ao desenvolvimento nacional, à indústria de Defesa, à soberania tecnológica e ao multilateralismo. Em Renan, por sua vez, a formulação assumiu caráter mais diretamente geopolítico, orientado à construção de um Brasil como “potência estratégica”, com forte ênfase na capacidade militar, na soberania nuclear e no fortalecimento da Base Industrial de Defesa.
Flávio Bolsonaro apresentou o terceiro maior índice, mas se concentrou em duas outras questões prioritárias. Em primeiro lugar, é possível depreender uma forte aproximação entre Defesa Nacional e combate ao crime organizado, inclusive, com a incorporação de categorias como narcoterrorismo. Essa associação, contudo, não é exclusiva de sua candidatura e encontra eco em todas as propostas dos candidatos da direita, constituindo, assim, um campo comum na agenda da direita, marcado pela aproximação entre Defesa, segurança pública e endurecimento das políticas de combate ao crime, baseadas na lógica do hiperencarceramento e na utilização de operações de garantia da lei e da ordem (GLO).
Em segundo lugar, apesar de o programa mencionar a necessidade de diversificar parcerias, as declarações de Flávio Bolsonaro apontaram para uma visão geopolítica baseada em maior aproximação com os Estados Unidos – inúmeras vezes citado no plano como exemplo a ser seguido. Esse quesito, ao contrário do anterior, não foi unânime: enquanto Zema reforçou ser preciso rever a posição brasileira no BRICS, flexibilizar o Mercosul e entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); Caiado, Cury e Santos expressaram propostas mais associadas à cooperação internacional e à participação ativa em foros multilaterais.
Os resultados mostram, assim, que a expansão de Defesa e Segurança no debate eleitoral não corresponde à formação de uma agenda homogênea. Ao contrário, esses campos se tornaram espaços de disputa não somente entre esquerda e direita, mas no interior desta, revelando diferentes concepções sobre autonomia estratégica, papel das Forças Armadas e inserção internacional do Brasil. Nesse sentido, a questão já não parece ser, simplesmente, se Defesa “dá voto”2, mas quais concepções de Defesa e Segurança são mobilizadas na disputa por diferentes projetos de país.
FONTES PRIMÁRIAS
BOLSONARO, Flávio. Para o Brasil vencer o atraso: plano de governo. [S. l.]: [s. n.], 2026. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://static.poder360.com.br/uploads/2026/08/FLAVIO-BOLSONARO-PARA-O-BRASIL-VENCER-O-ATRASO-1-1.pdf. Acesso em: 12 set. 2026.
PARTIDO DOS TRABALHADORES. Programa de governo: diretrizes para o programa de transformação do Brasil: um país soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo. [S. l.]: [s. n.], 2026. 84 p. Disponível em: https://static.poder360.com.br/uploads/2026/08/Programa-Governo-LULA-2026.pdf. Acesso em: 12 set. 2026.
CAIADO, Ronaldo; KASSAB, Gilberto. Plano de governo 2027–2030. [S. l.]: Partido Social Democrático (PSD), 2026. 100 p. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://static.poder360.com.br/uploads/2026/08/Plano-de-Governo-Ronaldo-Caiado-Presidente.pdf. Acesso em: 12 set. 2026.
CURY, Augusto Jorge. Plano de governo. [S. l.]: Avante, 2026. 200 p. Disponível em: https://planodegoverno2026.com.br/planos/augusto-cury-2890f992.pdf. Acesso em: 12 set. 2026.
PARTIDO MISSÃO. Livro Amarelo – Missão 2026: plano de governo: resumo executivo. [S. l.]: Partido Missão, 2026. 51 p. Disponível em: https://www.renanpresidente.com.br/plano-de-governo-missao-2026.pdf. Acesso em: 12 set. 2026.
ZEMA, Romeu. Plano implacável: propostas concretas para os maiores problemas do país. [S. l.]: [s. n.], 2026. 81 p. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://static.poder360.com.br/uploads/2026/08/Plano_gov_Zema_2026.pdf. Acesso em: 12 set. 2026.
- Doutora e Mestra em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança, pela Universidade Federal Fluminense, e Graduada em História, na mesma instituição. Contato: priscilla_carvalho@id.uff.br
↩︎ - Esse termo faz alusão à frase atribuída ao então deputado federal do Partido dos Trabalhadores (PT) por São Paulo e membro da Comissão de Defesa Nacional José Genoíno, que, na década de 1990, afirmara que “Defesa não dá voto na democracia e dá ‘cana’ na ditadura”.
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