Petistas e antipetistas: quem são os dois lados da polarização brasileira?
Quando falamos em identidade partidária, normalmente pensamos na identificação positiva com um partido. O eleitor que se considera petista, por exemplo, desenvolve algum grau de vínculo, simpatia ou proximidade com o PT. Mas a relação dos eleitores com as siglas também pode assumir uma forma negativa. É possível rejeitar intensamente uma legenda sem, necessariamente, identificar-se com outra. É o que chamamos de identidade partidária negativa, e, no caso brasileiro, o antipetismo é seu exemplo mais importante.
Essas duas formas de identificação não são necessariamente opostas. Um eleitor pode ser fortemente identificado com um partido sem nutrir uma rejeição equivalente a outro. Da mesma forma, alguém pode rejeitar intensamente o PT sem se considerar partidário de nenhuma outra legenda. Essa distinção é importante para compreender a polarização brasileira das últimas décadas.
Desde a redemocratização, os partidos brasileiros foram frequentemente descritos como organizações com bases sociais e vínculos partidários relativamente frágeis. A partir dos anos 1990, porém, a disputa presidencial passou a se organizar cada vez mais em torno do PT e de seus adversários. Durante muito tempo, o principal contraponto eleitoral foi o PSDB. Mas há uma diferença importante: enquanto o PT conseguiu construir uma identificação partidária relativamente forte e duradoura, seu principal adversário não chegou a produzir um vínculo partidário de magnitude semelhante.
O que se consolidou, portanto, parece ter sido menos uma disputa entre dois partidos igualmente identificados pelos eleitores e mais uma oposição entre o petismo e o anti-PT. O PT tornou-se uma das poucas forças políticas brasileiras capazes de produzir uma identidade partidária socialmente relevante, e essa própria força parece ter contribuído para a formação de uma identidade igualmente importante de rejeição ao partido.
Essa característica ajuda também a compreender a ascensão de Jair Bolsonaro. Grande parte do antipetismo é formada por eleitores que não possuem uma identificação positiva com outra legenda. São, em outras palavras, partidários negativos: sabem claramente qual partido rejeitam, mas não necessariamente sabem a qual partido pertencem. A ascensão de Bolsonaro ofereceu a esse eleitorado uma alternativa política ao PT, muitas vezes baseada mais na identificação com a figura do candidato do que na construção de um novo vínculo partidário.
O caso brasileiro e como medimos essas identidades
Para entender quem são os brasileiros que se identificam com o PT e aqueles que o rejeitam, analisamos os dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) entre 2002 e 2022. O objetivo foi observar não apenas como petismo e antipetismo mudaram ao longo do tempo, mas também se essas identidades apresentam diferentes bases sociais.
Consideramos seis características dos eleitores: sexo, cor ou raça, idade, renda familiar, escolaridade e religião. Para identificar as duas posições em relação ao PT, utilizamos a nota atribuída ao partido pelos entrevistados. Notas de 8 a 10 foram classificadas como identificação positiva, enquanto notas de 0 a 3 foram classificadas como identificação negativa.
Além de observar a distribuição dessas identidades entre diferentes grupos, utilizamos modelos estatísticos (regressão logística ponderada) para verificar quais características sociodemográficas estavam associadas ao petismo e ao antipetismo e, sobretudo, se essas associações mudaram ao longo do período.
O resultado mais evidente é que 2018 representa um ponto de inflexão na história recente das identidades partidárias brasileiras. Foi naquele ano que o antipetismo atingiu seu maior nível em praticamente todos os grupos analisados. Mas, embora a onda antipetista tenha sido nacional, ela não atingiu todos os segmentos da população da mesma maneira.
Quem é petista? Quem é antipetista?
A análise descritiva mostra que as diferenças entre homens e mulheres foram relativamente pequenas durante a maior parte do período. Em ambos os grupos, o antipetismo atingiu seu pico em 2018. A diferença aparece sobretudo em 2022: entre as mulheres, o antipetismo diminuiu de maneira mais expressiva e o petismo se recuperou, fazendo com que as duas posições se aproximassem. Entre os homens, a queda do antipetismo foi bem menor.

As diferenças raciais são mais marcantes. Entre os eleitores brancos, observa-se uma trajetória bastante clara de afastamento do PT. O petismo caiu de cerca de 40% em 2002 para aproximadamente 18% em 2018, enquanto o antipetismo cresceu continuamente e chegou a cerca de 55% a 57% naquele ano. Entre pretos e pardos, o ponto de partida era diferente: esses grupos apresentavam níveis mais elevados de identificação com o PT e mantiveram maior proximidade com o partido ao longo da série. O crescimento do antipetismo também ocorreu entre eles, mas foi mais tardio e menos intenso, especialmente entre os eleitores pretos.

A idade, por outro lado, produz diferenças menores. O antipetismo cresceu na maioria das faixas etárias e atingiu seu pico em 2018. Entre os eleitores de 25 a 34 anos, chegou a aproximadamente 52%; entre aqueles de 18 a 24 anos, a cerca de 48%. Entre os mais velhos, as oscilações foram menores.

É na renda que encontramos uma diferenciação mais nítida. Nos estratos de menor renda, o petismo mostrou maior resistência, enquanto o crescimento do antipetismo foi mais tardio e moderado. Nas faixas intermediárias e superiores, aparecem os maiores níveis de rejeição ao PT. Em 2018, o antipetismo chegou a aproximadamente 71% entre aqueles com renda familiar de até 10 salários mínimos e a 70% entre os que estavam na faixa de até 20 salários mínimos.

A escolaridade apresenta talvez a transformação mais interessante. No início da série, o grupo com menor escolaridade apresentava cerca de 40% de identificação com o PT e os menores níveis de antipetismo. No outro extremo, entre aqueles com ensino superior completo, o antipetismo já superava o petismo em 2006 e chegou a aproximadamente 61% em 2018, enquanto o petismo caiu para cerca de 11%.

Isso significa que a escolaridade mudou de papel ao longo do período. Nos anos 2000, ela estava mais associada à identificação positiva com o PT. Com o passar dos anos, tornou-se um dos principais marcadores da rejeição ao partido. A mesma variável que inicialmente ajudava a distinguir os petistas passou a distinguir, cada vez mais, os antipetistas.
A religião também apresenta diferenças importantes. Católicos acompanharam em grande medida a trajetória nacional, chegando perto de 50% de antipetismo em 2018. Entre pessoas de religiões de matriz africana, porém, ocorreu algo diferente: em 2018, ao contrário da tendência geral, a identificação com o PT aumentou. Já entre protestantes e evangélicos, o antipetismo permaneceu elevado. O nível superior a 50% observado em 2018 praticamente se manteve em 2022.

O que a regressão acrescenta
Esse método permite isolar o efeito de cada fator sociodemográfico sobre o petismo e o antipetismo, mantendo as demais variáveis sob controle. Além disso, permitimos que esses efeitos mudassem com o tempo. O objetivo não é apenas identificar quais grupos concentravam mais apoiadores ou opositores, mas entender quais características ganharam ou perderam relevância para separar essas duas identidades ao longo dos últimos vinte anos.
Os modelos confirmam que renda e escolaridade passaram a desempenhar um papel cada vez mais importante na diferenciação entre petistas e antipetistas. Esses efeitos eram fracos ou estatisticamente irrelevantes em 2002, mas se intensificaram nos anos seguintes, especialmente a partir de 2010 para escolaridade e de 2014 para renda. Ambos atingiram seus níveis mais fortes em 2018 e 2022.
A religião apresenta um padrão diferente. Entre as categorias analisadas, a identificação como evangélico ou protestante foi a que apresentou associação mais consistente com as duas identidades: menor probabilidade de petismo e maior probabilidade de antipetismo. Já sexo e idade tiveram efeitos mais modestos e circunstanciais. A diferença entre homens e mulheres, por exemplo, tornou-se estatisticamente relevante sobretudo em 2022, quando as mulheres passaram a apresentar mais petismo e menos antipetismo que os homens.
Conclusão
Entre 2002 e 2022, a relação do eleitorado com o PT passou por uma transformação não linear. A polarização não avançou de forma gradual e constante, mas em ondas ligadas a episódios políticos: o Mensalão, o Petrolão, a Lava Jato e, principalmente, a ascensão e as eleições de Bolsonaro. O ano de 2018 mostra que a mobilização antipetista não ficou restrita a um segmento e teve alcance nacional.
Ao mesmo tempo, as variáveis que pouco diferenciavam o eleitorado no início dos anos 2000 (renda, escolaridade e cor/raça) viraram, ao fim da série, os eixos mais sólidos da divisão entre petistas e antipetistas, com a religião evangélica como marcador adicional. A recuperação do PT em 2022 foi expressiva, mas não significou um retorno ao equilíbrio de 2002. O que se consolidou foi uma nova configuração, em que escolaridade, renda, cor e religião funcionam como fronteiras relativamente estáveis entre os dois campos.
A pesquisa, no entanto, tem limitações. Excluímos categorias com amostras pequenas, como jovens de 16 e 17 anos, quem ganha mais de 20 salários mínimos, quem não tem renda, espíritas e outras religiões. A pergunta sobre cor/raça também não foi feita pelo Eseb em 2006. Ficam como agenda futura os mecanismos por trás da mudança de função da escolaridade e a origem da nova clivagem de gênero observada em 2022, cujos efeitos nas próximas eleições ainda estão em aberto.
André Madruga é doutorando em Ciência Política e pesquisador do Lemep (IESP-UERJ).
Felipe Pinkusfeld Bastos é mestrando em Ciência Política (IESP-UERJ).