A oferta e a demanda do voto antissistema nas eleições de 2026

Eleitores insatisfeitos com a política votam em candidatos que atacam o sistema? A resposta é mais complexa do que parece.

A sucessão de escândalos envolvendo políticos nos últimos anos alimenta a percepção de que candidatos com discurso antissistema terão maior adesão do eleitorado brasileiro. A rede de influência de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e pivô de crimes financeiros que supostamente envolveram autoridades dos três poderes da República, é apenas um exemplo entre muitos. Esse tipo de discurso é caracterizado por críticas generalizadas às instituições democráticas, aos partidos e aos políticos.

Candidatos cuja plataforma de campanha é fortemente influenciada pela crítica ou rejeição ao sistema político são consequência esperada de um sistema pressionado por crises institucionais. Nas eleições de 2026, o melhor exemplo é Renan Santos, que afirmou que “a democracia fez muito mal ao Brasil” e que descumpriria decisões do Supremo Tribunal Federal caso as considerasse ilegais.

A questão mais interessante, porém, está do lado da demanda. O eleitor brasileiro tende a concordar com esse tipo de discurso? E, mesmo que concorde, isso faz diferença para o voto? Os dados sugerem um aparente paradoxo: atitudes antissistema são muito populares, mas isso não significa que se convertam, automaticamente, em preferência por candidatos que fazem esse discurso. A escolha eleitoral continua fortemente estruturada pela polarização política.

O INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem) realizou uma pesquisa no final de agosto com 1.020 pessoas. Os participantes responderam a uma série de perguntas que buscavam captar suas opiniões e atitudes sobre o sistema político. 

Mais da metade da amostra, 58%, tende a apresentar opiniões fortemente antissistema. Isto é, concordam com afirmações como “os partidos políticos brasileiros servem a seus próprios interesses” ou “todos os políticos brasileiros são muito corruptos”.

Entre eleitores de Lula, 44% apresentam opiniões antissistema intensas e entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 62%. Nos eleitores dos demais candidatos de direita, como Augusto Cury, Caiado, Renan Santos e Zema, a média é ainda maior, de 71%. Entre os que afirmaram estar indecisos ou que votariam branco ou nulo, o percentual é de 65%.

Em conjunto, esses dados mostram dois aspectos: opiniões muito negativas em relação ao sistema político são amplamente disseminadas no eleitorado, mas sua intensidade varia entre diferentes grupos. Elas são menos frequentes entre os eleitores de Lula e mais frequentes entre os eleitores dos candidatos de direita e os indecisos. 

Embora uma maioria expressiva dos eleitores seja antissistema, intenções de voto semanalmente registradas em pesquisas de diversos Institutos apresentam estabilidade e até certo aumento nas preferências por Lula e Flávio Bolsonaro. Ou seja, o voto útil e a polarização entre petistas e bolsonaristas parecem ser condicionantes mais fortes do voto do que a rejeição a determinados elementos do sistema político. 

A insatisfação generalizada com a política e as instituições no Brasil não é um fenômeno novo, apesar de ter se intensificado na última década e já ter sido eleitoralmente mobilizada com certo sucesso. Nesta eleição, contudo, deve assumir um papel secundário nas escolhas dos eleitores.

Roberta Picussa
Doutora em Ciência Política, pesquisadora do INCT ReDem, sediado na UFPR, e bolsista CNPq de pós-doutorado no Centro de Pesquisa Política da Sciences Po – Paris.

Matheus Cunha
Doutor em Ciência Política e pesquisador de pós-doutorado na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP), membro do INCT ReDem e do ConnectLab.

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