O que é um miliciano? A origem do termo e por que ele voltou ao centro do debate eleitoral de 2026

Após o debate presidencial na Band entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, realizado em 18 de outubro, termos associados às milícias figuraram entre os dez mais buscados da semana no Google1. Como demonstra o Gráfico 1, consultas como “o que miliciano” (7ª posição) e “miliciano o que é” (10ª posição) ganharam destaque no top 10 de pesquisas dos eleitores no Brasil após o evento.

Gráfico 1

Além do volume de consultas no ranking semanal, o interesse sobre o assunto registrou um comportamento temporal atípico. O Gráfico 2 evidencia que as buscas pelo termo “miliciano” mantinham-se em patamares próximos de zero até o dia do evento, registrando um pico expressivo no dia 19 de outubro logo após o debate da Band, alcançando o índice máximo de 100 pontos na escala relativa do Google Trends.

Gráfico 2

Nota metodológica: os valores do Google Trends são normalizados em uma escala de 0 a 100. Portanto, o pico representa o momento de maior interesse relativo no período e na região selecionados, e não o número absoluto de pesquisas realizadas.

Esse repentino interesse público evidencia uma dúvida conceitual persistente no eleitorado: o que define, de fato, um miliciano no contexto brasileiro? Para compreender o impacto e o significado dessa palavra no debate político atual, é preciso recuar na história recente da segurança pública do Rio de Janeiro.

O termo “milícia” integrou-se ao vocabulário da segurança pública a partir de maio de 2005, com uma reportagem de Vera Araújo2 para o jornal O Globo, que revelou como grupos de policiais expulsavam o tráfico e assumiam o controle de favelas em Jacarepaguá e na Barra, tendo em Rio das Pedras o seu laboratório inicial (ARAÚJO, 2005; SARDINHA, 2025). Conforme aponta Ignacio Cano (2008), a escolha da palavra “milícia” buscou conferir uma conotação mais neutra a práticas já conhecidas, distanciando-se de termos estigmatizados como “polícia mineira” ou “grupo de extermínio”.

Historicamente, as bases do modelo miliciano remetem aos esquadrões da morte formados nas décadas de 1960 a 1980 na Baixada Fluminense e Zona Oeste (ALVES, 2003). A transição entre o esquadrão da morte tradicional e a milícia se consolidou quando a violência puramente policial se transformou em proteção mercantilizada e controle territorial sistemático. O diferencial das milícias passou a ser a exploração de monopólios econômicos (transporte alternativo, gás, sinal de TV, taxas de segurança) e uma forte inserção nos poderes Executivo e Legislativo (ZALUAR; CONCEIÇÃO, 2007). Em Rio das Pedras, sob a tutela informal da “polícia mineira”, a associação de moradores funcionou como mediadora entre a comunidade e o poder público (BURGOS, 2002). O potencial eleitoral da comunidade logo se traduziu em candidaturas e na formação de redutos eleitorais, impulsionando a expansão geográfica dessas redes a partir de 2004 para bairros como Bangu, Penha e Engenho de Dentro (ZALUAR; CONCEIÇÃO, 2007).

Como teorizou Ignacio Cano (2008), a legitimação inicial das milícias apoiava-se no mito da “autodefesa comunitária” contra o narcotráfico, operando como um “mal menor”. Esse cenário mudou consideravelmente em 2008 após o assassinato de dois jornalistas do jornal O Dia – que realizavam uma investigação na comunidade do Batan – pela milícia local. Tal fato pressionou o poder público para a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias, presidida pelo então deputado estadual Marcelo Freixo (ALERJ, 2008). O relatório final da CPI desconstruiu o mito libertador, revelando que a maioria das áreas controladas nunca havia sido dominada por facções do tráfico, além de indiciar centenas de civis e agentes públicos envolvidos com currais eleitorais (ALERJ, 2008).

Diante da exposição pública, as milícias passaram por mutações adaptativas (CANO; DUARTE, 2012). Embora tenham perdido parte do discurso legitimador explícito e adotado maior discrição, mantiveram a centralidade do lucro individual, a coação violenta e a atuação de agentes estatais. Sendo assim, Cano e Duarte (2012) definem as milícias com base na convergência de cinco elementos centrais: o domínio coercitivo sobre territórios e populações por grupos armados; a intimidação de moradores e comerciantes; a busca pelo lucro individual como objetivo primário (sobrepondo-se a eventuais pautas morais); a liderança exercida por agentes de segurança pública atuando de forma privada; e a cobrança de taxas obrigatórias aliada ao monopólio violento de serviços e produtos locais. Além da tradicional extorsão por “taxas de segurança”, do transporte clandestino e do comércio ilegal de sinal de internet, luz, água e gás, os grupos paramilitares expandiram agressivamente seus negócios para o mercado imobiliário ilegal, por meio de grilagem e construções irregulares.

O Mapa Histórico dos Grupos Armados (HIRATA; COUTO, 2025) demonstra que, em 2024, as milícias se consolidaram como o grupo armado com a maior extensão territorial na capital, alcançando 49,4% das áreas sob controle ou influência. Superando o Comando Vermelho desde 2011, sua hegemonia se concentra sobretudo na Zona Oeste (onde influenciam quase 90% do território) (HIRATA; COUTO, 2025).

Em suma, a trajetória das milícias no Rio de Janeiro evidencia a mutação de um modelo de violência policial privatizada em uma sofisticada corporação criminosa e política, cujo domínio armado se sustenta na ligação com o próprio Estado.

Fontes:

ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense. Duque de Caxias, RJ: APPH; CLIO, 2003.  

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, ALERJ. (2008). Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a ação de milícias no âmbito do estado do Rio de Janeiro. Disponível em: https:// static.congressoemfoco.uol.com.br/2018/12/relatorio_milicia.pdf

BURGOS, Marcelo Baumann. Favela, cidade e cidadania em Rio das Pedras. In: BURGOS, Marcelo Baumann (org.). A utopia da comunidade: Rio das Pedras, uma favela carioca. 2. ed. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002. p. 21-90.

CANO, Ignacio e DUARTE Thais. No Sapatinho: A evolução das milícias no Rio de Janeiro [2008-2011]. Laboratório de Análise da Violência (LAV-UERJ) & Fundação Heinrich Böll, 2012.

CANO, I.; IOOTY, C. Seis por meia dúzia? Um estudo exploratório do fenômeno das chamadas ‘milícias’ no Rio de Janeiro. Em: Segurança, tráfico e milícias no Rio de Janeiro. 1, p. 48-83. ed. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Boll, 2008.

HIRATA, Daniel; COUTO, Maria Isabel (org.). Mapa histórico dos grupos armados 2025. Rio de Janeiro: Ed. dos Autores, 2025. E-book. Disponível em: https://geni.uff.br/wp-content/uploads/sites/357/2025/12/Relatorio-Mapa-2025-Alt2.pdf.

SARDINHA, Thiago. De um Termo Jornalístico a uma Categoria Sociológica: como nasceu o termo milícia e o caso da chamada Liga da Justiça. Contemporânea – Revista de Sociologia da UFSCar, v.15, p. 1-27, e151331, 2025. Doi: https://doi.org/10.14244/ contemp.v15.1331

ZALUAR, A.; CONCEIÇÃO, I. S. Favelas sob o controle das milícias no Rio de Janeiro: que paz?. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, Fundação Seade, v. 21, n. 2, p. 89-101, jul./dez. 2007. Disponível em: <http://www.seade.gov.br>; <http://www.scielo.br>.


  1. Dados extraídos do Google Trends: https://trends.google.com.br/explore?q=miliciano&date=now%207-d&geo=BR ↩︎
  2. ARAÚJO, Vera. O Globo, Rio de Janeiro, 20 de março de 2005. “Milícias de PMs expulsam  tráfico”. Disponível em: https://memoria.oglobo.globo.com/jornalismo/reportagens/as-miliacutecias-chegam-para-assustar-9152202 ↩︎

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