Entre o voto e a confiança: um achado do Monitor do Debate Público
O Monitor do Debate Público (MDP) acompanha continuamente as reações de diferentes segmentos da população aos acontecimentos da conjuntura política. Embora as perguntas sejam formuladas a partir de temas específicos, a continuidade do acompanhamento permite identificar padrões que ultrapassam cada discussão isoladamente.
O monitor utiliza a metodologia POMT (Painel Online de Monitoramento de Tendências), baseada em grupos focais assíncronos realizados por meio do WhatsApp. Em 2026, o acompanhamento foi organizado em seis perfis políticos — bolsonaristas convictos, bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas, lulodescontentes e lulistas — que respondem periodicamente, com suas próprias palavras, a questões relacionadas aos temas em destaque no debate público. Por acompanhar os mesmos segmentos ao longo do tempo e diante de assuntos distintos, o MDP permite observar não apenas as opiniões sobre cada acontecimento, mas também padrões recorrentes na forma como esses diferentes perfis interpretam a política1.
Um dos achados da pesquisa apareceu na comparação entre indecisos progressistas, lulodescontentes e lulistas ao longo de 2026. Os grupos apresentaram proximidade em diferentes pautas associadas ao campo progressista, mas se diferenciaram na forma de avaliar Lula e suas ações.
O contraste mais relevante ocorreu entre indecisos progressistas e lulodescontentes. A princípio, os primeiros apresentavam maior distância eleitoral de Lula, uma vez que não haviam votado nele e 2022, enquanto os segundos eram eleitores do presidente no pleito passado, mas desaprovam seu governo. Seria possível esperar, portanto, que os indecisos progressistas também fossem mais resistentes às ações do presidente. Os dados mostraram uma relação mais complexa.
Em diferentes episódios, os lulodescontentes permaneceram próximos de Lula em termos programáticos e, posteriormente, também demonstraram disposição (mesmo que por vezes contrariados) para continuar votando nele. Porém, mesmo quando reconheciam uma ação como positiva, demonstravam maior desconfiança e cobrança, questionando suas motivações, o momento em que tal ação era adotada e seus resultados concretos. Entre os indecisos progressistas, por outro lado, a menor identificação com Lula não impediu o reconhecimento mais direto de acertos específicos do presidente, por muitas vezes ficando mais próximos dos lulistas em suas opiniões.
Essa diferença, no entanto, não decorreu de um afastamento dos lulodescontentes das pautas que anteriormente os aproximaram de Lula. Em discussões sobre direitos dos trabalhadores, políticas sociais, violência contra as mulheres e soberania nacional, suas posições permaneceram próximas às dos demais segmentos progressistas. O fim da escala 6×1 foi um dos exemplos mais claros. Um lulodescontente classificou a medida como “uma das maiores vitórias dos trabalhadores” e relacionou sua aprovação à possibilidade de “aproveitar mais a minha esposa e família” (LD, 29 anos, balconista de farmácia, RJ). Entre os indecisos progressistas, a proposta também foi descrita como “uma vitória enorme pra todos os trabalhadores” (IP, 26 anos, autônoma, RO).
A diferenciação aumentou quando a avaliação deixou de se concentrar apenas na política progressista e passou a envolver a atuação de Lula, como pessoa e como presidente. Na retirada da tributação sobre compras internacionais de pequeno valor, por exemplo, uma lulodescontente reconheceu diretamente o benefício da decisão, mas imediatamente colocou em dúvida a motivação do governo: “É uma ótima decisão pois beneficia quem tem menos recursos, na hora de fazer compras. Mas tenho certeza que se não tivesse próximo das eleições o governo não ia ter nenhuma preocupação com esta medida provisória” (LD, 47 anos, professora, MT).
A resposta sintetiza um padrão que reapareceu em outros temas. Entre os lulodescontentes, uma medida podia ser considerada positiva, mas tardia; necessária, mas insuficiente; adequada, mas eleitoralmente conveniente. O mérito da política e a confiança no agente responsável por ela passaram a constituir avaliações distintas. A concordância permanecia, mas era acompanhada com maior frequência por uma segunda avaliação sobre por que Lula havia tomado aquela decisão, por que naquele momento e até que ponto ela produziria resultados realmente benéficos.
Os indecisos progressistas também apresentaram críticas e desconfianças, mas em uma escala bastante menor, quase assintomática. O reajuste de 15% do Bolsa Família mostrou esse limite. A proximidade da eleição despertou suspeitas também entre participantes desse grupo. Uma indecisa progressista afirmou que “o bolsa família ajuda muita gente” e considerou o reajuste “uma boa decisão do Lula”, embora ressaltasse que o aumento havia ocorrido em período eleitoral (IP, 26 anos, autônoma, RO). Outros foram mais críticos. A diferença dos lulodescontentes esteve menos na existência desse tipo de ressalva do que em sua recorrência ao longo de acontecimentos distintos.
Em sentido contrário, os indecisos progressistas demonstraram em diferentes situações que a distância em relação a Lula não impedia uma avaliação favorável de suas ações. Ao analisar as pautas apresentadas pelo presidente para o 7 de Setembro, uma participante afirmou: “Pra mim as pautas do Lula combinam mais com o 7 de Setembro. Falar de soberania, vacina e violência contra a mulher é coisa que interessa ao povo” (IP, 46 anos, vendedora, RS). Em outras discussões, apareceram igualmente avaliações positivas de posições ou medidas do presidente. A ausência de um vínculo eleitoral consolidado não exigia uma avaliação sistematicamente negativa de sua atuação.
Para coroar o debate, a pergunta direta sobre intenção de voto, realizada posteriormente, tornou esse contraste mais claro. A maior rigidez dos lulodescontentes na avaliação de Lula não significou necessariamente maior afastamento eleitoral. Parte afirmou que continuaria votando no presidente, outros permaneceram indecisos e houve participantes que descartaram Lula no primeiro turno, mas admitiram escolhê-lo dependendo da configuração do segundo. As justificativas favoráveis retomaram justamente as pautas que haviam aparecido ao longo do monitoramento: políticas sociais, direitos dos trabalhadores, educação, proteção aos mais vulneráveis e programas que haviam produzido benefícios concretos em suas trajetórias, mas não a boa avaliação de Lula em si.
Uma resposta sintetizou particularmente bem essa relação: “Apesar de não votar de maneira confortável, irei votar nele sim, porque ainda desenvolveu políticas públicas de enfrentamento de desigualdades sociais e de beneficiar principalmente a classe trabalhadora, como a isenção do IR para quem ganha até 5mil e o fim da escala 6×1” (LD, 48 anos, servidor público, PA).
A disposição de continuar votando em Lula coexistiu, portanto, com uma relação mais crítica com sua atuação. Os lulodescontentes não deixaram necessariamente de reconhecer as políticas que os aproximavam do presidente, nem romperam integralmente com ele no plano eleitoral. O que se mostrou mais fragilizado foi a confiança a partir da qual suas ações eram interpretadas e uma certa insatisfação por expectativas de uma gestão que não entregou tudo que prometeu. Em um exemplo bastante crítico a Lula, uma participante resumiu sua insatisfação: “E a fala dele vai de frente as promessas que ele fez no início do mandato, onde ele mesmo prometeu picanha pra população, e hoje muito mal se compra um acém no mercado. Como que se vai comer bem se os preços estão nas alturas e a cada dia que passa só piora.” (LD, 47 anos, professora, MT)
O comportamento dos indecisos progressistas reforçou essa distinção. Também nesse segmento houve abertura relevante ao voto em Lula, mas o apoio apareceu frequentemente acompanhado por desejo de renovação, preferência por outros nomes ou possibilidade de voto estratégico. Mesmo entre aqueles que rejeitaram Lula, suas políticas puderam ser reconhecidas. Uma participante afirmou: “Não pretendo votar no Lula, mas não posso negar que cogitei em votar nele. Pois foi o único candidato que se fala de políticas públicas, programas que deem um pouco de dignidade para brasileiro trabalhador” (IP, 37 anos, auxiliar de creche, RJ).
O contraste entre os dois segmentos é especialmente relevante porque rompe com uma leitura linear da relação com Lula. Os indecisos progressistas podiam estar eleitoralmente mais distantes e, ainda assim, reconhecer seus acertos sem que cada avaliação estivesse condicionada por uma relação anterior de confiança. Os lulodescontentes, por sua vez, podiam continuar eleitoralmente próximos e compartilhar grande parte das mesmas pautas, mas submeter as ações do presidente a um escrutínio mais rígido.
Os lulistas ajudam a completar essa interpretação. Também apresentaram críticas, cobranças e ressalvas às ações do governo, mas elas ocorreram sobre uma base de confiança mais preservada. Em diferentes temas, reconheceram aspectos que deveriam ser melhorados e, em alguns casos, questionaram decisões ou o momento em que foram tomadas, sem que isso produzisse uma desconfiança mais ampla em relação a Lula. Uma participante sintetizou essa posição ao afirmar que sabia “o que o Lula precisa melhorar” e que era necessário “cobrar os políticos apesar de estarmos satisfeitos” (LL, 23 anos, auxiliar administrativo, RO).
Essa relação também apareceu diante de episódios negativos: os lulistas reconheceram possíveis desgastes para o governo e defenderam a apuração de responsabilidades, mas demonstraram maior disposição para separar esses acontecimentos da avaliação pessoal de Lula. Assim, a crítica não significava necessariamente perda de confiança. Na pergunta direta sobre voto, essa relação se manteve: predominou a intenção de votar novamente no presidente, inclusive entre participantes que fizeram ressalvas à sua atuação.
Em síntese, o lulodescontentamento identificado pelo MDP, portanto, não correspondeu simplesmente a um afastamento ideológico ou eleitoral de Lula. Os dados indicaram uma combinação mais específica: a proximidade programática e até mesmo a possibilidade de voto permaneceram, enquanto a confiança se deteriorou. Isso ajuda a explicar por que antigos eleitores do presidente puderam ser mais rígidos na avaliação de suas ações do que progressistas que, a princípio, não constituíam seu eleitorado.
A continuidade do acompanhamento permitiu, assim, separar dimensões que uma pergunta isolada sobre intenção de voto dificilmente distinguiria. Votar em Lula não significou necessariamente confiar em suas decisões da mesma maneira; não votar nele tampouco impediu reconhecer seus acertos. Entre os lulodescontentes, essa separação apareceu de forma particularmente clara: Lula permaneceu como possibilidade eleitoral e suas políticas continuaram encontrando identificação, mas suas ações passaram a receber menos benefício da dúvida e maior cobrança sobre motivações, timing e resultados.
Francieli Manginelli
Doutoranda em Sociologia pelo IESP-UERJ e analista do projeto Monitor do Debate Público – MDP.
- Nota metodológica. O MDP é uma pesquisa qualitativa e seus grupos não constituem uma amostra probabilística do eleitorado brasileiro. Os resultados, portanto, não buscam estimar a frequência ou a distribuição das opiniões na população, mas identificar argumentos, percepções e padrões de interpretação que emergem nos diferentes segmentos acompanhados ao longo do tempo.
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