Quem financia os presidenciáveis em 2026? Os maiores doadores individuais da disputa pelo Planalto

Dados declarados à Justiça Eleitoral até 28 de setembro mostram R$ 10,4 milhões em doações diretas de pessoas físicas às campanhas presidenciais. Os dez maiores doadores respondem por 58,4% desse montante, mas a concentração varia fortemente entre as candidaturas.

A campanha presidencial de 2026 é financiada por diferentes fontes: recursos partidários, Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), recursos próprios, financiamento coletivo e doações de pessoas físicas. Realmente, com a proibição das doações empresariais pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2015 (julgamento da ADI nº 4.650) e a subsequente criação do FEFC, as doações privadas perderam grande parte de sua expressividade – mas não deixaram de existir. Até o dia 29 de setembro,  segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a parcela doada diretamente por pessoas físicas a candidaturas totalizava quase R$ 480 milhões, distribuídos em aproximadamente 70 mil doações feitas por cerca de 57 mil doadores. Desse total, quanto foi destinado ao cargo mais cobiçado, disputado por 11 candidatos? Cerca de R$ 10,6 milhões, doados por quase 2.800 pessoas, conforme ilustra o gráfico abaixo.

A distribuição desses recursos entre os presidenciáveis, porém, está longe de ser uniforme. Os dez maiores doadores individuais concentram cerca de R$ 6 milhões, ou quase 60% de todo o dinheiro recebido diretamente de pessoas físicas. Os vinte maiores chegam a aproximadamente 70%. O dado indica que uma parcela importante do financiamento privado direto da corrida presidencial está concentrada em um grupo relativamente pequeno de doadores, embora essa concentração assuma formatos muito diferentes entre as campanhas, conforme detalhado no gráfico a seguir.

Como se vê, há candidatos que receberam muitas doações (em termos de quantidade, representadas pelos pontos pretos), como é o caso de Renan Santos, Pablo Marçal, Flávio Bolsonaro e Lula, enquanto outros tiveram poucas doações, mas com valores expressivos (como é o caso de Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema). As setas pretas que cortam as barras representam a mediana dos valores doados, com o destaque de que, devido à sua grande variação, as cifras precisaram ser tratadas na escala logarítmica. Enquanto os dados agregados nos mostram a distribuição das receitas/doadores entre os presidenciáveis, um olhar mais detido sobre os maiores financiadores privados permite compreender melhor quem são os verdadeiros destaques de cada campanha.

O maior doador individual identificado na base é Carlos Mattos Barroso. Ele realizou três doações que, somadas, chegam a R$ 2,3 milhões para a campanha de Ronaldo Caiado (PSD). O valor corresponde a aproximadamente aprox. 90% dos R$ 2,5 milhões que Caiado recebeu diretamente de pessoas físicas até a data analisada. Nesse caso, portanto, praticamente nove de cada dez reais provenientes dessa modalidade têm origem em um único doador.

Na sequência aparecem dois movimentos de R$ 1 milhão. Luiz da Rocha Salles Filho destinou R$ 1 milhão à campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Já Erasmo Carlos Battistella dividiu o mesmo valor entre duas candidaturas: R$ 500 mil para Flávio Bolsonaro e R$ 500 mil para Lula (PT). O caso de Battistella chama atenção porque um mesmo grande doador aparece financiando diretamente duas candidaturas concorrentes. Battistella é empresário ligado ao setor de biocombustíveis e preside a Be8, além de possuir participações societárias em diferentes empresas. Para além dele, apenas outros três doadores pulverizaram suas doações em mais de um presidenciável, mas com valores muito pouco expressivos. O comportamento de Battistella se aproxima daquele adotado pelas empresas quando ainda podiam financiar campanhas eleitorais.

Flávio Bolsonaro concentra a maior quantidade de grandes contribuições entre os primeiros nomes do ranking. Além de R$ 1 milhão de Luiz da Rocha Salles Filho e R$ 500 mil de Battistella, a candidatura recebeu R$ 300 mil de Walter Schlatter; R$ 285,1 mil de Ernst Ferter; R$ 285,1 mil de Peter Ferter; R$ 280 mil de Vitorio Sandro Azambuja Vedovat; R$ 240 mil de Alexandre Ribeiro Chequer; R$ 180 mil de Waldemar Verdi Junior; e R$ 170 mil de Flavio Gurgel Rocha. Ao todo, a campanha registra cerca de R$ 5,6 milhões em doações diretas de pessoas físicas, distribuídas entre aproximadamente aprox. 100 doadores.

Essa combinação produz um padrão distinto do observado em Caiado. O maior doador de Flávio responde por cerca de 18% das doações diretas de pessoas físicas recebidas por sua campanha. Os cinco maiores, juntos, representam aproximadamente. 43%. Há, portanto, grandes contribuições individuais, mas elas coexistem com uma base mais ampla de doadores do que a encontrada na campanha do candidato do PSD.

Lula recebeu R$ aproximadamente aprox. 1,6 milhão diretamente de pessoas físicas, distribuídos entre 455 doadores. A maior contribuição é a de Battistella, de R$ 500 mil, equivalente a cerca de 30% desse total. O segundo maior valor individual identificado é dejá cai para R$ 90 mil, doado por Pedro Pereira de Freitas. Considerados em conjunto, os cinco maiores doadores respondem por aproximadamente aprox. 45% das doações diretas de pessoas físicas destinadas à candidatura petista.

Romeu Zema (Novo) recebeu R$ 300 mil em doações diretas de pessoas físicas. Desse montante, R$ 200 mil vieram de Renato Ribeiro Machado, o equivalente a dois terços do total. Augusto Cury (Avante), por sua vez, recebeu R$ 212,1 mil de pessoas físicas; R$ 100 mil foram doados por José Janguiê Bezerra Diniz, correspondendo a aproximadamente aprox. 47% do valor arrecadado nessa modalidade.

Os números também mostram que quantidade de doadores e volume arrecadado não caminham necessariamente juntos. Renan Santos (Missão), por exemplo, registra 1.475 doadores diretos de pessoas físicas, mais do que qualquer outro presidenciável nesse recorte, mas soma R$ 273,3 mil. Pablo Marçal (PRTB) reúne 558 doadores e R$ 9,6 mil em doações diretas. Em sua campanha, o maior doador responde por apenas 5% do total, um padrão bastante mais pulverizado do que o observado entre as candidaturas que recebem grandes contribuições individuais.

A comparação exige uma ressalva importante. As doações diretas de pessoas físicas representam apenas uma parte do financiamento das campanhas. Lula, por exemplo, registra R$ 67,1 milhões em receitas totais na base analisada, enquanto Flávio Bolsonaro soma R$ 59,5 milhões. A diferença entre esses valores e as doações individuais diretas é explicada por outras fontes de recursos, especialmente transferências partidárias e recursos públicos. Por isso, o ranking de doadores não deve ser interpretado como um ranking do financiamento total das candidaturas.

A legislação eleitoral também estabelece limites para as contribuições privadas. Em 2026, pessoas físicas podem doar até 10% dos rendimentos brutos obtidos no ano anterior à eleição. Doações financeiras iguais ou superiores a R$ 1.064,10 devem ser realizadas por transferência eletrônica entre contas identificadas ou por cheque cruzado e nominal. Pessoas jurídicas permanecem proibidas de realizar doações eleitorais.

Os dados ajudam a mostrar que o financiamento privado das campanhas presidenciais possui diferentes estruturas. Há candidaturas em que uma única pessoa responde pela maior parte das contribuições individuais; outras combinam grandes doadores com uma base mais ampla; e há aquelas cuja arrecadação direta é formada por centenas ou mais de mil contribuições de menor valor. Mais do que saber quanto cada candidato arrecadou, observar quem financia as campanhas permite identificar como o dinheiro privado chega à disputa pela Presidência.

Os maiores doadores individuais

DoadorValor totalCandidatura(s)Doação
Carlos E. F. Mattos BarrosoR$ 2.300.000,00Ronaldo Caiado (PSD)R$ 2.300.000,00
Erasmo Carlos BattistellaR$ 1.000.000,00Flávio Bolsonaro (PL); Lula (PT)R$ 500.000,00 para cada
Luiz da Rocha Salles FilhoR$ 1.000.000,00Flávio Bolsonaro (PL)R$ 1.000.000,00
Walter SchlatterR$ 300.000,00Flávio Bolsonaro (PL)R$ 300.000,00
Ernst FerterR$ 285.100,00Flávio Bolsonaro (PL)R$ 285.100,00
Peter FerterR$ 285.100,00Flávio Bolsonaro (PL)R$ 285.100,00
Vitorio Sandro Azambuja VedovatR$ 280.000,00Flávio Bolsonaro (PL)R$ 280.000,00
Alexandre Ribeiro ChequerR$ 240.000,00Flávio Bolsonaro (PL)R$ 240.000,00
Renato Ribeiro MachadoR$ 200.000,00Romeu Zema (Novo)R$ 200.000,00
Waldemar Verdi JuniorR$ 180.000,00Flávio Bolsonaro (PL)R$ 180.000,00

Nota metodológica

A análise utiliza o arquivo nacional “receitas_candidatos_2026_BRASIL.csv”, disponibilizado pelo TSE e gerado em 28 de setembro de 2026. Foram selecionados os registros do cargo de Presidente cuja origem da receita é classificada como “Recursos de pessoas físicas”. As contribuições foram agregadas pelo CPF do doador, preservando a identificação nominal registrada na prestação de contas. Esse recorte não inclui transferências partidárias, FEFC, recursos próprios nem, no ranking principal, doações intermediadas por financiamento coletivo. Foram verificados os identificadores SQ_RECEITA nesse subconjunto; não foram encontradas duplicidades. Os dados são parciais e podem ser retificados ou atualizados pelas campanhas.

Fontes

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Prestação de contas eleitorais – Eleições 2026. Base de receitas de candidaturas, geração de 28 set. 2026.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Resolução nº 23.759, de 2 de março de 2026. Regras aplicáveis às doações eleitorais em 2026.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Por Dentro das Eleições: conheça as regras para prestação de contas eleitorais. 2026.

Por Shamira Rossi (IESP-UERJ) e Rodrigo Tamussino Roll (PPGCP-USP)

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