O discurso climático de Flávio Bolsonaro
O negacionismo climático não é a única preocupação
Em entrevista ao Jornal Nacional, no dia 28 de agosto de 2026, o candidato pelo PL Flávio Bolsonaro foi diretamente perguntado sobre sua agenda ambiental e sobre suas opiniões em relação ao aquecimento global. A sua primeira resposta evitou abordar diretamente à pergunta com relação ao termo aquecimento global. Esta atitude foi apontada na imprensa como a continuação de atitudes negacionistas que o agora candidato já tinha apresentado no passado. Assim por exemplo a UOL titulou sua manchete “Flávio Bolsonaro se nega a afirmar que acredita em aquecimento global”1.
Nesse sentido, as discussões na imprensa salientaram as continuidades do discurso negacionista, que denominamos aqui de discurso cético, que coloca em dúvida diferentes consensos existentes na ciência climática, e não focaram nos ajustes que ele fez no seu discurso climático para a presente campanha. Estes ajustes podem trazer consequências importantes com relação à agenda ambiental e a forma como a opinião pública entende a relação entre política e questão climática. Assim, se apresenta uma breve análise destes ajustes.
- Do ceticismo de tendência ao ceticismo de atribuição
A mudança de termo de “aquecimento global” para “evento climático extremo” não é meramente semântica. Esta mudança discursiva permite ecoar experiências específicas que os brasileiros estão tendo com às mudanças climáticas, e simultaneamente continuar com o negacionismo. O candidato fala de “excesso de calor, excesso de chuva, excesso de seca” ao mesmo tempo que dá uma explicação alternativa a esses eventos observados pelos brasileiros: “tem épocas cíclicas que fazem mais calor, tem épocas que fazem mais frio, tem época que chovem mais e eu não acho que isso tenha a ver diretamente só com a influência do ser humano no ambiente [sic]”2.
Assim o discurso negacionista climático de Flávio Bolsonaro passa do ceticismo de tendência (aquele que nega a existência das mudanças climáticas) para o ceticismo de atribuição (aquele que coloca em dúvida as causas antropogênicas destas mudanças). Assim o candidato continua negando as evidências cientificas sem negar fenômenos biofísicos observáveis, se alinhando assim ao baixo nível de ceticismo de tendência na população brasileira. Segundo dados da pesquisa “As mudanças climáticas na percepção dos brasileiros 2025” do ITS Rio, 93% dos entrevistados reconhecem que o aquecimento global está acontecendo, porém só 74% o atribuem a causas humanas. Assim, discursos como os de Bolsonaro podem aprofundar o ceticismo de atribuição, assim como outros tipos de ceticismo climático (impacto, solução) entre a população brasileira. Cabe lembrar, que o ceticismo no público geral aumentou em países onde elites políticas e económicas organizaram campanhas de desinformação climática e propagação de falsas controvérsias cientificas.
- Conexão com preocupações cotidianas
Um segundo ajuste é passar de uma linguagem geral como “aquecimento global” ou “mudanças climáticas” para elementos concretos e observáveis, simplificando uma questão complexa e se afastando de um discurso mais vinculado com os cientistas. Bolsonaro faz isso não unicamente no referente ao diagnóstico do problema climático, mas principalmente no que se refere a apresentação das soluções ao problema. Assim soluções como “saneamento básico” ou “combate aos lixões” são tanto medidas concretas com os quais os cidadãos têm familiaridade, a diferença de termos como “mitigação” ou “resiliência climática”, e que ecoam suas preocupações cotidianas. Assim por exemplo, nas discussões mais espontâneas durante grupos focais que conduzimos sobre temas ambientais entre 2023 e 2026, surgiram recorrentemente preocupações vinculadas a saneamento básico, lixo e reciclagem e arborização de espaços públicos. Esta observação não significa relativizar a importância da ação climática integral, vinculada tanto a medidas de adaptação e mitigação, mas sim salientar que a forma em que os políticos comunicam sobre crise climática molda a forma em que esta crise é compreendida pela opinião pública.
Assim, o discurso de Bolsonaro faz duas coisas, por uma parte simplifica um problema complexo para um público não especialista e por outra parte realiza de forma relativamente exitosa o que as pesquisas apontam como “conexão cruzada” (crosslinkages) que tem a ver com a associação entre o problema ambiental, muitas vezes discutido em termos abstratos, e as preocupações cotidianas ou o que os cidadãos consideram os problemas mais importantes do país. A junção das duas agendas na cabeça dos brasileiros nos termos propostos por Bolsonaro não é algo menor.
- Punitivismo e “significação” económica
O terceiro ajuste que Flávio Bolsonaro fez, tanto na entrevista de final de agosto como em declarações durante sua recente visita a Belém do Pará tem a ver com moldar as percepções sobre prioridades da ação climática, e consequentemente prioridades orçamentárias neste âmbito. Com relação à proteção do bioma Amazônico, nas palavras do candidato “o problema é até mais criminal do que ambiental” por isso propõe soluções de “lei dura”, perseguindo garimpeiros e fações criminais que operam nesta região. Sem deixar de reconhecer o impacto ambiental de economias ilegais, problemas de desmatamento, queimadas e perda de biodiversidade não se limitam a esta causa. Porém, este argumento também ecoa com a opinião dos brasileiros. Em todas as cidades, os participantes dos grupos focais colocaram a necessidade de endurecer as penas contra crimes ambientais que afetam a Amazônia, opinião compartilhada por votantes identificados com candidatos tanto de direita e como de esquerda.
Uma outra operação discursiva que o candidato faz, é o que pesquisadores tem denominado de “significação econômica”, que coloca no centro uma suposta oposição entre economia e meio ambiente, mudando o foco da discussão da crise climática para potenciais efeitos negativos na economia. O discurso do candidato também tem uma dimensão moral e maniqueísta que tem caracterizado a discussão sobre outras pautas políticas. Assim, em Belém no dia 14 de setembro o candidato declarou: “temos que transformar as riquezas que Deus deu […] em riquezas para o povo brasileiro, de forma responsável, sem ideologização dos licenciamentos ambientais que acabam inviabilizando o progresso”3.
Assim os ajustes feitos por Flávio Bolsonaro na sua comunicação política sobre a questão climática aproximam ele da linguagem e preocupações dos brasileiros, motivo pelo qual deve se analisar seu conteúdo para além do rótulo negacionista. Ele se alinha na sua forma de comunicação com tendências internacionais de partidos populistas de direita. Fica pendente fazer um seguimento mais detalhado nos debates de campanha e verificar se estes enquadramentos são adotados pela opinião pública, o que poderia significar um retrocesso para o apoio público a ação climática no país.
Sofia I. Vizcarra Castillo
Professora do Departamento e Programa de Pós-graduação em Ciência Política, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – Coordenadora do Laboratório de Estudos Políticos sobre Ação Climática (LEPAC UFRGS).
A autora agradece os comentários recebidos dos pesquisadores do LEPAC UFRGS.
sofia.vizcarra@ufrgs.br
Data de fechamento: 17/09/2026
- https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/08/28/flavio-bolsonaro-se-nega-a-afirmar-que-acredita-em-aquecimento-global.htm ↩︎
- Falas do candidato Flávio Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional no 28 de agosto de 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/ao-vivo/flavio-bolsonaro-entrevista-candidatos-presidente.ghtml?postId=92377253-9a31-4119-8eb9-8532bd6b8573
↩︎ - Declarações do candidato Flávio Bolsonaro no dia 14/09/2026 na cidade de Belém. Disponível em: https://g1.globo.com/pa/para/video/em-belem-flavio-bolsonaro-fala-sobre-meio-ambiente-14960676.ghtml
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