Clima e extrema direita nas eleições brasileiras de 2026

Discurso de Flávio Bolsonaro e seu programa de governo revelam como a extrema direita brasileira relativiza a ciência e reduz a centralidade da agenda climática.

Na sabatina do Jornal Nacional, em 28 de agosto de 2026, Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL), foi questionado sobre as mudanças climáticas. Ele relativizou a influência humana sobre o aquecimento ao associar eventos extremos a fenômenos cíclicos e naturais. Perguntado sobre como protegeria a população dos efeitos das mudanças climáticas, respondeu que a melhor forma seria oferecer saneamento básico.

A resposta chama atenção porque o Brasil está particularmente vulnerável aos impactos das mudanças climáticas (Perez et al., 2020), especialmente sobre a agricultura (Zilli et al., 2020), com efeitos sobre a segurança alimentar (Severo et al., 2025).

A afirmação também contrasta com o conhecimento científico consolidado. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC considera inequívoca a influência humana sobre o aquecimento da atmosfera, do oceano e da terra e registra seus efeitos sobre extremos climáticos em todas as regiões.

O saneamento básico, evidentemente, constitui uma agenda fundamental no Brasil, mas não substitui políticas de mitigação e adaptação climática. A mitigação reduz emissões e amplia sumidouros de carbono; a adaptação reduz a vulnerabilidade aos efeitos da mudança do clima (Chen et al., 2017). Enfrentar a crise exige conter o desmatamento, reduzir emissões, preparar territórios para eventos extremos e transformar setores como energia, transportes e agropecuária.

A fala pode ser compreendida à luz da literatura sobre extrema-direita e meio ambiente. Líderes desse campo tendem ao ceticismo ambiental e reconhecem os negacionistas como um segmento relevante de seu eleitorado (Forchtner, 2019). Quando associado ao populismo, o antiambientalismo pode funcionar como estratégia política, apresentando a oposição às políticas climáticas como defesa dos interesses populares diante de uma suposta elite (Neimark et al., 2019). Esse discurso frequentemente associa a agenda climática ao “globalismo”, ao “marxismo cultural” e à perda de soberania, ao mesmo tempo em que simplifica os problemas ambientais e suas possíveis respostas (Forchtner e Kølvraa, 2015). Parte do populismo de extrema-direita também se articula a discursos de pós-verdade que intensificam a polarização em torno das mudanças climáticas (Fraune e Knodt, 2018).

Flávio Bolsonaro também deslocou essa lógica para o contexto amazônico ao afirmar que, em grandes áreas como a Amazônia, o problema seria “até mais criminal do que ambiental”. A presença de organizações criminosas no garimpo, na extração ilegal de madeira e na grilagem é documentada. Entretanto, a destruição ambiental e a apropriação de recursos naturais constituem os próprios mecanismos de geração de renda dessas atividades.

Por isso, o enfrentamento dessas redes depende de capacidades estatais que ultrapassam a segurança pública. Fiscalização ambiental, investigação financeira, controle territorial e proteção de povos indígenas e comunidades tradicionais exigem coordenação entre Ibama, ICMBio, Polícia Federal, órgãos fundiários, agências reguladoras, Ministério Público e outras instituições. A segurança pública integra essa resposta, mas não substitui capacidades específicas de regulação e proteção ambiental.

Os dados de um levantamento da Ascema Nacional sobre as eleições de 2026 permitem observar outra dimensão desse conflito. A entidade cruzou os registros de 20.653 candidatos com as bases de autos de infração do Ibama e do ICMBio e identificou 240 candidatos associados a 524 autos federais válidos, que somavam R$ 213,5 milhões em multas registradas. O PL aparece em primeiro lugar em número absoluto de candidatos autuados, segundo o levantamento.

Esses dados não permitem, por si só, estabelecer uma relação entre autuações e as posições políticas. Mas ajudam a evidenciar que o debate eleitoral sobre a regulação ambiental ocorre em um espaço político no qual existem interesses diretamente afetados pela fiscalização. Nesse contexto, relativizar a responsabilidade humana pelo aquecimento, substituir uma agenda climática abrangente por saneamento e enquadrar os conflitos amazônicos predominantemente como questão de segurança pública reduz a centralidade da regulação e proteção ambiental.

Quando avaliamos os planos de governo dos candidatos que concentram a maioria das intenções de voto para a eleição de 2026, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), as divergências sobre a importância do meio ambiente são evidenciadas. Isso já se reflete nos títulos: o de Lula é intitulado como “Diretrizes para o Programa de transformação do Brasil: um país soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo”, enquanto o de Flávio é o “Para o Brasil vencer o atraso: Diretrizes do Plano de Governo 2027-2030”.

A busca de termos ambientais (como “adapta”, “clim”, “amaz”, “ambient”, “resili”, “desastre”, “sustent” e “sustentabilidade”) revela 169 aparições no plano de Lula contra 61 ocorrências no de Flávio. Vale ressaltar que no programa de Flávio as quatro menções a “adapta” referem-se a estradas e não ao meio ambiente.

A partir de análise de conteúdo dos planos, verificamos que, como tema central, meio ambiente ocupa 14,97% do plano de Lula, que aborda transversalmente mudanças climáticas, transição e pobreza energética, financiamento climático e desastres. No plano de governo de Flávio, o tema representa 9,13%, abordando de forma superficial clima e desenvolvimento sustentável, com foco no combate ao desmatamento ilegal, crime organizado e licenciamento ambiental. O plano ainda aponta que sobreposições de órgãos socioambientais como Ibama, Funai e ICMBio podem prejudicar o desenvolvimento nacional. Essa discussão também remete ao governo de Jair Bolsonaro, cujo período no poder é descrito pela literatura como um processo de desmantelamento de políticas de proteção ambiental (Pereira et al., 2024; Silva-Muller, 2026). Considerando esse precedente, a posição apresentada por Flávio Bolsonaro na campanha de 2026 levanta uma questão que vai além da retórica eleitoral: em que medida essa visão sobre clima e Amazônia poderá se traduzir, caso ele governe, em mudanças nas metas climáticas, nas normas ambientais e nas capacidades das instituições responsáveis por sua implementação e fiscalização? Caso eleito, o Brasil vivenciará uma nova onda de desmantelamento das políticas e instituições ambientais e climáticas em um cenário em que a crise climática se intensifica e nos ameaça?

Referências:
PEREZ, L. P., Rodrigues-Filho, S., Marengo, J. A., Santos, D. V., & Mikosz, L. (2020). Mudanças climáticas e desastres: análise das desigualdades regionais no Brasil. Sustain. Debate, 11, 278-296.

ZILLI, M.; SCARABELLO, M.; SOTERRONI, A. C.; VALIN, H.; MOSNIER, A.; LECLÈRE, D.; RAMOS, F. M. et al. The impact of climate change on Brazil’s agriculture. Science of the Total Environment, v. 740, p. 139384, 2020.

SEVERO, C. M.; GRISA, C.; DE PAULA MARQUES, I. Mudanças climáticas e produção de alimentos: evidências para a elaboração de políticas públicas. Revista de Política Agrícola, e02063, 2025.

CHEN, W. Y.; SUZUKI, T.; LACKNER, M. (org.). Handbook of climate change mitigation and adaptation. Cham: Springer, 2017.

 Forchtner, B. (2019). Climate change and the far right. Wiley Interdisciplinary Reviews: Climate Change, 10(5), e604.

Neimark, B., Childs, J., Nightingale, A. J., Cavanagh, C. J., Sullivan, S., Benjaminsen, T. A., … & Harcourt, W. (2019). Speaking power to “post-truth”: Critical political ecology and the new authoritarianism. Annals of the American Association of geographers, 109(2), 613-623.

Forchtner, B. and C. Kølvraa (2015). “The nature of nationalism: Populist radical right parties on countryside and climate.” Nature and Culture 10(2): 199-224. 

Fraune, C. and M. Knodt (2018). “Sustainable energy transformations in an age of populism, post-truth politics, and local resistance.” Energy Research & Social Science 43: 1-7.

Pereira, A. K., Morais, L. D., Salomon, M., Oliveira, M. S. D., Lacerda, L., Corso, J. V., & Maior, M. S. (2024). Populism and the Dismantling of Brazil’s Deforestation Oversight Policy. Brazilian Political Science Review, 18(1), e0006. 

SILVA-MULLER, Livio. Reach and retrenchment of the environmental state: global climate politics in the Amazon rainforest. American Journal of Sociology, v. 132, n. 1, p. 1-51, 2026.

Ana Karine Pereira – UnB; Doutora em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB). É professora adjunta do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da UnB e professora permanente do Mestrado em Governança e Desenvolvimento da ENAP. Atua nas áreas de capacidades estatais, mudança de políticas públicas e alta burocracia e processo decisório, com ênfase no setor ambiental e climático.
pereiraanakarine@gmail.com

Wallace Rafael Rocha Lopes – PPGCDS/UnB; Analista Ambiental do Ibama. Bacharel em Engenharia Ambiental (UFT), especialista em Mineração (UFOP), mestre em Saneamento e Recursos Hídricos (UFT) e doutorando em Desenvolvimento Sustentável (UnB).
wallace.lopes@outlook.com

Paloma Mirelly Amorim Silva – PPGCDS/UnB; Mestra em Desenvolvimento Sustentável pela UnB e Cientista política com ênfase em Relações Internacionais pela UFPE. Desenvolve pesquisas no âmbito da política ambiental, políticas públicas, gestão socioambiental, atores e participação.
palomaamorim88@gmail.com

 


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