O agente da despolarização

Demanda, oferta, ascensão e desidratação de Augusto Cury (Avante) na eleição presidencial de 2026

Resumo. Entre meados de agosto e o início de setembro de 2026, Augusto Cury passou de 2% para 10% na Quaest e de 2% para 8% no Datafolha, tornando-se o primeiro nome além de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) a alcançar dois dígitos no ciclo. Duas semanas depois, estava em 7% na Quaest, 6% no Datafolha e 3,5% na AtlasIntel. Esta nota interpreta os dois movimentos com a mesma gramática. A ascensão resultou do encontro entre uma demanda estrutural por alternativas à polarização e uma oferta que, até agosto, não havia produzido um candidato simultaneamente externo ao sistema partidário e avesso ao confronto, num encontro mediado pela conversão, via mídia legada, de uma notoriedade prévia em identificação política. A desidratação coincide com a invasão da agenda pela crise do STF, que recolocou no centro do debate um conflito posicional sobre o qual o “agente da despolarização” não tinha o que oferecer, e que reativou a identidade antipetista do eleitorado de direita não convicto, seu principal reservatório.

1. Um fenômeno em dois tempos

Até a terceira semana de agosto, nenhum candidato fora dos dois polos havia superado 10% em pesquisa registrada no ano. O salto de Cury foi rápido e convergente entre institutos de métodos distintos: na Quaest, de 2% (divulgação de 14/8) para 10% (campo de 30/8 a 1º/9); no Datafolha, de 2% para 8% (campo de 1º a 3/9); na AtlasIntel, de 1,6% para 7,8% (25 a 30/8). O movimento foi, porém, curto. A partir da segunda semana de setembro, as mesmas séries passaram a registrar queda e o intervalo entre o pico e o recuo coincide com a entrada da crise do Supremo Tribunal Federal na agenda eleitoral (Gráfico 2).

O interesse analítico do caso está menos no desfecho provável de uma candidatura sem máquina, sem base parlamentar e com 36 segundos de horário gratuito, e mais no que seus dois tempos revelam sobre o eleitorado brasileiro: a disponibilidade de uma parcela expressiva dele para candidaturas centradas na pessoa, e a velocidade com que essa disponibilidade se desfaz quando a agenda volta a exigir que se escolha um lado.

2. Demanda e oferta: o arcabouço

A distinção entre lado da demanda e lado da oferta é um par analítico consolidado na ciência política comparada. Sua raiz é a analogia de mercado de Downs (1957); sua formalização veio da literatura sobre partidos desafiantes, que se perguntava por que plataformas semelhantes obtêm resultados distintos em sociedades comparáveis. Mudde (2007) organiza o campo em demanda (preferências, identidades e ressentimentos do eleitorado), oferta externa (regras, sistema de mídia, configuração da competição) e oferta interna (organizações, lideranças e estratégias); Norris (2005) adota explicitamente o vocabulário do “mercado eleitoral”; Kriesi (2014) insiste que os dois lados só explicam em conjunto. O corolário decisivo é que demanda é condição necessária, mas não suficiente já que a ausência de votos para uma posição não prova ausência de demanda, pode indicar falha de oferta.

Do lado da demanda, a literatura brasileira documenta um eleitorado estruturalmente disponível. Samuels e Zucco (2018) mostram que o país tem uma única identidade partidária de massa, o petismo, e uma única identidade negativa de massa, o antipetismo, sendo os não partidários o maior grupo, tese que dialoga com Carreirão e Kinzo (2004), para quem a preferência partidária estrutura o voto onde existe, mas falta à maioria, e com Samuels (2006), que atribui o petismo a redes associativas difíceis de replicar. Ribeiro, Carreirão e Borba (2019) mostram que o eleitorado se organiza tanto pela rejeição quanto pela adesão; Fuks, Ribeiro e Borba (2020) demonstram que, entre 2014 e 2018, o antipetismo se generalizou em rejeição aos partidos como categoria, com efeito próprio sobre o voto. Rennó e Cabello (2010) já haviam identificado personalismo e não alinhamento nas bases do lulismo, e Dalton, McAllister e Wattenberg (2003) descrevem, nas democracias avançadas, a substituição dos partidos pela mídia como intermediária informacional. Ressalva necessária: Fuks e Marques (2020) e Rennó (2020) mostram que o voto de 2018 também teve consistência ideológica e conteúdo temático, de modo que a demanda não é apenas negativa, mas um ponto que será decisivo para entender a desidratação.

Do lado da oferta, os indicadores de 2026 mostravam o reservatório: 51% de indecisos na Quaest em 14 de agosto e rejeição de 50% tanto a Lula quanto a Flávio na Real Time Big Data do fim de agosto. As alternativas disponíveis falhavam por razões distintas. Ronaldo Caiado (PSD), deputado, senador e governador, era alternativa à polarização, mas não à “velha política”. Romeu Zema (Novo) carregava um rótulo ideológico explícito que afasta o eleitor avesso a lados. Renan Santos (Missão), vindo do MBL, era externo ao sistema, mas de registro confrontacional. Numa matriz com duas dimensões, a distância do sistema partidário e distância do confronto, a célula “externo e pacificador” estava vazia. Cury a ocupou: recusou rótulos (“mente capitalista, coração social”), apresentou-se como “agente da despolarização” e, no debate da Band, defendeu Lula de ataques pessoais de Renan. O Avante, partido de baixa densidade programática, funcionou como veículo capturável, padrão descrito por Carreras (2012) e Barr (2009) para outsiders latino-americanos.

3. A ascensão: notoriedade convertida em identificação

A velocidade do salto se explica pela distinção entre notoriedade e identificação política. Com mais de 40 milhões de livros vendidos no país, Cury era conhecido por quase todos, mas como objeto não político, e permaneceu em torno de 2% de abril a agosto. O modelo de recepção-aceitação-amostragem de Zaller (1992) descreve o mecanismo: durante a pré-campanha, ele não gerava mensagens políticas recebíveis; a sequência debate da Band (23/8, sem Lula, Flávio e Zema), sabatinas na TV Globo, entrevista ao Jornal Nacional (29/8) e início do horário gratuito (28/8) produziu-as em massa. A notoriedade prévia barateou a etapa de aceitação e o eleitor não precisou aprender quem ele era, só o que passara a ser. A ausência dos líderes no debate operou, ainda, como efeito de agendamento e priming no sentido de Iyengar e Kinder (1987). As redes vieram depois, com quase 2 milhões de novos seguidores no Instagram em dois dias.

O perfil do novo eleitorado era compatível com a hipótese de demanda. Na Quaest, Cury alcançava 24% entre independentes, contra 10% no geral. Na Nexus/BTG Pactual (28 a 30/8), seu maior reservatório não era o centro, mas os eleitores que viam “Bolsonaro como alternativa” (26%), seguidos dos não polarizados e dos que rejeitavam ambos os polos (19% cada). Já entre lulistas convictos tinha 3%, e entre bolsonaristas convictos, 8% (Gráfico 1). Essa assimetria, um eleitorado de direita por circunstância, não por identidade, é a chave para entender o que veio a seguir. E havia um sinal de fragilidade medido na Quaest, divulgada em 7/9, só 49% dos eleitores de Cury consideravam a escolha definitiva, contra 80% dos de Lula e 78% dos de Flávio.

A identidade religiosa compunha esse perfil. Cury declara-se “cristão sem fronteiras”, escreveu diversos livros sobre Jesus e não pertence a denominação evangélica nem conta com apoio de igreja organizada. Ainda assim, recebeu adesões de pastores e de influenciadores evangélicos e católicos durante a ascensão. A hipótese mais consistente com a análise de oferta é a de um acesso lateral ao eleitorado cristão, por fora dos porteiros institucionais hoje alinhados ao bolsonarismo, pela via de um “cristianismo não institucional” que circula no universo da autoajuda e do desenvolvimento pessoal. É preciso, porém, registrar que o único recorte religioso público da intenção de voto em Cury é uma PoderData/Aya de maio de 2026, que o registrava com 2% entre evangélicos, anterior a todo o movimento. A suspeita não foi testada com dados posteriores ao salto e, como se verá, a crise do STF atingiu justamente esse segmento.

Gráfico 1. Intenção de voto em Cury em cada segmento. Nexus/BTG Pactual, 2.005 entrevistas, 28 a 30/8/2026, registro TSE BR-08900/2026. Subamostras têm margem de erro superior à da amostra total.

4. A desidratação: a crise do STF invade a agenda

Na cronologia da crise, observamos que, em 27 de agosto, a Polícia Federal entregou ao ministro André Mendonça, relator dos inquéritos do Banco Master, um relatório de 218 páginas com dados do celular de Daniel Vorcaro. Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo do material, que apontava mensagens entre o banqueiro e um contato atribuído ao ministro Alexandre de Moraes. Em 3 de setembro, Moraes pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que Mendonça fosse investigado no inquérito das fake News, mas Fachin retirou o pedido desse inquérito no dia seguinte. No ato da Avenida Paulista de 7 de setembro, Flávio Bolsonaro converteu o tema em mote eleitoral, anunciando “quem vota em Lula vota em Alexandre de Moraes”. Em 12 de setembro, Fachin assumiu a investigação sobre as conversas, e em 15 de setembro, o plenário julgou a abertura de investigação contra Moraes. Pela primeira vez na campanha, o tema dominante do noticiário era um conflito institucional com lados definidos.

Gráfico 2. Cenário estimulado de 1º turno, por data de divulgação. Quaest: 14/8, 2/9, 7/9 e 14/9 (registro da última: BR-03607/2026). Datafolha: 21/8, 3/9, 11/9 (BR-01833/2026) e 17/9 (BR-04029/2026). AtlasIntel: 29/7, 31/8, 10/9 e 17/9 (BR-06221/2026). Níveis não são comparáveis entre institutos; a leitura relevante é a direção.

Tabela 1 — Pico e recuo de Cury, e movimento de Flávio Bolsonaro no mesmo intervalo

InstitutoAntes do saltoPicoÚltima rodadaVariação de CuryFlávio (pico → última)
Quaest2% (14/8)10% (2/9)7% (14/9)−3 p.p.29% → 31%
Datafolha2% (21/8)8% (3/9)6% (17/9)−2 p.p.33% → 36%
AtlasIntel1,6% (29/7)7,8% (31/8)3,5% (17/9)−4,3 p.p.33,7% → 41,7%

Nota: Quaest e Datafolha, cenário sem Pablo Marçal; margem de erro de ±2 p.p. (±1 p.p. na AtlasIntel, que usa recrutamento digital). Na Quaest, a queda rodada a rodada (10 → 8 → 7) está dentro da margem; é a sequência, não cada passo, que indica tendência.

Três observações dão forma ao padrão. A primeira é temporal com as rodadas que registraram o pico de Cury tiveram campo concluído entre 30 de agosto e 3 de setembro, isto é, antes de a crise saturar o noticiário. A segunda é de direção com o recuo de Cury acompanhado, nos três institutos, de avanço modesto de Flávio Bolsonaro na Quaest e no Datafolha, expressivo na AtlasIntel, onde Renan Santos (5,1%) passou à frente de Cury. A terceira é que o segmento de onde Cury mais extraíra votos era justamente o eleitor que via Bolsonaro como alternativa, o mais sensível a um evento que ativa a identidade antipetista.

A interpretação mais consistente com a literatura combina três mecanismos. O primeiro é de agenda. Cury crescera numa agenda de valência, saúde emocional, educação, pacificação, em que ninguém discorda e o que importa é quem parece mais confiável. A crise substituiu-a por um conflito posicional sobre o STF, que é, há anos, eixo identitário do bolsonarismo. No vocabulário de Iyengar e Kinder (1987), mudaram os critérios acessíveis de avaliação; no de Zaller (1992), as considerações disponíveis “no topo da cabeça” do eleitor passaram a ser as da crise, sobre a qual o candidato que recusa lados não tinha posição a oferecer. O produto de Cury não piorou; tornou-se irrelevante para a pergunta que a agenda passou a fazer. O segundo mecanismo é de identidade: eventos que opõem os polos reativam o antipartidarismo e o antipetismo descritos por Samuels e Zucco (2018) e Fuks, Ribeiro e Borba (2020), e o eleitor de direita “por circunstância” tende a retornar ao polo, o que também é coerente com Fuks e Marques (2020), para quem a organização do campo da direita aumenta a consistência ideológica do voto. O terceiro é de oferta: quando a agenda recompensa o confronto, a célula “externo e confrontacional” da matriz ganha em relação à célula “externo e pacificador”, o que ajuda a entender a ultrapassagem de Renan na AtlasIntel, ainda que esse movimento não apareça nos institutos presenciais.

A cautela é obrigatória. Os dados são transversais, e atribuir a queda de Cury ao retorno de eleitores a Flávio é inferência ecológica. Parte do recuo pode ser simples dissipação do efeito do debate, previsível num eleitorado com apenas 49% de voto consolidado. Além disso, 67% dos entrevistados pela Quaest de 10 a 13/9 disseram que a crise não influenciará seu voto. O dado não refuta a hipótese de agenda — efeitos de priming, por definição, raramente são percebidos por quem os sofre —, mas impede tratá-la como demonstrada. Outro dado da mesma rodada é compatível com ela: 37% avaliaram que Mendonça agia corretamente no embate, contra 16% que apontaram Moraes, com apoio a Mendonça concentrado na direita não bolsonarista e entre evangélicos, precisamente os segmentos onde Cury tinha potencial de expansão.

Há, por fim, um paradoxo revelador. Enquanto encolhia no primeiro turno, Cury melhorou nas simulações de segundo: na Quaest, passou de 40% a 34% para 38% a 36% contra Lula (este último, 14/9); no Datafolha de 11/9, empatou tecnicamente com o presidente, 45% a 43%. É o perfil clássico do candidato de segunda preferência — aceitável para muitos, primeira escolha de poucos. A despolarização funciona como atributo de desempate, não como motivo de mobilização.

6. Considerações finais

Ascensão e desidratação respondem à mesma lógica. A demanda por uma alternativa aos polos existe, é estrutural e está bem documentada; o que Cury ofereceu foi, por algumas semanas, a primeira oferta aceitável para ela, ativada por uma janela de exposição na mídia legada. Mas essa demanda é, em boa parte, condicional: depende de que a agenda não exija escolher um lado. Quando a crise do STF recolocou no centro um conflito posicional com lados nítidos, o eleitor de direita não convicto, a maior fatia do eleitorado de Cury, encontrou razões identitárias para voltar ao polo, e o atributo que definia o candidato perdeu relevância. O caso sugere uma formulação mais precisa do limite da “terceira via” no Brasil recente, sendo ela é viável em agendas de valência e vulnerável em agendas posicionais. As pesquisas aqui citadas são fotografias de momento, não previsões.

Referências

BARR, R. R. Populists, Outsiders and Anti-Establishment Politics. Party Politics, v. 15, n. 1, 2009.

CARREIRÃO, Y.; KINZO, M. D. Partidos políticos, preferência partidária e decisão eleitoral no Brasil (1989/2002). Dados, v. 47, n. 1, 2004.

CARRERAS, M. The Rise of Outsiders in Latin America, 1980–2010. Comparative Political Studies, v. 45, n. 12, 2012.

COX, G. W. Making Votes Count. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.

DALTON, R. J.; McALLISTER, I.; WATTENBERG, M. P. Democracia e identificação partidária nas sociedades industriais avançadas. Análise Social, v. XXXVIII, 2003.

DOWNS, A. An Economic Theory of Democracy. New York: Harper & Row, 1957.

FUKS, M.; MARQUES, P. H. Contexto e voto: o impacto da reorganização da direita sobre a consistência ideológica do voto nas eleições de 2018. Opinião Pública, v. 26, n. 3, p. 401–430, 2020.

FUKS, M.; RIBEIRO, E.; BORBA, J. From Antipetismo to Generalized Antipartisanship. Brazilian Political Science Review, v. 15, n. 1, e0005, 2020.

IYENGAR, S.; KINDER, D. R. News That Matters. Chicago: University of Chicago Press, 1987.

KRIESI, H. The Populist Challenge. West European Politics, v. 37, n. 2, 2014.

MUDDE, C. Populist Radical Right Parties in Europe. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.

NORRIS, P. Radical Right: Voters and Parties in the Electoral Market. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.

RENNÓ, L. R. The Bolsonaro Voter. Latin American Politics and Society, v. 62, n. 4, 2020.

RENNÓ, L.; CABELLO, A. As bases do lulismo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 25, n. 74, p. 39–60, 2010.

RIBEIRO, E. A.; CARREIRÃO, Y. S.; BORBA, J. Os sentimentos partidários dos eleitores brasileiros. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 28, p. 107–148, 2019.

SAMUELS, D. Sources of Mass Partisanship in Brazil. Latin American Politics and Society, v. 48, n. 2, 2006.

SAMUELS, D.; ZUCCO JR., C. Partisans, Antipartisans, and Nonpartisans. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.

ZALLER, J. R. The Nature and Origins of Mass Opinion. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.

Pesquisas (registros TSE): Quaest BR-07065/2026 e BR-03607/2026; Datafolha BR-03669/2026, BR-01833/2026 e BR-04029/2026; AtlasIntel BR-07972/2026 e BR-06221/2026; Nexus/BTG BR-08900/2026; Real Time Big Data BR-03490/2026. Cronologia da crise: Poder360, BBC Brasil e Agência Pública, setembro de 2026.

Posts Similares