Como o Caso Master entra na corrida eleitoral? Uma descrição da cobertura midiática.

Um escândalo político não chega pronto ao debate público: ele é construído a partir dos enquadramentos discursivos mobilizados por atores políticos e midiáticos. Nesse processo, a imprensa mantém o tema em pauta na esfera pública e oferece os contornos pelos quais o acontecimento passa a ser interpretado (Azevedo, 2010; Thompson, 2002). Por serem construídos, e não dados, os escândalos se prestam à apropriação estratégica pelos atores em disputa, e é nesse ponto que se tornam um recurso de campanha.

Essa apropriação não constitui novidade na competição eleitoral brasileira. A corrupção opera como uma valence issue, ou seja, um tema sobre o qual não há divergência de preferências no eleitorado, uma vez que ninguém a defende, mas em torno do qual se trava uma intensa disputa sobre a quem atribuir a responsabilidade. É essa disputa pela atribuição, e não o consenso sobre o problema, que confere ao escândalo seu valor eleitoral. 

As revelações da investigação e as decisões do STF são convertidas em cálculos estratégicos de campanha, seja quando candidatos aparecem diretamente implicados nos fatos, seja quando lhes é atribuída alguma relação, real ou apenas sugerida, com atores investigados. 

Para compreender como se dão essas atribuições de responsabilidade, realizou-se uma análise da cobertura jornalística do caso do Banco Master a partir de 14.689 matérias, publicadas por 149 veículos entre 1º de janeiro e 16 de setembro de 20261.

Inicialmente, o banco de dados foi tratado para identificar a associação das matérias tanto com termos eleitorais quanto com os principais candidatos à presidência. A análise dos termos eleitorais indica que a entrada do caso Master na disputa presidencial ocorre, sobretudo, pela lógica da competição e do desempenho dos candidatos. “Pesquisa eleitoral” é o termo mais frequente, presente em 11,0% das matérias (1.610), seguido de “eleição” (10,4%), “campanha” (6,9%) e “candidatura” (6,2%). Esse padrão sugere que a cobertura trata o escândalo como uma variável capaz de alterar intenções de voto e a viabilidade das candidaturas.

Também foi medida a frequência de menções dos principais candidatos à presidência. Flávio Bolsonaro – o único formalmente ligado ao inquérito – apresenta a maior presença na cobertura, sendo mencionado em 49,7% das matérias publicadas em 2026. Lula ocupa a segunda posição, aparecendo em 34,5% das matérias, embora não figure como investigado no inquérito. Os demais candidatos são mencionados com frequência consideravelmente menor: Romeu Zema, por exemplo, aparece em terceiro em apenas 7% das publicações. Zema e os demais candidatos surgem apenas como atores da disputa ou como vozes que cobram e denunciam, seja as instituições, seja Lula ou Flávio Bolsonaro.

As menções a Flávio Bolsonaro atingem um pico de aproximadamente 2,8 mil manchetes em maio. O pico coincide com a divulgação dos áudios trocados entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Lula, por sua vez, apresenta trajetória de crescimento mais gradual, com aumento entre janeiro e junho, retração em julho e nova expansão em setembro, quando o volume de menções se aproxima do registrado por Flávio. Essa convergência sugere uma progressiva ampliação da cobertura: de um primeiro momento concentrado no candidato formalmente ligado ao inquérito para uma interpretação mais abrangente do caso como acontecimento da disputa presidencial, na qual o principal adversário também passa a ocupar posição central.

Gráfico 1. Evolução mensal do número de manchetes que mencionam os candidatos à Presidência entre janeiro e setembro de 2026, destacando o pico expressivo de Flávio Bolsonaro em maio e a posterior convergência com o volume de menções a Lula no segundo semestre.

Gráfico 2. Atores mencionados nas manchetes sobre o caso Master que citam Lula ou Flávio Bolsonaro, em número e percentual das manchetes de cada candidato.

As menções mostram diferenças nos personagens que aparecem nas manchetes ao lado de cada candidato. Daniel Vorcaro é citado com Flávio Bolsonaro em 1.837 registros, contra 474 com Lula. Jaques Wagner apresenta o padrão inverso: aparece em 294 registros com Lula e 31 com Flávio. Alexandre de Moraes figura com ambos (310 e 362 registros, respectivamente), enquanto André Mendonça aparece em 150 registros com Lula e 240 com Flávio.

Enquadramentos dos dois principais candidatos

Lula 

As manchetes sobre Lula no caso Master oscilam entre implicá-lo por associação, avaliar as implicações do adversário sobre sua candidatura, e registrá-lo como voz que comenta o caso. O sentido da valência de cada uma depende de quem aparece ao seu lado e de como suas ações são julgadas pelos jornais. Emparelhado com Jaques Wagner, Vorcaro ou Moraes, Lula vira alvo por contiguidade, sem que ninguém precise afirmar seu envolvimento; posto diante de Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira ou Campos Neto, ele passa a ser beneficiário. O sentido da manchete se decide na montagem do elenco, não na apuração.

Nessa cobertura, Lula é frequentemente uma voz que comenta o caso. As valências sobre o presidente variam entre registros mais neutros e ambivalentes, que apenas relatam o que ele disse, ou mais negativos, que lê suas ações como estratégia. A mesma declaração sobre Moraes aparece de duas formas: em uma manchete, “‘Eu não era presidente quando Moraes foi indicado para STF’, afirma Lula ao rebater críticas”; em outra, “Lula tenta se descolar de Moraes: ‘Eu não era presidente quando ele foi indicado'”. No segundo enquadramento, os gestos do presidente são narrados como cálculo, como também observado em “Lula tenta descolar governo do Master” e “Lula tenta se descolar de Moraes”. 

O mesmo ocorre quando o presidente age institucionalmente. Enquanto uma manchete informa que “Lula cobra STF por perda de credibilidade e acusa Mendonça de vazamento seletivo no caso Master”, outra afirma que ele “entra na briga dos ministros e acusa André Mendonça por suposto ‘vazamentos seletivos'”. Na segunda, Lula deixa de ser o presidente que cobra uma instituição e passa a ser mais um agente da discórdia, enquanto o “suposto” lança dúvida sobre a própria denúncia.

Quando a voz de Lula é colocada como denúncia as falas deslocam a origem do escândalo para o governo anterior e para o adversário (“Master é ‘ovo da serpente’ de Bolsonaro e de Campos Neto”, “Flávio tem o ‘rabo preso’ com o Banco Master”). Os ataques também vêm  da oposição que responde (“Quem deve explicações é Lula”, diz Flávio sobre Vorcaro”), e a imprensa registra o duelo sem arbitrá-lo, pontuando as duas falas  como se acusações simétricas tivessem peso simétrico. O principal enquadramento favorável é o da transparência, construído na voz direta de Lula e num registro de moralidade popular (“Lula defende quebra total do sigilo do Caso Master: ‘Brasil precisa saber a verdade'”, “Lula cobra investigação de todos os envolvidos no caso Master: ‘sem blindagem, doa a quem doer’”, “Lula: Caso Master é importante porque ‘chegamos nos magnatas da corrupção'”).

No âmbito eleitoral, o mesmo escândalo é lido como ameaça à reeleição (“Escândalo do Banco Master alcança Lula e atrapalha reeleição”, “Caso Master e CPI do INSS: Dias Toffoli e Lulinha explicam momento ruim para Lula”), mas também como trunfo de campanha (“Operação contra Ciro Nogueira no caso Master é trunfo eleitoral para Lula”, “Lula abre vantagem e queda de Flávio mostra que caso Vorcaro já bateu na eleição de 2026”). 

Por fim, a cobertura escorrega do escândalo financeiro para a crise institucional e, dali, para a briga pelo controle da própria narrativa. Lula é apresentado como árbitro do Supremo (“Lula reúne Moraes, Gonet, PF e Galípolo”, “‘Não jogue fora sua biografia’: O conselho de Lula a Alexandre de Moraes”), mas a mesma proximidade que o autoriza a mediar é imediatamente convertida em suspeita (“Ala do Supremo reage a Planalto e vê Lula ‘lavando as mãos’ no caso Toffoli”, “Dias Toffoli é o Incitatus de Lula”). A associação entre o presidente e o caso torna-se, ela própria, matéria de retratação e de litígio (“GloboNews pede desculpas por arte que associou Lula ao escândalo”, “PT aciona TSE contra o PL por vídeo que liga Lula a caso Master”).

O saldo é um presidente/candidato sistematicamente cercado: a valência de cada manchete depende menos do que se apurou sobre ele do que de quem a redação decide colocar a seu lado e de qual verbo escolhe para descrever sua reação. A imprensa não o condena; apenas organiza a cena de modo que a condenação pareça sempre iminente.

Flávio

Se a cobertura de Lula no caso Master é feita de contiguidades, a de Flávio Bolsonaro é feita de antecedentes. Inicialmente as manchetes sobre Flávio Bolsonaro no caso Master disputam o sentido dos fatos. A revelação (“Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para filme sobre Jair, diz Intercept”) é logo recoberta pela defesa (“admite cobrança a Vorcaro, mas nega crime”). A notícia deixa de ser o dinheiro e passa a ser a credibilidade  (“Flávio, que agora admite pedido de dinheiro, disse há dois meses que nunca teve contato com Vorcaro”; “Coaf desmente Flávio”). Cada versão nova serve de prova contra a anterior, até que o próprio silêncio vira acontecimento (“Áudio […] completa 100 dias sem respostas”), com a intimidade com o banqueiro (“Irmão, estou contigo”) como pano de fundo.

Presente também como voz, Flávio é colocado como ator que tenta redirecionar o foco do caso. Em março, “Flávio Bolsonaro pede impeachment de Moraes após mensagens de Daniel Vorcaro” é registro neutro. Em setembro, o gesto equivalente vem precedido de um aposto que o implica: “Também implicado no caso Master, Flávio Bolsonaro pede renúncia de Moraes”, “Envolto no caso Master, Flávio Bolsonaro critica PT após operação da PF contra líder do governo”. O duelo com Lula também é arbitrado, e não apenas simetrizado. A mesma frase aparece como fala (““Quem deve explicações é Lula”, diz Flávio sobre Vorcaro”) ou como evasão (“Flávio não explica visita a Vorcaro: ‘Quem deve esclarecimento é Lula'”).  

Na voz de Flávio, observa-se uma tentativa de deslocar o eixo interpretativo do caso Master, convertendo-o em um escândalo centrado no banco e em seus envolvidos em um “caso Moraes”. Setembro é dominado pelo confronto com o STF (“Flávio Bolsonaro pede ao STF que declare Moraes suspeito para julgar Vorcaro e caso Master”, “Alexandre de Moraes é laranja podre dentro do STF, diz Flávio Bolsonaro”, “Flávio associa Lula a Moraes e diz que pretende acabar com consórcio entre os dois”). A manobra funciona até a quebra de sigilo devolvê-lo ao ponto de partida, numa manchete sem adjetivos: “Flávio Bolsonaro é investigado por lavagem e corrupção em repasses de Vorcaro a filme”. 

No plano eleitoral, a imprensa terceiriza o julgamento a instâncias que soam técnicas. O mercado reage como tribunal (“Dólar sobe 2% e supera R$ 5, juros disparam e Ibovespa despenca com reportagem que liga Flávio Bolsonaro a dono do Master”), e os vínculos se convertem em percepção de culpabilidade (“Para 62%, Flávio Bolsonaro sabia que Vorcaro era corrupto ao pedir dinheiro”). Leituras de resiliência existem (“Master tem impacto inicial modesto sobre voto em Flávio”, “Flávio estanca sangria após caso Master, mostra Datafolha”), mas, ao contrário de Lula, Flávio não tem no Master nenhum trunfo.

Sua agenda é lida como fuga (“Flávio busca foto com Trump para tentar virar página da crise envolvendo Vorcaro”, “Flávio Bolsonaro aposta na Copa do Mundo para desviar foco do escândalo Master”). Na arena institucional, o mesmo ato judicial recebe nomes opostos: “Nunes Marques suspende pesquisa que apontou queda de Flávio Bolsonaro após diálogos com Vorcaro” em um veículo, “Flávio Bolsonaro quer censurar pesquisa Atlas que o mostra derretendo por elo com Daniel Vorcaro” em outro. As ações do supremo também são lidas como estratégias eleitorais: “Mendonça censura imagem e expõe blindagem a Flávio Bolsonaro no escândalo do Banco Master”.

 No conjunto, o corpus registra um campo de forças opostas: um candidato que empurra o caso para a arena institucional, onde sabe mobilizar sua base, e por outro lado, uma disputa política que o traz de volta aos fatos. 

Considerações finais

O caso Master entra na disputa presidencial como uma variável de competição. A cobertura o lê pela lente das pesquisas, das intenções de voto e da viabilidade das candidaturas, e o distribui entre os presidenciáveis de forma diferente. Flávio Bolsonaro, domina o corpus principalmente com a divulgação dos seus áudios com Vorcaro; Lula, sem figurar como investigado, alcança volume comparável no segundo semestre. Nessa segunda etapa, há uma disputa sobre a quem ele pertence. Os demais candidatos aparecem apenas como cobradores ou coadjuvantes, confirmando que o valor eleitoral do escândalo se concentra onde a atribuição de responsabilidade é plausível, ainda que apenas sugerida.

Notas Metodológicas

Coleta de dados. As manchetes foram coletadas em setembro de 2026 na plataforma Media Cloud (https://search.mediacloud.org/), por busca das expressões “Caso Master” e “Banco Master” no acervo de notícias on-line, no período de primeiro de janeiro de 2026 a 16 de setembro de 2026. A busca do Media Cloud incide sobre o texto completo das matérias; as análises subsequentes consideram apenas o título.

Análise de conteúdo. Sobre o corpus completo de manchetes, a distribuição por candidato foi obtida por um dicionário de presidenciáveis (Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury) aplicado ao título; cada manchete conta uma vez para cada candidato citado, e os percentuais, sobre o total do corpus, não somam 100%. A série mensal agrega a mesma base pela data de publicação. A co-ocorrência foi verificada com um dicionário de 30 atores (Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa, Daniel Lopes Monteiro, Dário Oswaldo Garcia Junior, André Felipe de Oliveira Seixas Maia, Henrique Souza e Silva Peretto, Alberto Felix de Oliveira, Robério Cesar Bonfim Mangueira, Luiz Antonio Bull, Angelo Antonio Ribeiro da Silva, Augusto Ferreira Lima, Fabiano Zettel, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, Marilson Roseno da Silva, Paulo Sérgio Neves de Souza, Belinne Santana, Ana Cláudia Queiroz Paiva, Leonardo Palhares, Ciro Nogueira, Felipe Cançado Vorcaro, Bernardo Rodrigues de Oliveira Filho, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, Henrique Moura Vorcaro, Cláudio Castro, Jaques Wagner, Thiago Miranda Silva, Dias Toffoli, André Mendonça, Flávio Dino, Alexandre de Moraes), detectados no título por nome completo ou sobrenome. Cada par manchete–ator conta uma vez; o percentual é a proporção das manchetes do candidato em que o ator também aparece. 

Análise de enquadramentos. Para esta etapa, foram analisados os enquadramentos dos dois candidatos mais competitivos dessas eleições. As manchetes foram filtradas no RStudio por três dicionários aplicados exclusivamente ao título: o de presidenciáveis , o termo “master”, e/ou atores diretamente envolvidos no inquérito do caso master. Após a filtragem foi usada uma análise de conteúdo assistida, junto a uma análise exploratória para a redação final.

Referências
AZEVEDO, F.A. Corrupção, mídia e escândalos midiáticos no Brasil. Em Debate (Belo Horizonte), v. 2, p. 14-19, 2010

THOMPSON, J.B. O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia. Petrópolis, RJ: Editora Vozes. 2002.

  1.  Os dados utilizados nesta análise foram coletados na plataforma Media Cloud (https://search.mediacloud.org/), por meio de buscas em seu acervo de notícias on-line. A coleta foi realizada em setembro de 2026. ↩︎

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