De onde vem os votos do PL e PT na Câmara dos Deputados?
O PL foi o partido mais votado para deputado federal em 2026, mas é o PT que tem a votação mais bem distribuída entre os estados.
O Partido Liberal (PL) teve a maior porcentagem de votos para a Câmara dos Deputados em 2026, com 22,7% dos votos válidos, quase dez pontos à frente do Partido dos Trabalhadores (PT), com 13,0%. Mesmo nesse cenário, é o PT que tem o voto mais bem distribuído no país, embora o PL se aproxime.
Na Ciência Política, é comum medir o tamanho dos partidos pela porcentagem de votos nacionais (Laakso e Taagepera, 1979). Mas o total de votos não permite observar como eles se distribuem no território (Jones e Mainwaring, 2003; Caramani, 2004). Como observam Jones e Mainwaring (2003), dois partidos podem ter uma alta votação nacional e, ainda assim, o partido A concentrar seus votos em poucos estados, enquanto o partido B tem votações similares em todos eles.
A nacionalização partidária busca medir, portanto, esse grau de homogeneidade do voto dos partidos na disputa eleitoral. Isto é, o quanto a votação do partido em um estado se reproduz de maneira semelhante nos demais. Para mensurá-lo, Jones e Mainwaring (2003) utilizam o Party Nationalization Score (PNS), calculado como 1 menos o coeficiente de Gini, que é famoso por sua aplicação no índice de desigualdade de renda. Aqui, o coeficiente tem o mesmo sentido, mas, em vez de observar a desigualdade da renda entre as pessoas, observamos a desigualdade do voto de cada partido entre os estados.
O índice utiliza as eleições para a Câmara dos Deputados como principal fonte. Quanto mais próximo de 0, mais desigual é a distribuição do voto do partido, concentrado em poucos estados; quanto mais próximo de 1, mais similar ela é entre os estados. Ou seja, um partido que obtém 10% dos votos em um estado tende a obter uma porcentagem parecida nos demais.
Nesse sentido, investigamos o nível de nacionalização dos dois partidos mais votados, PL e PT, que também protagonizam a disputa pela presidência no segundo turno.
Nacionalização do PT e do PL no quadro partidário
De 1998 a 2014, o cenário eleitoral se estruturava em torno da disputa de três grandes partidos, o PSDB, o PMDB e o PT (Morais et al., 2019). O Partido dos Trabalhadores era um dos partidos com o maior índice de nacionalização, em um cenário de baixa nacionalização partidária em comparação com os demais países das Américas (Jones e Mainwaring, 2003). Esse cenário de disputa muda nas eleições de 2018, quando Jair Bolsonaro concorreu à presidência pelo PSL. À época, o PSL obteve 11,6% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, enquanto o PT obteve 10,3%. Ainda, o Partido Social Liberal (PNS = 0,62) se aproximou do nível de nacionalização do Partido dos Trabalhadores (PNS = 0,69). Mas, naquela época, o PP e o PR eram os partidos com os maiores índices de nacionalização, com PNS = 0,73 e PNS = 0,71.
Esses dados mostram que o PR, que posteriormente se torna o PL, já apresentava uma presença significativa nos estados brasileiros. O que aconteceu, então, nas últimas três eleições, com os partidos que detinham os maiores índices de nacionalização em 2014?

Como sinaliza a figura 1, o MDB, antigo PMDB, passa de um índice de 0,74 em 2010 para 0,44 em 2026; o PSDB passa de 0,67 para 0,38. Os dois partidos, que antes disputavam nacionalmente com o PT, agora se regionalizam. O MDB tem maior ênfase em estados do Norte e do Nordeste, como Pará (28,7%) e Maranhão (22,9%). Já o PSDB encolheu em quase todo o país. Em São Paulo, passou de 18,9% dos votos em 2010 para 1,1% em 2026.
Percebemos, também, que o PL, antigo PR, mantém um alto nível de nacionalização desde 2014. Nas eleições de 2014, 2018 e 2022, o partido ficou à frente do Partido dos Trabalhadores (em 2022, PNS = 0,73 contra 0,70). Em 2026 a ordem se inverte, o PT chega a 0,75 e o PL fica em 0,70.

A figura 2 mostra que, embora o PL tenha um PNS menor que o PT, ele superou o adversário em 22 das 27 unidades federativas. No entanto, há uma maior oscilação na sua porcentagem de votos entre os estados. Por exemplo, o PL vai de 1,8% em Alagoas a 40,5% em Minas Gerais, e o PT de 4,2% no Amazonas a 28,0% no Piauí.

Com os dados, observamos se o padrão de votação para presidente se repete para os partidos. Calculamos a correlação de Pearson entre a votação para presidente no primeiro turno e para deputado federal em cada estado. Os resultados indicam baixa correlação entre as porcentagens (0,45 para o PL e 0,30 para o PT), mas o padrão, em parte, parece se repetir na Câmara. Nos dois partidos, o voto para presidente supera o voto para deputado em quase todos os estados. O Rio Grande do Norte é uma a exceção, no estado a votação para presidente foi menor do que a dos candidatos à Câmara pelo PL (34,8% contra 39,3%). Quando observamos o PT, a distância é ainda maior. Há uma forte concentração de votos para presidente no Nordeste, mas baixa votação para deputados do mesmo partido. No Maranhão, foram 64% para presidente e 6% para deputado.
Conclusão
Esses resultados nos sugerem que o voto para presidente não se transfere por inteiro para os deputados do mesmo partido. O partido mais votado tem uma base territorial um pouco mais desigual, concentrada no Sudeste e no Centro-Oeste, enquanto o PT mantém presença regular, com picos no Nordeste, o que impacta nas estratégias eleitorais que esses partidos podem assumir no futuro. Além disso, por serem os partidos mais nacionalizados e com grande votação, espera-se deles uma atuação na Câmara mais voltada a políticas públicas nacionais do que regionais. Resta observar se isso se confirma em um quadro em que partidos como MDB e PSDB se regionalizaram.
Os dados de 2026 são preliminares e podem ser atualizados pelo TSE. O índice dá o mesmo peso a todos os estados, independentemente do tamanho do eleitorado, e a diferença entre PT e PL em 2026 é pequena. Em 2010 e 2014, os arquivos do TSE não separam os votos anulados.
Fontes: TSE, Portal de Dados Abertos, votação por partido, município e zona (2010 a 2026). · Texto fechado em 13/10/2026.
Referências
CARAMANI, Daniele. The Nationalization of Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
JONES, Mark P.; MAINWARING, Scott. The Nationalization of Parties and Party Systems: An Empirical Measure and an Application to the Americas. Party Politics, v. 9, n. 2, p. 139-166, 2003.
LAAKSO, Markku; TAAGEPERA, Rein. “Effective” Number of Parties: A Measure with Application to West Europe. Comparative Political Studies, v. 12, n. 1, p. 3-27, 1979.
MORAIS, Leonardo Rodrigues de; NASCIMENTO, Willber; SILVA JÚNIOR, José Alexandre da; SANTOS FILHO, Ranulfo Paranhos dos; LIMA, Albany Ferreira. A nacionalização dos partidos e do sistema partidário brasileiro. E-Legis, Brasília, n. 30, p. 54-71, set./dez. 2019.
João Vitor Bezerra
Mestrando em Ciências Sociais (PPGCS) na UFRPE
Contato: joabezcs@gmail.com