Nem sempre a corrupção sai pela culatra…

Os protestos de 2013 mostram que a percepção de corrupção pode levar cidadãos às ruas. A crise do Banco Master, porém, levanta outra questão: quando a corrupção atinge o árbitro das regras do jogo, a indignação ainda pode se transformar em mobilização? Sim, mas depende de como a corrupção está sendo percebida. 

A relação entre corrupção e participação política parece, à primeira vista, contraditória. A expectativa mais comum na literatura é que perceber corrupção produza desconfiança nas instituições, reduza a sensação de eficácia política e afaste os cidadãos da política. Se as regras são sistematicamente violadas e aqueles que deveriam fiscalizá-las parecem incapazes de fazê-lo, por que participar? A corrupção pode, assim, produzir cinismo, resignação e desengajamento.

Mas essa história não explica tudo. O Brasil já mostrou que a indignação com a política também pode levar cidadãos às ruas. Em 2013, entre as muitas reivindicações que atravessaram os protestos, estavam a insatisfação com instituições políticas, serviços públicos e corrupção. Em 1999 e em 2010, houve grandes movimentos sociais engajados e determinados a passar as duas maiores leis anticorrupção do país: a Lei Contra a Compra de Votos e a Ficha Limpa. 

Então, afinal, quando a corrupção mobiliza e quando ela desmobiliza?

Em artigo recentemente publicado na American Behavioral Scientist, examinei uma parte dessa questão a partir de dados do Brasil entre 2007 e 2017. Em vez de tratar “percepção de corrupção” como uma atitude única, diferenciei duas maneiras pelas quais os cidadãos podem interpretar o problema. A primeira é perceber a corrupção como o principal problema do país. A segunda é considerar que o governo não está fazendo o suficiente para combatê-la.

Os resultados mostram uma diferença importante. A atenção diária às notícias esteve associada à participação em protestos, e parte dessa associação passou pela percepção de corrupção. Mas o tamanho desse efeito variou conforme a forma de interpretar o problema: quando a corrupção era percebida como o principal problema do país, cerca de 30% da associação entre consumo de notícias e protesto passava por essa percepção. Quando a percepção era de que o governo não fazia o suficiente para combater a corrupção, esse percentual era de aproximadamente 5%.

A diferença está no modo como a corrupção é interpretada. Quando ela é percebida como o principal problema do país, aparece como uma questão ampla e coletiva, que não diz respeito apenas ao governo ou às autoridades. Essa interpretação pode fazer com que o cidadão se perceba como parte do problema — e, portanto, também como alguém que pode participar de sua solução. Já quando a corrupção é percebida como resultado da inação do governo, a responsabilidade é concentrada nas autoridades: o problema existe, mas cabe ao Estado enfrentá-lo. O cidadão pode reconhecer a gravidade da situação sem necessariamente enxergar um papel claro para si.

Isso ajuda a entender por que a corrupção pode produzir efeitos tão diferentes sobre a participação política. Não é apenas a existência de uma percepção de corrupção que importa, mas também como a corrupção é definida. A definição da corrupção pode chamar a atenção para diferentes aspectos, como ser colocado como um problema coletivo, ou um problema de uma classe. 

Essa distinção também ajuda a entender por que determinadas mensagens anticorrupção podem sair pela culatra. Pesquisas experimentais mostram que mensagens que enfatizam a corrupção como generalizada e sistêmica podem aumentar o cinismo e a percepção de que “nada vai mudar”. Em vez de produzir cobrança, a exposição repetida a escândalos pode reforçar a sensação de que a corrupção é inevitável. Por outro lado, mensagens que apresentam problemas específicos, responsáveis identificáveis e soluções concretas podem oferecer aos cidadãos um caminho mais claro para a ação.

Minha pesquisa qualitativa sobre movimentos anticorrupção no Brasil aponta para a mesma direção. Os movimentos que conseguiram transformar indignação em mudança institucional — como as campanhas que contribuíram para a aprovação da Lei da Compra de Votos, em 1999, e da Lei da Ficha Limpa, em 2010 — não se limitaram a denunciar a corrupção. Eles apresentaram demandas concretas, compreensíveis e institucionalmente possíveis. Em outras palavras, transformaram indignação em agência: mostraram não apenas que havia um problema, mas também o que poderia ser feito e como os cidadãos poderiam participar.

É justamente por isso que a atual crise envolvendo o Banco Master e o STF é politicamente interessante para pensar as eleições de 2026. O caso não envolve apenas a percepção de corrupção no governo, mas suspeitas e alegações que alcançam pessoas relacionadas a uma instituição encarregada justamente de arbitrar conflitos e garantir o cumprimento das regras. As acusações são contestadas e continuam sendo objeto de investigação e disputa institucional. O ponto, portanto, não é afirmar que houve corrupção no STF, mas perguntar o que acontece com a participação política quando a própria instituição que deveria ajudar a estabelecer quem deve ser responsabilizado passa a ser objeto de suspeitas.

Nesse cenário, a pergunta deixa de ser apenas “quem deve resolver o problema?” e passa a ser “quem fiscaliza quem fiscaliza?”.

Quando existe um alvo relativamente claro — por exemplo, um governo acusado de não combater a corrupção — é possível formular uma demanda, atribuir responsabilidade e cobrar uma resposta. Quando as suspeitas alcançam diferentes instituições que deveriam fiscalizar umas às outras, o caminho para a ação se torna menos evidente. A indignação pode continuar existindo, mas pode ser mais difícil transformá-la em uma demanda política concreta. Em vez de produzir participação, ela pode alimentar a sensação de que não há para quem recorrer.

Isso não significa que a crise necessariamente desmobilizará os cidadãos. Em determinados contextos, justamente a percepção de que as instituições falharam pode gerar protestos, pressão pública e novas formas de organização. O ponto é que a indignação, por si só, não garante mobilização. Para que ela se transforme em ação coletiva, é preciso algum mecanismo que conecte o diagnóstico do problema à possibilidade de fazer alguma coisa a respeito.

Esse talvez seja um dos dilemas políticos mais importantes que a crise atual coloca para 2026. Em um cenário de crescente exposição a denúncias, suspeitas e conflitos entre instituições, a questão não será apenas quanto os brasileiros perceberão corrupção, mas como interpretarão o que estão vendo. A percepção será de um problema específico, diante do qual é possível cobrar mudanças? Ou de um sistema tão contaminado que nenhuma instituição parece capaz de corrigi-lo?

A resposta pode fazer diferença para a participação política. A corrupção pode levar cidadãos às ruas quando a indignação vem acompanhada de uma sensação de responsabilidade e de um caminho possível para a ação. Mas, quando a mensagem predominante é a de que todos estão envolvidos e ninguém pode efetivamente responder pelo problema, a mesma indignação pode produzir o efeito contrário: cinismo, resignação e afastamento.

Para as eleições de 2026, portanto, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente se a corrupção vai mobilizar ou desmobilizar. É que tipo de percepção de corrupção está sendo produzido — e se essa percepção oferece aos cidadãos um motivo e um caminho para agir. 

Fontes: 

Carmo, A.R. (2026). From News Consumption to Protest: The Mediating Role of Corruption Perceptions. American Behavioral Scientist. DOI: 10.1177/00027642261484362.

Carmo, A. R. (2023). The mobilising power of corruption: assessing anticorruption movements in Brazil (Doctoral dissertation, King’s College London). Disponível em: https://kclpure.kcl.ac.uk/portal/en/studentTheses/the-mobilising-power-of-corruption-assessing-anticorruption-movem/. 

Andreia Carmo
18/09/2026
Pós-doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Jurídicas Programa de Pós-Graduação em Direito.
andreia.carmo@gmail.com

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